O doce ritual do guru da Amazônia

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Sentados: a psiquiatra Eugênia Turenko Beça e o poeta Anibal Beça. Em pé: a reitora da Universidade do Estado do Amazonas Marilene Corrêa da Silva Freitas e o sub-secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Amazonas Marcílio Freitas (foto by Rogelio Casado, em 2006)

Fevereiro de 1962. Ambos adolescentes e com pretensões literárias, Anibal Beça e Alexandre Otto costumavam visitar semanalmente o poeta Américo Antony, em sua residência, na rua Japurá, quase no canto da rua Joaquim Nabuco. O excêntrico “guru da Amazônia”, do alto de seus quase 60 anos, esperava ansiosamente pela visita dos moleques para brindá-los, em primeira mão, com a leitura de seus últimos sonetos.

Apesar de ter sido educado na Inglaterra, Américo Antony era uma figura rara que se orgulhava de suas origens indígenas: ele garantia que seu tetravô tinha sido o lendário tuxaua Manauí Camandry, um dos mais valorosos chefes dos índios Manaú, que dominavam a região do rio Negro, de Manaus até Barcelos, antes de terem sido dizimados pelos portugueses.

Autor em vida de um único livro de poemas, o festejado “Sonetos das Flores”, Américo Antony escreveu na capa do livro a seguinte advertência: “Estes versos são para serem lidos e meditados no mais profundo silêncio, quando o vaivém mundano ainda não haver maculado com as suas nódoas de ilusão o espelho puro, original e límpido das emoções verdadeiramente do Espírito”.

Américo Antony, em foto de 1932

Nessa época em que era visitado pelos moleques, Antony já estava na sua bad trip de se achar um novo Mahatma Gandhi: completamente pelado, ele se cobria com um lençol encardido, devidamente enrolado em dobras para emular um sári indiano, e ficava circulando pelo quintal da residência entoando mantras em voz alta. Quando Anibal Beça e Alexandre Otto chegavam, tinha início um novo ritual:

– Xandico, meu filho, vá até a taberna do Zé Magalhães e me traga um vidro de café solúvel. Quando voltares, já me traga a lata de leite condensado, a lata de Nescau e um bule de água fervendo, que quero preparar um cappuccino para os meus convidados! Mas vê lá, hein! Me vá num pé e volte no outro!

Xandico era Alexandre da Macedônia Antony, seu filho mais velho.

Alguns minutos depois, Américo Antony entregava uma xícara para um dos convidados e começava a recitar seus poemas.

Quando Xandico retornava da taberna, Américo Antony pegava a lata de leite condensado, soprava em um dos furos da lata, despejando dentro da xícara tanto o leite condensado quanto uma quantidade indescritível de perdigotos, colocava, em seguida, uma colher de café solúvel, outra colher de Nescau, a água fervendo até a borda a xícara e, só então, vinha o toque final.

Américo Antony visto por Áureo Mello

Para transformar a mistura em um cappuccino digno do nome, Américo Antony usava como colherinha uma gigantesca unha do dedo mindinho, que ele utilizava o tempo todo para retirar cera de ouvido.

Enquanto mexia com a unha na mistura dentro da xícara, para adiantar a diluição, o poeta ia recitando seus poemas.

Quando o cappuccino ficava pronto, ele oferecia a xícara a Anibal Beça, aparentemente seu pupilo favorito.

Anibal Beça, invariavelmente, agradecia a oferta e, com muito tato, explicava que estava fazendo dieta, ou que era alérgico a cacau, ou que era diabético, ou então prometia provar da iguaria na próxima vez.

A xícara era então passada para Alexandre Otto, que não podia recusar a oferta pela segunda vez porque seria uma indelicadeza inominável.

Além de beber o cappuccino com gosto, era de bom tom o convidado elogiar a beberagem, de preferência improvisando um soneto na hora.

Na semana seguinte, a presepada acontecia de novo.

Anibal era capaz de jurar de pés juntos que nunca provou do cappuccino do guru. Alguém acredita?…

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