O chifre e o processo civilizatório

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Por Xico Sá

Não tem jeito mesmo. Só um chifre humaniza um macho. Daqueles bem botados. Nem que seja apenas como arma de vingança, como reza a lírica do cancioneiro brega de Carlos Alexandre ou Bartô Galeno – “no toca fita do meu carro, uma canção me fez lembrar você”.

Um chifre daqueles que nos faz furar o LP com “Stephanie Says”, do Velvet, ou nos põe como a “última das criaturas”, ao sentir as batidas dos pingos da tempestade contra o vidro do apartamento. Aí entra Tom Waits, que gorjeia “This One’s from the Heart”, aquela do fundo do coração, o filme. Como sofri com isso na 404 Norte, Brasília, DF.

Posso tocar mais uma da fita “o fino do corno”, que acabo de gravar? Então lá vai, segura aí, alta fidelidade do Crato: “Les amours perdues” do canalha-do-bem Serge Gainsourg. Essa é para chorar, como convém a quem deixou rastros de incompetência e merda sentimentais pelo caminho. Chifre posto, lá estamos nós, répteis do amor – agora entra “Por que me arrasto aos teus pés”, do rei Roberto, para coroar a breguice dos humilhados e ofendidos.

Muitas vezes nós, animais, encanamos menos por amor do que pelo medo da literatura comparada: tudo que queremos saber é apenas se o adversário, a quem sempre vemos como o Pelé do tantra, o Cassius Clay do priapismo, o fodão da Mirueira, é melhor que nós. Quando insistimos, ouvimos que sim, mesmo que a sinceridade implore, baixinho, por um não.

A literatura comparada é o golpe fatal. E que gazela perderia a chance, diante da pergunta do imbecil, de empurrar o sujeito para o abismo, sete palmos de terra nos olhos. Aí não tem cachaça ou Bourbon que curem. O diabo da comparação. A verdadeira inveja do pênis, coisa que sempre foi exclusiva dos cornos e jamais das mulheres.

Agora vale “Angustia” ou “Corazón sin Fe”, de Bienvenido Granda, mais conhecido em Cuna como “o bigode que chora”.

É o fim. O mais confiante dos priápicos, o taco de ouro da velha Lapa, o Buttman recauchutado… Todos sucumbem diante da literatura comparada. E se a nega, toda saltitante, aparecer na firma com aquele sorriso franco, aquela pele remoçada…

Nunca vamos imaginar que possa ter sido uma combinação perfeita entre o Prozac e o creme de vitamina C + coenzima Q10, obra e graça da renovadora indústria cosmética!

Sempre pensaremos no desastre-mor, no grito selvagem (dela) de prazer. Sempre achamos que a desgraçada, a miserável, descobriu, finalmente, todos aqueles multiorgasmos fresquinhos anunciados pela revista Nova.

A capa da Nova é a primeira imagem que temos. A perua toda feliz com a carga elétrica de 220 volts que recebeu do tigrão.

Assim mesmo. Pois a vida é simples e por isso mesmo sempre vai imitar aquela singela crônica de Rubem Braga, motivo de tantos porres com o amigo Evaldo Costa.

Lá para as tantas, uma tal de Joana entra no carro de um palhaço, toda aconchegada a ele, meia tonta de uísque, vai para o apartamento dele – um imbecil que não sabe uma só palavra de esperanto.

A vida é triste, Sizenando, conclui o escriba. Eu não falei.

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