O dileto amigo de Louis Armstrong

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Luís Carlos Miele, Isis Valverde e Francisco Cuoco

Por Luiz Carlos Miele

Além de Daniel Filho, eu e Hugo Carvana já fomos hóspedes também de José Sanz, uma das figuras mais interessantes de Ipanema e daquela geração maravilhosa do Cinema Novo. Sanz era diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna e, mais tarde, também da Editora Sabiá, de Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos.

Sua cultura cinematográfica era tão ampla quanto sua imaginação e ele exercia e exercitava as duas com a mesma sem cerimônia.

Por exemplo, estávamos todos sentados à mesa do bar Gôndola, em Copacabana, maldosamente chamado por alguns de Glândula, pois abrigava, entre tantos artistas, homossexuais de inúmeros sexos e tribos.

Lá pelas tantas, alguém comentou que havia assistido ao mais recente filme de Orson Welles, O Processo, baseado no livro de Kafka, e que havia no filme uma cena muito interessante, quando, num determinado diálogo, os atores faziam todos os movimentos da fala, mas não se ouvia som algum. Enquanto se discutia o que Orson Welles queria dizer (ou calar) com aquilo, o Sanz comentou:

– Vocês acharam curiosa a cena? Pois fui eu que sugeri.

– Ô Sanz, a gente está falando da cena do filme do Orson Welles.

– Exatamente. Orson Welles me convidou para ver o copião do filme, lá na Inglaterra e, no momento em que me mostrou a tal cena, me explicou que ainda faltava editar o áudio, ainda faltava dublar o filme. E eu respondi: Não coloca o som, não. Deixa assim que está muito interessante. Vai ficar um barato.

É claro que ninguém sabia daquela intimidade do Sanz com o Orson Welles, de maneira que aquela afirmação soava tão suspeita que, a partir de várias dessas sacadas, o nosso herói recebeu o apelido de “Sanz-Fiction” de tantas fantásticas afirmações de que ele foi capaz.

Eu ainda prefiro outro história envolvendo o Sanz e o Orson Welles. Durante a permanência no Brasil do genial diretor americano para rodar o tal filme dos pescadores que jamais foi terminado, ele teria tido uma briga por telefone com Rita Hayworth, sua esposa na ocasião. O Sanz presente, é claro.

Ela nos Estados Unidos, o cidadão Kane no Copacabana Palace. Muitos palavrões internacionais, o gênio não aguentou a barra e passou o telefone para o Sanz:

– Sanz, essa mulher está me enlouquecendo. Não sei mais o que fazer. Fala aqui com ela.

Segundo a narrativa que ouvimos de noite, no botequim, o papo Sanz-Rita foi o seguinte:

– Alô Rita, minha querida, é o Zé Sanz. É o seguinte, meu amor… Espera, deixa eu falar… Calma Rita, eu sei que você está nervosa, mas deixa eu explicar… Ô Rita, isso não vai levar a nada… Afinal, vocês dois se amam… Rita, fica relax… Rita… deixa eu falar… Porra Rita, fica quieta. Você sabe como é o Orson.

“Você sabe como é o Orson” foi, durante muitos anos, uma das minhas frases favoritas. Mas o Sanz era uma figura muito querida e raramente um dos amigos perdia a paciência com ele. Rubem Braga chegou a escrever uma de suas crônicas geniais contando a aventura que viveu com ele.

No tempo em que, no Rio de Janeiro, os intelectuais falavam e os animais escutavam, Rubem reunia uma turma de queridos jornalistas e poetas no bar Maxim’s. Entre generosas doses de um nobre uísque escocês legítimo, alguém sugeriu a democrática participação de sardinhas portuguesas.

– É isso mesmo. Vamos pedir umas sardinhas. Sanz, você quer também?

– Não, muito obrigado. Eu só como sardinhas do Báltico.

Ainda sob o impacto recente do “você sabe como é o Orson”, Rubem Braga não aguentou:

– Que história é essa de sardinhas do Báltico, porra? Onde é que tem sardinhas do Báltico no Rio de Janeiro?

– Na minha casa tem. Eu só como sardinhas do Báltico.

Rubem resolveu colocar um ponto final naquelas viagens e provocou:

– Então vamos lá agora pra comer as suas sardinhas do Báltico.

Apanhado de surpresa, Sanz tentou retrucar:

– Mas agora são duas da manhã, minha mulher vai me matar se eu chegar com vocês lá em casa e essa hora.

Rubem foi irredutível:

– Que nada, sua mulher é igual à Rita Hayworth, ela sabe como é o Sanz.

E sob inúteis protestos, aquela verdadeira academia brasileira de letras seguiu a pé até o apartamento de José Sanz, que foi obrigado a pedir desculpas à mulher (que acordou, é claro), levar a comissão julgadora até a cozinha e abrir os armários para mostrar para seus queridos e estupefatos amigos dezenas de latas de sardinhas do Báltico.

Derrotado inapelavelmente, Rubem Braga publicou a crônica narrando o fato, e Sanz ficou liberado para novas aventuras.

Eu e Hugo Carvana privamos de sua intimidade e generosidade, pois ele nos cedeu o espaço de dois quartos em seu apartamento, onde fomos morar depois que ele se separou. Cedeu só o espaço mesmo, pois não havia um móvel no apartamento.

Nós na época só faturávamos uma graninha nas dublagens das séries estrangeiras de aventuras, de maneira que o dinheiro era muito curto e a geladeira e a despensa não chegaram a conhecer nem as sardinhas Coqueiro, quanto mais as do Báltico.

Acho que em casa só tomávamos café e uns copos de leite e, eventualmente, devíamos comprar uma garrafa de rum (uísque nem pensar) para as cuba-libres, o que levou a empregada a uma decidida declaração:

– Os senhores eu não sei, mas eu preciso comer, poxa.

Passávamos os dias fazendo os planos de cada carreira, os shows que iríamos fazer, os filmes que o Hugo iria dirigir. Quando não estava na cinemateca do Museu, o Sanz estava escrevendo um interminável roteiro que nunca foi filmado e dando aquelas aulas de cinema para a gente:

– Tem um jovem polonês muito interessante chamado Roman Polanski, que terminou agora um filme chamado A faca na água, que vai chegar ao Brasil no ano que vem. Ficamos amigos em Paris e fomos juntos ao show do Louis Armstrong, que é meu amigo. Fiquei até de mandar pra ele umas gravações de carnaval, vê se vocês me lembram ainda essa semana.

É claro, deixa com a gente, piscávamos um para o outro e íamos tomar mais uma cuba-libre. Bem feito. No sábado, tocou a campainha, era o correio com um grande envelope. Dentro, um novo LP do Armstrong. Autografado, é claro:

“Dear Sanz. This is my last album. I hope you like it. Your friend. Satchmo.”

A gente com cara de tacho e o Sanz numa boa:

– Estão vendo, o Armstrong já me mandou o disco dele e eu nem me lembrei das gravações do carnaval.

E então nos lembramos de outra cena maravilhosa, quando, na mesa de um bar qualquer, alguém comentou sobre o filme do Chaplin Um rei em Nova York. Imediatamente o Sanz emendou:

– Eu já vi. É muito ruim. O Carlitos era genial, mas o Chaplin é um chato.

– Como é que já viu, Sanz? O filme estreou essa semana em Paris.

– Pois então. Eu estive em Paris e vi o filme.

– Mas Sanz, o filme estreou a semana passada na França. Você passou a semana toda bebendo com a gente.

– A semana toda não. Eu fui na sexta-feira e voltei segunda de manhã.

Quando a mesa toda se prepara para começar a discutir, adentra ao bar a Luiza Barreto Leite, na ocasião Sra. José Sanz. Pronto, ele estava perdido, pega na mentira. Mas enquanto ela se aproximava da mesa, ele rapidamente avisou:

– Ninguém fala nada não, que ela não sabe que eu fui a Paris, eu disse a ela que fui a Petrópolis, para o sítio de um amigo.

E assim, ficávamos todos entre suas verdades e fantasias. Teria sido mesmo ele que recomendou o nome de Tom Jobim a Frank Sinatra? Ou que teria dito ao pai de Steven Spielberg para insistir com os estudos de cinema que “esse seu garoto leva muito jeito”?

Nunca saberemos. Numa de suas viagens, ou “viagens”, com aspas ou não, ele avisou à turma que tinha que ir a Berlim para fazer parte do júri do Festival de Cinema, em que Ruy Guerra concorria com o filme Os fuzis. Ele ia, dizia, para dar uma força ao amigo e ao cinema brasileiro. Voltava na segunda-feira, é claro. Era bom que quem estivesse no apartamento naquela ocasião desse um dinheirinho para o fim de semana (a empregada precisava comer).

Na segunda-feira, O Globo chegou aos bares antes dele, com a seguinte notícia: “O filme brasileiro Os fuzis, de Ruy Guerra, ganha o Urso de Prata em Berlim. No júri, Otto Preminger, Silvana Mangano e José Sanz, entre outros”. Comentário dele, mais tarde, no bar:

– Quase que a gente belisca o ouro, mas o Antonioni tem ainda muito prestígio.

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