O caso Delmo: A versão dos acusados (2)

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O caso Delmo: A versão dos acusados (2)

Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

Auto de qualificação e interrogatório do réu Luiz Azevedo da Silva, vulgo “Luiz Ruim de Vida”, na forma abaixo:

Aos 27 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 16 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Luiz Azevedo da Silva, vulgo “Luiz Ruim de Vida”, brasileiro, natural do Estado da Paraíba, solteiro, com 28 anos de idade, ajudante de mecânico, analfabeto, filho de Francisco Azevedo da Silva e de Maria Francisca da Conceição, residente e domiciliado nesta cidade, na rua Marcílio Dias s/nº, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que quando se deu o crime o interrogado se encontrava no Pavilhão Universal e teve notícia do crime pelas 20h do dia 5 de fevereiro, por comentários que ouviu contar no próprio Pavilhão;

Que sobre as provas contra si já apuradas e que são as suas declarações prestadas na Polícia, foi obrigado a confessar o crime porque, no xadrez daquela Delegacia, lhe deram um banho de soda cáustica e depois foi espancado pelo agente Rosas e por isso prestou depoimento sob coação;

Que não conheceu a vítima e que das testemunhas arroladas pela Promotoria só conhece Manoel da Rocha Barros, nada tendo a alegar contra ela;

Que não conhece os instrumentos que lhe foram apresentados nestes momentos, mas reconhece a calça e a camisa que ora lhe é apresentada, como sendo de sua propriedade;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita, pois não esteve nem no local do crime e só três dias depois é que foi preso;

Que não sabia que iam assaltar a ambulância para retirar Delmo do poder da Polícia e que não sabe se foram feitas outras tentativas com esse mesmo fim;

Que não sabe quais os choferes que maltrataram, interrogaram e assassinaram Delmo;

Que foi obrigado a confessar na Polícia conforme já se referiu antes;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogado constituído.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado pelo Meritíssimo Juiz, deixando-o de fazê-lo o interrogado por não saber ler e nem escrever.

Auto de qualificação e interrogatório do réu José Cesário de Oliveira, na forma abaixo:

Aos 28 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 8 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama José Cesário de Oliveira, brasileiro, natural deste Estado, casado, com 33 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de José Cesário e de Maria Castelo, residente na avenida Nhamundá, nº 170, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que se cometeram a infração o interrogado se dirigia para o local do crime, no seu carro;

Que teve notícia desse crime quando se encontrava preso na Polícia Civil;

Que sobre as provas apuradas contra si, principalmente as referentes às suas declarações, prestadas na polícia, tem a declarar que muitas coisas que disse não se lembra e de que fora ameaçado e coagido para contar fatos que não ocorreram;

Que um policial forte, conhecido como “Tira Língua”, foi um dos principais elementos que coagiram o interrogado;

Que por várias vezes ao prestar depoimento teve vertigens;

Que não conheceu a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria conhece apenas Manoel da Rocha Barros e Manoel Rodrigues, nada tendo a alegar contra os mesmos;

Que não conhece os instrumentos que ora lhe são apresentados;

Que reconhece as roupas de sua propriedade que ora lhe são apresentadas e estão sujas de sangue porque um companheiro, ao abrir a porta de seu carro, bateu no nariz do interrogado e por isso saiu sangue de seu nariz e sujou a sua roupa;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita e que não tomou parte no assalto da ambulância;

Que não assassinou Delmo e que também não interrogou Delmo;

Que o interrogado, quando soube por comentários de que Delmo tinha sido raptado, dirigiu-se ao local do crime, mas ao chegar lá vários carros já estavam de volta e por isso saltou do carro, arrodeou o mesmo e entrou pela outra porta e que logo depois chegou a Polícia e prendeu o interrogado;

Que na Polícia foi interrogado pelo investigador Bastos o qual lhe disse que ele agora ia pagar o novo e o velho e que não havia ninguém que desse jeito;

Que não sabe quem idealizou e quem assaltou a ambulância e que também não sabe se foram feitas outras tentativas para retirarem Delmo da mão da Polícia;

Que não sabe quais foram os choferes que maltrataram e assassinaram Delmo e que não esteve no Palácio Rio Negro com uma comissão de choferes;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Luiz José de Aguiar, vulgo “Cu de Vidro”, na forma abaixo:

Aos 28 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 9 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido pelo disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Luiz José de Aguiar, vulgo “Cu de Vidro”, brasileiro, natural do estado de Pernambuco, casado, com 26 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de José de Aguiar e de Antonia Maria da Conceição, residente e domiciliado nesta cidade, à rua Djalma Dutra nº 211, atualmente preso e recolgido à Penitenciária do Estado.

Que ao tempo em que foi cometida a infração o interrogado se encontrava no Bar Balalaika, mais ou menos às 19h;

Que pelas 20h, naquele mesmo botequim, teve notícia do crime, por comentários de terceiros;

Que o seu depoimento prestado na Polícia é verdadeiro e o mesmo será aqui confirmado;

Que não conhecia a vítima;

Que não conhece as testemunhas arroladas pela Promotoria Pública e por isso nada tem a alegar contra os mesmos;

Que foi preso dias depois, isto é, numa quinta-feira, e se não lhe falha a memória foi no dia 14 de fevereiro;

Que não reconhece nenhum instrumento e nenhum objeto que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que nada sabe sobre o caso em apreço;

Que não tomou parte também no assalto;

Que também não sabe quais os choferes que assaltaram a ambulância e nem aqueles que interrogaram e assassinaram Delmo;

Que como já disse se encontrava no Bar Balalaika e de lá retirou-se para a sua residência às 21h;

Que naquele bar estava em companhia, entre os quais: Sargento Esmeraldo, do 27º Batalhão de Caçadores, Sargento Johnson, também do 27º Batalhão de Caçadores e um cidadão de nome Waldemar, que reside na avenida João Coelho, perto da residência do Sargento Esmeraldo, e um rapaz de nome Nilson;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogado constituído.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado, pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Aurino do Espírito Santo Silva, vulgo “Santo Pobre”, na forma abaixo:

Aos 28 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 10 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Aurino do Espírito Santo Silva, vulgo “Santo Pobre”, brasileiro, natural deste Estado, casado, com 28 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Carlos Henrique Silva e de Porfíria da Silva Terra, residente e domiciliado nesta cidade, no Pico das Águas s/nº, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que foi cometida a infração o interrogado se encontrava no Pavilhão Universal, localizado na Estação dos Bondes;

Que teve notícia da infração no dia seguinte pelos jornais da cidade;

Que não se recorda do depoimento que prestou na Polícia Civil;

Que o depoimento que ora lhe foi lido e está com a sua assinatura não foi prestado pelo interrogado na Polícia e que apenas fizeram ele assinar esse depoimento, sem que o mesmo lesse.

Que não conheceu a vítima e que não conhece as testemunhas arroladas na denúncia nada tendo a alegar contra as mesmas;

Que não conhece nenhum dos instrumentos e nenhum dos objetos que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita e que não tomou parte no assalto à ambulância nem no interrogatório e assassinato de Delmo;

Que como já disse na noite do crime o interrogado se encontrava no Pavilhão Universal desde às 19h30, saindo de lá às 21h30, mais ou menos, dirigindo-se para a sua residência e só soube do crime no dia seguinte quando leu os jornais;

Que nunca foi preso e nem processado e tem advogado constituído.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Jorge Souza, na forma abaixo:

Aos 28 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 15h (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se vê.

Que se chama Jorge Souza, brasileiro, natural deste Estado, solteiro, com 26 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Francisco de Souza e de Maria Perpétua de Souza, residente à rua Marcílio Dias nº 100, atualmente preso e recolhido à Penitenciária Central do Estado;

Que no tempo em que se cometeu a infração o interrogado se encontrava em sua residência, às 20h30, antigas;

Que teve notícia do crime somente no dia seguinte por intermédio de populares;

Que o seu depoimento prestado na Polícia foi sob coação, pois foi obrigado a declarar o que foi lido agora nas folhas 79 destes autos.

Que deram umas borrachadas no interrogado;

Que logo depois de ter apanhado essas borrachadas prestou o seu depoimento na Polícia;

Que não conheceu a vítima;

Que das testemunhas arroladas só conhece Manoel de Rocha Barros, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que não conhece as armas e objetos que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que foi obrigado e coagido a prestar as declarações na Polícia já referidas;

Que no dia 5 de fevereiro entrou em casa às 18h e não saiu mais, só o fazendo no dia seguinte;

Que no dia 6 de fevereiro, vendo o seu nome nos jornais, o interrogado apresentou-se à Polícia, porém esta o mandou embora;

Que dois dias depois, voltou novamente à Polícia, espontaneamente, porque viu, outra vez, seu nome nos jornais e não mais saiu daquela repartição, tendo prestado o seu depoimento no dia seguinte à noite;

Que foi espancado com borracha pelo agente Rosas e outro agente conhecido por “Tira Língua” e dias depois o interrogado foi recolhido à Penitenciária do Estado;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

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