O caso Delmo: A versão dos acusados (3)

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Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

Auto de qualificação e interrogatório do réu Benjamin Perpétua de Souza, na forma abaixo:

Aos 28 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 16 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Benjamin Perpétua de Souza, português, natural do Castelo de Paiva, solteiro, com 30 anos de idade, comerciante, alfabetizado, filho de Francisco de Souza e de Maria da Perpétua de Souza, residente e domiciliado nesta cidade, na rua Marcílio Dias, nº 100, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que foi cometida a infração o interrogado se encontrava a bordo do motor Cametá, pois tinha chegado lá às 17h do dia 5 de fevereiro e saiu de lá às 20h;

Que teve notícias do crime na Estação de Bondes, já depois das 20h;

Que o seu depoimento prestado na Polícia não foi lido pelo interrogado e que algumas coisas do depoimento prestado pelo interrogado na Polícia estão certas.

Que o interrogado pelas 20h ou 20h15, esteve no local onde vários automóveis estavam estacionados, isto é, acima da ponte de São Raimundo, ponte que foi ultimamente de madeira;

Que não foi ameaçado e nem espancado na Polícia, mas viu alguns choferes apanhando;

Que conhece a vítima e foi seu colega de estudos;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria não conhece Eliseu Costa Moreira e quanto às outras nada tem a alegar contra elas;

Que não conhece os instrumentos e objetos que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que pode apresentar várias testemunhas capazes de atestarem a sua inocência, entre elas as seguintes: Paulo Pereira, Petrônio de tal, maquinista do motor Cametá e a tripulação desse motor e também o cidadão de nome Alfredo Raposo.

Que quando teve informações do crime o interrogado foi ao local somente atrás de seus irmãos Jorge de Souza e Arthur de Souza e que apenas encontrou este último na encruzilhada de São Raimundo, estrada que vai para a ponte nova, com a avenida João Coelho;

Que também foi procurar os seus automóveis, porém não encontrou nenhum carro de sua propriedade;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que não tinha conhecimento do assalto à ambulância;

Que também não sabe se foram feitas outras tentativas para retirarem Delmo do poder da Polícia;

Que não sabe quais foram os choferes que assaltaram a ambulância e nem os que maltrataram e assassinaram Delmo;

Que não esteve no Palácio Rio Negro com outros choferes antes destes fatos;

Que tem advogado constituído.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Benori Alencar Linhares, na forma abaixo:

Aos 28 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 17h (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de Juiz de Direito, comigo escrivão interino, adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se vê.

Que se chama Benori Alencar Linhares, brasileiro, natural do Estado do Ceará, casado, com 26 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Francisco Gonçalves Linhares e de Edith Freire de Alencar, residente e domiciliado nesta cidade, à rua Codajás nº 82, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que foi cometida a infração o interrogado se encontrava, pelas 20h10, no dia 5 de setembro, no Pavilhão Ajuricaba;

Que teve notícia da infração logo depois no próprio Pavilhão Ajuricaba por comentários de populares;

Que sobre as provas contra si já apuradas, tem a dizer que o seu depoimento prestado na Polícia foi debaixo de coação, pois foi ameaçado, levou empurrões e até passou fome antes de prestar esse depoimento;

Que foi obrigado a confessar a sua participação no crime pelo agentes Rosas e pelo agente conhecido por “Tira Língua”;

Que as referências com o seu nome pelos seus colegas não são verdadeiras, porque não participou do crime;

Que não conhece a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria, só conhece Manoel de Rocha Barros, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que não conhece os instrumentos que lhe foram apresentados, mas reconhece a roupa, isto é, a calça e a camisa, que ora lhe são apresentadas e que foi apreendida pela Polícia;

Que apresentou-se à Polícia Civil no dia 8 de fevereiro porque foi informado de que as autoridades policiais lhe procuravam;

Que não estava no local do crime e, conforme já disse, se encontrava no momento no Pavilhão Ajuricaba e de lá foi para a sua residência por volta das 21h;

Que não sabe quem foi que idealizou o assalto à ambulância;

Que não sabe se foram feitas outras tentativas no sentido de retirar Delmo do poder da Polícia;

Que não sabe quais foram os choferes que assaltaram a ambulância e também não sabe quais os que maltrataram e assassinaram Delmo;

Que não esteve no Palácio Rio Negro compondo uma comissão de choferes;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Venâncio Félix da Costa, na forma abaixo:

Aos 29 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 9 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Venâncio Félix da Costa, brasileiro, natural deste Estado, solteiro, com 24 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de José Venâncio Costa e de Maria do Carmo Costa, residente e domiciliado nesta cidade, à avenida Beira-Mar, s/nº, bairro dos Educandos, atualmente preso e recolhido  à Penitenciária do Estado.

Que no tempo em que foi cometida a infração, o interrogado se encontrava trabalhando no ônibus “Rosária 3º”, fazendo a linha João Coelho-Joaquim Nabuco, pelas 19h15;

Que teve notícia da infração ao chegar na Estação dos Bondes, faltando 15 minutos para as 20h, e aí teve ordem de recolher o seu ônibus, isto é, alguns companheiros é que informaram ao interrogado de que Delmo tinha sido raptado e por isso tinha que recolher o seu carro;

Que não prestou depoimento na Polícia Civil;

Que não conhecia a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria só conhece Manoel de Rocha Barros, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que não conhece nenhum instrumento ou objeto que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que conforme já disse, o interrogado encontrava-se trabalhando no seu ônibus e não esteve no local do crime;

Que foi preso no dia dezenove…

Auto de qualificação e interrogatório do réu Severino Gabriel da Silva, vulgo “Tambaqui”, na forma abaixo:

Aos 29 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 10 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Severino Gabriel da Silva, vulgo “Tambaqui”, brasileiro, natural do Estado do Rio Grande do Norte, solteiro, com 26 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Manoel Gabriel da Silva e de Ana Paulina da Silva, residente e domiciliado nesta cidade, na rua Jonathas Pedrosa s/nº, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que se cometeu a infração, isto é, às 19h45, o interrogado estava a serviço e tinha ido deixar um freguês na rua Paraíba;

Que não conhece e nem sabe quem era esse freguês;

Que ao voltar desse serviço, às 20h15, mais ou menos, o interrogado teve notícia do crime, no Café Leão de Ouro, onde comentavam o fato e lá conversou com o seu patrão Joaquim Ferreira Chaves, estando também presente o senhor Paulo Chíxaro e o senhor Fares;

Que o seu patrão mandou que ele fosse guardar o carro, no que foi atendido, e o interrogado então ficou em sua residência;

Que prestou depoimento na Polícia;

Que foi preso no dia 6 de fevereiro, às 14h, mais ou menos, e que ao chegar na Polícia foi recolhido ao xadrez e, momentos depois, prestou as suas declarações;

Que na hora em que prestava as suas declarações, um guarda, cujo nome não sabe, esfregava na cara do interrogado uma luva de ferro, obrigando-o a dizer coisas que ele queria;

Que prestando o seu depoimento, quando o guarda referido lhe esfregava a luva de ferro na cara, o interrogado, às vezes, se movimentava para trás e, aí, sentia uma coisa pontiaguda nas suas costas, não sabendo o que era;

Que prestou dois depoimentos na Polícia, sendo que o primeiro, em que foi coagido, foi prestado numa cela da Chefatura da Polícia e que o seu segundo depoimento já foi prestado numa das dependências de cima do prédio da Chefatura;

Que não conhece a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria apenas não conhece Eliseu Costa Moreira e quanto às outras nada tem a alegar contra as mesmas;

Que não conhece os instrumentos que ora lhe são apresentados, mas reconhece o seu paletó de cor azul;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que não sabe quem idealizou o assalto à assistência para o fim de obrigar Delmo a confessar o nome de outros assassinos de José Honório e que não sabe se foram feitas outras tentativas para retirarem Delmo do poder da Polícia;

Que não sabe quais foram os choferes que raptaram, interrogaram e assassinaram Delmo, pois não chegou nem a ir ao local do crime;

Que também não esteve no Palácio Rio Negro compondo uma comissão de choferes e só soube desse fato no dia seguinte;

Que não sabe se essa comissão foi acompanhada de algum elemento estranho à classe;

Que nunca foi preso e nem processado;

Quem tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado, pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu João Hipólito de Bulhões, na forma abaixo:

Aos 29 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 11h (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de Juiz de Direito, comigo escrivão interino, adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama João Hipólito de Bulhões, brasileiro, natural do Estado da Paraíba, solteiro, com 32 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Severino José de Bulhões e de Margarida Maria do Carmo, residente e domiciliado nesta cidade, à rua Barroso nº 143, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que foi cometida a infração o interrogado estava em sua residência, isto é, pelas 19h30, e teve notícia dessa infração às 19h45, no Posto Politeama, por intermédio de um colega de nome Mario Ribeiro de Souza;

Que prestou o seu depoimento na Polícia, coagido pelo agente Rosas, o qual lhe ameaçou de levá-lo ao Parque Dez para seviciá-lo;

Que o agente Rosas orientava o interrogado nas suas declarações e obrigava-o a repetir as palavras proferidas, enquanto que o datilógrafo tomava nota e, depois disso, o interrogado assinou as ditas declarações;

Que chegou a ser espancado na Polícia com luvas de ferro e com borrachadas;

Que foi preso no dia 10 de fevereiro, às 18h, numa quarta-feira, quando foi espancado;

Que ainda depois de espancado passou três dias na Polícia e depois foi recolhido à Penitenciária do Estado;

Que não conhece a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria só conhece Manoel da Rocha Barros, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que não conhece os instrumentos que ora lhe são apresentados e dos objetos apenas reconhece uma calça cáqui de sua propriedade, porém a blusa não é do interrogado;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que se confessou o crime foi coagido pela Polícia;

Que às 19h50 dirigiu-se para o local do crime;

Que não chegou a ir ao local do crime e não viu o cadáver, pois quando chegou ao cruzamento da estrada velha de São Raimundo, no local onde fica o Remanso do Boto, o interrogado verificou que vários carros já estavam voltando e por isso resolveu voltar;

Que não sabe quem idealizou o assalto a fim de obrigar Delmo a confessar os assassinos do chofer José Honório;

Que também não sabe se foram feitas outras tentativas de assaltar a assistência;

Que não sabe quais foram os choferes que assaltaram a ambulância e também não sabe quais foram aqueles que interrogaram, maltrataram e assassinaram Delmo;

Que também não esteve no Palácio Rio Negro, acompanhando uma comissão de choferes;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogado constituído.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme, vai devidamente assinado.

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