O caso Delmo: A versão dos acusados (8)

0

Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

Auto de qualificação e interrogatório do réu Sebastião da Silva Pardo, vulgo “Sabazinho”, na forma abaixo:

Aos 6 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 10h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª. Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Sebastião da Silva Pardo, vulgo “Sabazinho”, brasileiro, natural deste Estado, casado, com 26 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Luiz Gonzaga Pardo e de Maria da Silva Pardo, residente e domiciliado nesta cidade, no Boulevard Amazonas nº 100, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que ao tempo em que foi cometida a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado se encontrava fazendo um serviço, no seu carro de praça, para um rapaz;

Que teve notícia do rapto de Delmo, mais ou menos às 19h45, por alguns populares quando se dirigia para o local do crime, na estrada de São Raimundo;

Que quando se deu o assassinato de Delmo, o interrogado se encontrava a caminho daquele local onde a vítima foi assassinada;

Que teve notícia desse assassinato quando foi preso, nas imediações dos Bilhares;

Que sobre as provas contra si já apuradas, principalmente referentes ao seu depoimento policial tem a dizer que não foi coagido pelas autoridades da Polícia Civil e procurou falar a verdade, esclarecendo o que sabia sobre os acontecimentos narrados na denúncia;

Que conhecia, de vista, a vítima há uns dois anos, pois muitas vezes ela fazia corridas no carro do interrogado, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria conhece apenas duas, também de vista, e que são Manoel da Rocha Barros e Manuel Rodrigues, nada tendo a alegar contra eles;

Que não conhece nenhum instrumento e objetos que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita, pois não assistiu o interrogatório e assassinato de Delmo.

Que também não tomou parte no assalto à ambulância;

Que não sabia se existia algum plano no sentido de assaltar a ambulância;

Que não esteve no Palácio Rio Negro numa comissão de choferes;

Que naquele dia, mais ou menos às 19h45, o interrogado se encontrava no “ponto” com o seu carro de nº 163, em frente ao Pavilhão;

Que entraram no seu carro várias pessoas as quais pediram ao declarante que as conduzisse para onde tinham levado Delmo;

Que algumas pessoas que embarcaram no seu carro eram choferes profissionais e chegaram até as imediações dos Bilhares onde foram presos pelo doutor Manoel da Rocha Barros e também aí já se encontrava o carro do chofer Cruz que vinha de dentro da estrada velha de São Raimundo;

Que não se recorda dos choferes e nem dos números dos carros que se encontravam naquele local;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Orlando Marreiro Lúcio, na forma abaixo:

Aos 6 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 11h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Orlando Marreiro Lúcio, brasileiro, natural deste Estado, solteiro, com 19 anos de idade, nascido no dia 27 de março de 1933, chofer, filho de Odilon Ribeiro Lúcio e de Raimunda Ribeiro Marreiro, residente e domiciliado nesta cidade, à avenida Joaquim Nabuco, Vila Pedrosa, nº 44, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado. Tendo o réu declarado ter 19 anos, o Meritíssimo Juiz nomeou-lhe curador, aqui presente, o Doutor Lopes Martins Filho, o qual aceitou.

Que ao tempo em que se deu a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado vinha descendo a avenida Getúlio Vargas, a pé, e estava nas imediações do posto de gasolina que fica no canto daquela avenida com a rua Dez de Julho;

Que teve notícia do rapto ao chegar na avenida Sete de Setembro, onde termina a Getúlio Vargas, no canto do Ginásio Amazonas e, aí, se encontrava uma multidão comentando que Delmo Campelo Pereira tinha sido raptado da ambulância do Serviço de Socorros de Urgência;

Que naquela ocasião seriam mais ou menos umas 19h35 e a ambulância já não se encontrava no local;

Que quando se deu o assassinato de Delmo o interrogado se encontrava nas imediações dos Bilhares, pois quando saiu do local do crime Delmo ainda estava sendo interrogado;

Que sobre as provas contra si já apuradas e referentes ao seu depoimento policial tem a informar que as suas declarações feitas junto à autoridade policial foram a expressão da verdade e contou o que sabia a respeito dos fatos narrados na denúncia;

Que não foi coagido e nem espancado e nem obrigado a declarar coisas que não aconteceram;

Que prestou esse depoimento numa das dependências da Polícia Civil por sua livre e espontânea vontade;

Que o interrogado confirma totalmente o seu depoimento prestado na Polícia Civil e que lhe foi lido agora neste momento;

Que não conheceu a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria o interrogado conhece de vista Manoel da Rocha Barros, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que não conhece nenhum instrumento ou objeto que ora lhe são apresentados;

Que é verdadeira a imputação que lhe é feita, isto é, esteve no local do crime e assistiu o interrogatório e espancamento de Delmo, porém não esteve presente quando Delmo foi assassinado;

Que conforme já disse, quando se encontrava nas imediações do Ginásio Amazonas, onde teve conhecimento do rapto de Delmo, viu um carro cheio de choferes os quais o convidaram a embarcar;

Que não se lembra do nome desses choferes e nem do número do carro;

Que, em companhia desses choferes, o interrogado foi conduzido pela estrada velha de São Raimundo e pararam um pouco acima onde fica o Batuque da Mãe Joana;

Que ali já se encontravam diversos carros, não se lembrando do número deles;

Que no momento não se lembra dos choferes que estavam naquele local e, logo depois, seguiram por uma vereda e caminharam uns trezentos a quatrocentos metros e chegaram ao local onde se encontrava Delmo Pereira;

Que nesse local Delmo estava sendo interrogado pelo chofer Cesário e pelo chofer Cruz;

Que o chofer Cruz não se lembra se estava de arma em punho;

Que neste momento não se lembra dos nomes dos choferes que espancavam Delmo;

Que Delmo pedia aos choferes que não o matassem;

Que se encontravam nesse local, entre outros, “Pirulito”, Manoel Cruz, Cesário, “Puxa Faca” e “Carioca”;

Que no momento não se recorda dos outros;

Que não podendo mais suportar essas cenas o interrogado retirou-se e foi até o local onde tinham parado os carros;

Que o interrogado ficou um pouco nesse local porque não tinha condução e por isso esperou a volta dos choferes que estavam no local onde Delmo era interrogado;

Que quando voltaram o interrogado entrou no carro nº 163, onde também embarcaram mais seis choferes;

Que não se recorda no momento desses choferes e quando chegaram nas imediações dos Bilhares foram presos;

Que apesar de não se lembrar dos nomes desses choferes alguns deles estão na Penitenciária do Estado;

Que o interrogado esteve no local do crime apenas por curiosidade;

Que não tinha conhecimento de que alguns choferes pretendiam raptar Delmo do poder da Polícia;

Que durante a sua permanência na Polícia Civil foi bem tratado pelas autoridades policiais;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Francisco de Souza Marques, vulgo “X-9”, na forma abaixo:

Aos 6 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 15h,onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara , comigo escrivão interino, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Francisco de Souza Marques, vulgo “X-9”, brasileiro, natural deste Estado, casado, com 23 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Manoel de Souza Marques e de Maria Minigilda de Souza, residente e domiciliado nesta cidade, à rua General Glicério nº 585, atualmente preso e recolhido a Penitenciária do Estado;

Que ao tempo em que foi cometida a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado se encontrava na Estação de Bondes, pelas 19h e alguns minutos;

Que teve notícia desse rapto por populares no “ponto” na estação referida;

Que ao tempo em que se deu o assassinato de Delmo, o interrogado se encontrava num carro de praça a caminho do local do crime;

Que teve notícia da morte na Estação de Bondes, por intermédio de populares.

Que sobre as provas contra si já apuradas, principalmente no seu depoimento policial, pode informar que procurou dizer a verdade às autoridades policiais, apesar de ter sido espancado pelos agentes Bastos e Rosas;

Que retificando o que disse acima o interrogado não prestou depoimento na Polícia, pois não foi interrogado pelas autoridades policiais;

Que assinou o seu nome na Polícia no Gabinete de Identificação com o senhor Arthur Costa o qual ainda lhe tirou impressões digitais;

Que não conheceu Delmo Pereira;

Que não conhece nenhuma das testemunhas arroladas pela Promotoria Pública;

Que não conhece nenhum instrumento ou objeto que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que não tomou parte no assalto à ambulância e nem esteve no local onde Delmo foi assassinado;

Que foi preso nos Bilhares, quando se dirigia ao local do crime por simples curiosidade;

Que apesar de ter ido com outros choferes até os Bilhares, não se lembra do nome de nenhum deles;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que é novato nesta cidade, estando aqui há uns dois meses, vindo de Itacoatiara;

Que o que assinou na Polícia foi apenas um documento com o senhor Arthur Costa;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Vicente Gonçalves Alencar, na forma abaixo:

Aos 7 dias do mês de março de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 9h, onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que segue.

Que se chama Vicente Gonçalves Alencar, brasileiro, natural do Ceará, casado, com 40 anos de idade, chofer profissional, exercendo suas atividades na Diretoria dos Correios e Telégrafos, alfabetizado, filho de Antonio Gonçalves Nunes e de Maria Gonçalves Alencar, residente e domiciliado nesta cidade, no Beco do Macedo, s/nº, atualmente preso e recolhido na Penitenciária do Estado;

Que ao tempo em que foi cometida a infração, isto é o rapto de Delmo, o interrogado se encontrava de serviço nos Correios e Telégrafos e saiu dessa repartição mais ou menos às 19h35, hora antiga;

Que teve notícia do rapto de Delmo, quando ainda se encontrava nos Correios, por comentários de populares que passavam por lá naquela noite;

Que quando se deu o assassinato de Delmo o interrogado se encontrava no Pavilhão Universal, isto mais ou menos às 20h, hora antiga;

Que teve notícia do assassinato de Delmo no dia seguinte quando foi preso pela Polícia Civil;

Que sua prisão deu-se pelas 6h30 da manhã do dia 6 de fevereiro;

Que sobre as provas contra si já apuradas e principalmente no depoimento que prestou na Polícia Civil, tem a dizer que não esteve no local do crime;

Que procurou esclarecer o que sabia a respeito do caso junto às autoridade policiais;

Que prestou o seu depoimento na Polícia Civil livre e espontaneamente;

Que antes de prestar depoimento foi ameaçado pelo agente Bastos de levar umas borrachadas se não contasse o que ele desejava;

Que o interrogado, apesar dessas ameaças, contou às autoridade policiais tudo o que sabia sobre os acontecimento do dia 5 de fevereiro deste ano;

Que esse depoimento, que agora lhe foi lido neste momento, em parte é verdadeiro e parte não exprime a verdade, naturalmente houve deturpação de suas palavras por parte da autoridade policial;

Que realmente tomou um carro naquela noite, com alguns choferes, que não se recorda dos nomes, e chegou até uma vereda além do Batuque da Mãe Joana;

Que daí ouviu uns gritos que partiam de longe;

Que se lembra de Joaquim Mecânico o qual se encontrava naquela vereda;

Que desse local o interrogado voltou e ao chegar na entrada da estrada, nas imediações da casa de João Isaac, viu vários carros de praça presos pela Polícia;

Que o interrogado conseguiu sair do local a pé e ao chegar ao Entroncamento encontrou-se com o chofer “Picadinho”, o qual lhe conduziu à sua residência;

Que não conheceu Delmo Pereira;

Que das testemunhas arroladas pelo Promotor de Justiça, conhece de vista Manoel da Rocha Barros e Manoel José Antunes, nada tendo a alegar contra elas;

Que não conhece nenhum instrumento ou objeto que ora lhe é apresentado;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita, pois como já disse só chegou até a vereda referida, retirando-se daí para sua residência;

Que não tomou parte no assalto a ambulância e também no interrogatório, espancamento e assassinato de Delmo;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

 

Se em seus depoimentos os verdadeiros autores do crime tergiversavam, mentiam e caíam em contradições flagrantes, a situação dos inocentes que haviam sido presos arbitrariamente pela Polícia também era complicada.

Eles negavam peremptoriamente a sua participação no assassinato de Delmo, mas como saber a verdade se os réus confessos também estavam negando tudo?

O que supostamente diferenciava os inocentes dos culpados era que os inocentes, em seus depoimentos prestados na Justiça, em nenhum momento denunciavam maus-tratos recebidos na Polícia quando prestaram os primeiros depoimentos sobre o caso.

O Ministério Público deve ter levado isso em consideração quando se pronunciou a favor da inocência dos mesmos e obteve do juiz Ernesto Roessing a revogação imediata de suas prisões ilegais.

Esse pequeno detalhe pode ser percebido nos depoimentos de Benjamin Perpétuo de Souza, Antônio Fernandes Prata, Cassiano Cirilo Anunciação e Waldemar Augusto Lemos, entre outros.

Entretanto, como toda regra tem exceção, pelo menos um inocente da gema afirmou ter sido espancado pela polícia – e devia estar falando a verdade! – para confessar o crime. Foi o preso Sebastião Amazonas da Silva, que exames posteriores mostraram ser portador de doença mental.

Em um de seus delírios de grandeza, Sebastião contou a um enfermeiro do Hospital Colônia Eduardo Ribeiro, onde ambos trabalhavam, que havia participado da chacina do estudante. O enfermeiro avisou a Polícia e esta se encarregou do resto.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here