O cavaquinhista de Leci Brandão

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Numa das vezes em que veio a Manaus, a cantora Leci Brandão chegou com dois dias de antecedência para fazer compras na Zona Franca. Seu parceiro, Zé Maurício, que tocava banjo e cavaquinho na banda, aproveitou a folga para participar de uma roda de pagode no boteco “Sovaco de Cobra”, lá pras bandas da Cidade Nova. Apesar dos óculos fundo de garrafa que lhe deixavam com uma bizarra aparência de nerd, Zé Maurício era um pagodeiro inveterado, exímio tocador de instrumentos de corda e biriteiro de carteirinha.

A roda de pagode começou ao meio-dia. Por volta das seis da tarde, os pagodeiros resolveram mudar de bar e foram para o “Rasga Velha”, no Zumbi dos Palmares. Zé Maurício foi junto, já morto de porre. Para reanimar o músico, os “manos” fizeram ele cheirar uma carreirinha de brilho. Zé Maurício ficou elétrico. Para diminuir a agitação do músico, os “manos” fizeram ele apertar um imenso baseado de “dirijo”. Foi pior: a mistureba de droga com birita perturbou o juízo do sujeito. Zé Maurício colou o platinado de vez.

Preocupada com o sumiço do músico, Leci Brandão foi na Rádio Difusora e pediu ajuda ao radialista Ormando Barbosa, que comandava o programa noturno “Clube do Samba”. Ormando colocou a cantora no ar, que fez um apelo dramático:

– Olha, gente, aqui quem fala é a Leci Brandão. Se vocês encontrarem por aí um sujeito alto, branco, de óculos de grau, com um banjo amarrado nas costas, por favor, peguem ele do jeito que estiver e levem ao Hotel Imperial, que eu pago a corrida. Ele é o Zé Maurício, músico da minha banda, e não conhece a cidade direito. Com certeza ele deve estar perdido em algum lugar e não sabe como chegar ao hotel…

O apelo não deu em nada. Zé Maurício só foi devolvido pelos “manos” às seis da tarde do dia seguinte, ainda completamente alucinado. Leci Brandão estava mordida com a irresponsabilidade do músico. O jeito foi levar ele naquele estado para o Clube da Caixa, onde ela e sua banda se apresentariam às 11 da noite. Zé Maurício ficou deitado no sofá do camarim, tirando uma soneca.

Na hora do show, com a banda já tirando os primeiros sons dos instrumentos, Leci Brandão notou a ausência do cavaquinhista. Ela então começou a brincar no microfone:

– Zé Maurício, Zé Maurício, cadê tu, rapá? A gente tá sentindo a tua falta…

Lá no camarim, Zé Maurício escutou aquilo, se levantou ainda meio grogue, e saiu correndo em direção ao palco. Enfiou a cara em uma porta de vidro temperado. Foi caco de vidro pra tudo quanto é lado. Seus óculos se partiram em mil pedacinhos. O show foi paralisado para prestarem os primeiros socorros ao músico, cheio de cortes no rosto.

Leci Brandão não estava apenas mordida. Ela agora estava tão puta da vida que seus olhos faiscavam.

Tentando manter o sangue-frio, a cantora começou a brincar no microfone:

– Tem alguém na plateia que saiba tocar cavaquinho? Ou alguém que saiba tocar banjo? Porque o meu músico, coitado, se excedeu na manguaça e está sem condições de jogo… E sem cavaquinho ou sem banjo, o samba não é o mesmo…

Como ninguém se manifestava, Caio do Cavaco e Edu do Banjo, que estavam na plateia, resolveram dar uma mãozinha pra cantora e tiveram seus quinze minutos de fama. Quase que o Zé Mauricio perdia o emprego no mesmo dia…

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