O caso Delmo: A versão dos acusados (1)

0

Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

A Constituição de 1946 prescrevia que ninguém poderia ser preso, salvo em flagrante delito, ou por ordem escrita da autoridade competente (art. 141, § 2.º). Embora o sentido da Carta fosse o de considerar que a autoridade competente seria, tão-somente, a autoridade judiciária, a legislação infraconstitucional acabou conferindo à autoridade administrativa o poder de decretar prisões cautelares. Começou a caça às bruxas na cidade, com choferes acusando sem provas pessoas inocentes e a Polícia efetuando prisões a torto e a direito.

Não era pra menos. Depois de ser acusada pela mídia impressa e radiofônica de incompetente (por não ter conseguido evitar o cinematográfico assalto à ambulância em plena hora do rush e no cruzamento de duas das mais movimentadas avenidas de Manaus) e de irresponsável (por não ter evitado o trucidamento do estudante após o sequestro), a Polícia resolveu mostrar serviço.

Em menos de uma semana, levantou ou “fabricou” provas suficientes para prender 48 motoristas, muito deles inocentes, e os manteve em prisão cautelar, para evitar que atrapalhassem o desenvolvimento das investigações.

O chofer da ambulância, Silvio Oliveira, apareceu morto alguns dias depois de ter sido preso. A versão dada pela Polícia foi de que ele havia se suicidado. A foto, mostrando o “suicidado” de joelhos, com a cabeça apenas amparada nos punhos de uma rede de dormir, acabou provocando muitas controvérsias.

Foram presos preventivamente e recolhidos à carceragem os seguintes acusados:

Ludgero Sarmento (“Carioca”), paulista, casado, 29 anos, chofer.

José Cesário de Oliveira, amazonense, casado, 33 anos, chofer.

João de Brito Teixeira (“Pirulito”), amazonense, solteiro, 20 anos, chofer.

Manoel Rodrigues Cruz, português, casado, 43 anos, comerciante.

Luiz Azevedo da Silva (“Luiz Ruim de Vida”), paraibano, solteiro, 28 anos, ajudante de mecânico.

Francisco Ribeiro dos Santos (“Toba de Vaca”), cearense, solteiro, 25 anos, chofer.

Luiz José de Aguiar (“Cu de Vidro”), pernambucano, casado, 26 anos, chofer.

Aurino do Espírito Santo Silva (“Santo Pobre”), amazonense, casado, 28 anos, chofer.

Benori Alencar Linhares, cearense, casado, 26 anos, chofer.

Mário Ribeiro de Souza (“Mário Trezentos”), cearense, casado, 28 anos, chofer.

Severino Gabriel da Silva (“Tambaqui”), potiguar, solteiro, 26 anos, chofer.

Pedro Gomes de Souza (“Mala Velha”), potiguar, casado, 39 anos, chofer.

Antônio Vicente de Araújo (“Puxa Faca”), cearense, casado, 32 anos, chofer.

Francisco de Souza Marques (“X-9”), amazonense, casado, 23 anos, chofer.

Vicente Gonçalves de Alencar, cearense, casado, 40 anos, chofer.

Joaquim Vieira da Mota (“Joaquim Mecânico”), amazonense, solteiro, 33 anos, mecânico.

Newton Almeida Palmeiras, amazonense, solteiro, 25 anos, chofer.

Carlos Gomes de Farias, amazonense, casado, 25 anos, mecânico.

Helvídio Alves de Oliveira, maranhense, casado, 27 anos, chofer.

Sebastião da Silva Pardo (“Sabazinho”), amazonense, casado, 26 anos, chofer.

Orlando Marreiro Lúcio, amazonense, solteiro, 19 anos, chofer.

Francisco das Chagas Barroso Lotif, cearense, casado, 33 anos, funcionário público e chofer.

Naziazeno Benigno de França, amazonense, casado, 28 anos, chofer.

Eugênio Ribeiro de Carvalho (“Bigode”), paraibano, casado, 29 anos, chofer.

Venâncio Félix da Costa, amazonense, solteiro, 24 anos, chofer.

Waldemar Augusto Lemos, amazonense, casado, 39 anos, chofer.

Jorge Souza, amazonense, solteiro, 26 anos, chofer.

Benjamin Perpétua de Souza, português, solteiro, 30 anos, comerciante.

Silas Araújo, paraense, casado, 34 anos, chofer.

João Hipólito Bulhões, paraibano, solteiro, 32 anos, chofer.

Pedro Paulo de Farias (“Pedrinho”), acreano, solteiro, 22 anos, chofer.

Antônio Fernandes Prata, amazonense, solteiro, 33 anos, chofer.

Ercílio Ambrósio da Silva (“Besouro”), amazonense, casado, 29 anos, chofer.

Cassiano Cirilo Anunciação (“Batará”), amazonense, solteiro, 20 anos, chofer.

Edson Costa (“Didi Picadinho”), amazonense, casado, 33 anos, chofer.

Luiz Albano da Costa, amazonense, solteiro, 21 anos, chofer.

João Jovino Borges (“João Fresquinho”), amazonense, casado, 39 anos, chofer.

Francisco Felismino (“Nego Chico”), paraibano, solteiro, 27 anos, chofer.

Guilherme Monteiro da Silva, amazonense, casado, 25 anos, chofer.

Bertinho Braga de Freitas, amazonense, solteiro, 25 anos, chofer.

Odivaldo Lessa de Farias (“Garage”), amazonense, solteiro, 21 anos, chofer.

Manoel Ferreira de Carvalho (“Manoel Vinagre”), amazonense, casado, 22 anos, chofer.

Alfredo Abreu, amazonense, solteiro, 23 anos, chofer.

Antônio Pereira do Nascimento, amazonense, casado, 26 anos, chofer.

Alexandre José Lourenço, amazonense, solteiro, 21 anos, chofer.

Sebastião Amazonas da Silva, amazonense, solteiro, 19 anos, chofer.

Arthur Souza (“Manguita”), amazonense, solteiro, 23 anos, chofer.

A razão de tantas prisões? É que quando os primeiros choferes presos em flagrante foram interrogados pela Polícia, provavelmente visando tumultuar o inquérito, começaram a citar nomes de colegas que sabidamente não haviam participado do crime.

Os verdadeiros culpados contavam com uma carta escondida na manga: desaparelhada como era a polícia amazonense, dificilmente os investigadores seriam capazes de separar o joio do trigo. A confusão seria enviada ao Ministério Público e das duas uma: ou ia todo mundo a julgamento ou ia todo mundo ser inocentado. A segunda hipótese era a mais provável.

No depoimento prestado à Justiça, os acusados com culpa no cartório utilizaram uma estratégia comum: negar até a morte o seu envolvimento no crime e desqualificar o depoimento anterior prestado na Polícia, sob o argumento de que haviam sofrido coação moral e física durante o procedimento.

Isso pode ser percebido nos depoimentos dos principais envolvidos na chacina – “Carioca”, Manoel Cruz, José Cesário, “Santo Pobre”, “Luiz Ruim de Vida”, “Mário Trezentos”, “Tambaqui”, “Pirulito”, “Mala Velha” e “Toba de Vaca”, entre outros, transcritos a seguir. Considerados os cérebros da operação, os cinco primeiros foram apelidados pela mídia de “quatro ases e um coringa”.

A sequência dos depoimentos obedeceu à ordem em que foram prestados à Justiça.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Ludgero Sarmento, vulgo “Carioca”, na forma abaixo:

Aos 23 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 9 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Ludgero Sarmento, brasileiro, natural do Estado de São Paulo, casado, com 29 anos de idade, filho de Juvêncio Sarmento e de Maria Sarmento, residente na avenida Humaitá, nº 230, chofer, sabendo ler e escrever, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que se deram os fatos narrados na denúncia, se encontrava nesta cidade, no Café Leão de Ouro, tomando café; que pelas 19h, mais ou menos, quando ainda estava naquele café, teve notícia de que tinham raptado a vítima;

Que sobre as provas contra ele já apuradas, notadamente no seu depoimento de folhas 12 a 13, tem a dizer que foi prestado sob coação;

Que das testemunhas arroladas apenas conhece Manoel da Rocha Barros, nada tendo a alegar contra ela, porém esta testemunha, na qualidade de chefe da Polícia, foi quem naturalmente o mandou prender;

Que não conhece os instrumentos que ora lhe são apresentados e nem os objetos que também lhe estão sendo apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita pela Promotoria;

Que foi insinuado pela Polícia para prestar declarações comprometedoras;

Que o investigador Bastos e um guarda civil foi que obrigaram o interrogado a confessar e que para isso apanhou de borracha;

Que não tomou parte no assassinato de Delmo e quando chegou ao local do crime já encontrou a vítima morta;

Que voltou de lá em companhia do chofer conhecido por “Pirulito” e que não chegou a ver muito bem o cadáver de Delmo, pois muitas pessoas se encontravam no local, não se recordando dessas pessoas e nem lhes sabendo o nome;

Que não sabe quem foi que idealizou o assalto, para o fim de obrigar a vítima a confessar o nome de outros assassinos do chofer José Honório e que também não sabe se foram feitas outras tentativas para retirar Delmo do poder da Polícia;

Que ouviu, por comentários, de que Delmo já tinha sido raptado das mãos da Polícia e viu vários automóveis em velocidade descendo pela avenida Sete de Setembro.

Que logo depois o interrogado, com o seu automóvel, procurou seguir aqueles carros e ao chegar no Remanso do Boto foi informado de que muitos automóveis dobraram aquela estrada, antiga São Raimundo, e por isso, entrando por aquele local ao chegar nas imediações da ponte já encontrou muitas pessoas e muitos carros e olhando de longe viu o vulto de Delmo caído e depois disso convidou “Pirulito” e ambos se retiraram;

Que não sabe quem atendeu o telefonema de Silvio avisando a partida da ambulância e que não sabe quais foram os choferes que maltrataram Delmo e nem aqueles que o feriram;

Que o interrogado não sabe se alguns choferes foram ao Palácio Rio Negro antes do dia 5 de fevereiro e que não sabia que tencionavam interrogar Delmo longe das vistas da Polícia;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que a sua residência foi invadida, violentamente, de noite, pelo policial Bastos e foi logo preso e conduzido à Central de Polícia e este policial não atendeu aos pedidos do interrogado para que esperasse um pouco.

Que as suas declarações na Polícia foram prestadas sob coação e espancamento de borracha;

Que o interrogado foi preso pelo Bastos às 5h da manhã e conduzido ao Posto Policial da Cachoeirinha onde foi espancado e depois o mesmo policial o conduziu para o Posto de Constantinópolis e de lá foi conduzido à estrada do Parque 10;

Que além do Bastos se encontrava o agente Joãozinho e este recusou-se ir até ao Parque 10;

Que no Parque 10 o agente Bastos e mais dois guardas pediu ao declarante para que o mesmo contasse que tinha sido um dos autores da morte do Delmo e, como já tivesse sido espancado, para evitar maiores maus-tratos o interrogado prometeu ao agente Bastos que contaria tudo que ele quisesse e por isso foi conduzido à Chefatura de Polícia onde prestou as declarações já referidas;

Que tem advogado constituído.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme, vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu João Brito Teixeira, vulgo “Pirulito”, na forma abaixo:

Aos 27 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 10 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama João Brito Teixeira, vulgo “Pirulito”, brasileiro, natural deste Estado, solteiro, com 20 anos de idade, chofer profissional, alfabetizado, filho de Antônio Teixeira e Júlia Brito, residente e domiciliado nesta cidade, na rua Jonathas Pedrosa s/nº, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que se cometeu a infração, o interrogado se encontrava no Café Leão de Ouro e teve notícia do crime naquele botequim pelas 19h15;

Que sobre as provas apuradas contra o interrogado, principalmente a respeito de suas declarações prestadas na Polícia, tem a informar que muita coisa que está consignada o interrogado não disse na Polícia;

Que não conhece a vítima;

Que das testemunhas arroladas, conhece Manoel da Rocha Barros e este já era seu inimigo gratuito antes destes fatos, e que também conhece Manuel Rodrigues, nada tendo a alegar contra o mesmo.

Que não conhece as demais testemunhas arroladas pela Promotoria Pública;

Que não conhece os instrumentos e objetos que ora lhe são apresentados, mas a polícia apreendeu no poder do interrogado uma camisa de cor azul;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que no dia 5 de fevereiro o interrogado se encontrava na avenida Eduardo Ribeiro, às 19h15, no Café Leão de Ouro, tomando café, e que pouco depois viu movimento de carros que desciam a Sete de Setembro e outros subiam a Eduardo Ribeiro e foi informado por alguns populares de que Delmo tinha sido raptado da ambulância;

Que em companhia de “Carioca” e “Mala Velha”, o interrogado tomou o seu automóvel e rumou em direção aqueles automóveis;

Que ao chegar no Bar Balalaika, lhe informaram de que vários carros tinham descido em velocidade por aquele local;

Que ao chegarem no cruzamento da estrada de São Raimundo um senhor idoso informou ao interrogado de que alguns carros tinham rumado por aquela estrada e por isso tomou aquela direção;

Que ao chegar ao local do crime já encontrou a vítima caída ao chão, não sabendo se estava viva ou morta;

Que se encontravam no local do crime muitas pessoas, entre os quais os choferes seguintes: José Cesário, Manoel Rodrigues Cruz e outros;

Que “Carioca” disse ao interrogado que era melhor se retirarem, pois não ia dar certo em virtude de a Polícia poder chegar a qualquer momento e por isso o interrogado, “Carioca” e “Mala Velha” foram embora;

Que “Carioca” ficou na Estação dos Bondes e “Mala Velha” na avenida e que o interrogado entregou o seu carro ao seu pai e foi ao Bar São Marcos e, depois de tomar um guaraná, retirou-se para a sua residência;

Que no dia seguinte, pelas 14h, o interrogado foi preso numa Garagem sito na rua Barroso;

Que não sabia que alguns choferes pretendiam raptar Delmo para obrigá-lo a dizer o nome de seus cúmplices e que não sabe quem idealizou o assalto à ambulância;

Que não sabe se foram feitas outras tentativas para retirarem Delmo do poder da Polícia e que não sabe quem atendeu o telefonema do Silvio avisando a partida da ambulância;

Que não sabe quais os choferes que maltrataram Delmo, mas ouviu dizer que ele foi interrogado por José Cesário e Manoel Cruz;

Que dias antes o declarante e mais alguns choferes estiveram, espontaneamente, no Palácio Rio Negro, para conversarem com o governador e, com a palavra, o chofer Rosemiro fez ver ao governador de já haverem passado seis dias do assassinato de José Honório e a Polícia ainda não tinha desvendado o crime e Delmo estava sendo tratado muito bem na Polícia Civil;

Que já foi processado por defloramento, mas não foi condenado nenhuma vez;

Que foi espancado na Polícia pelo investigador chamado Lima e recebeu três murros daquele policial a fim de que contasse o que ele queria e por isso o interrogado prestou as suas declarações sob coação;

Que tem advogado constituído.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Manoel Rodrigues Cruz, na forma abaixo:

Aos 27 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 11 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Manoel Rodrigues Cruz, português, casado, com 43 anos de idade, comerciante, sabendo ler e escrever, filho de Joaquim Rodrigues Cruz e de Maria Clara de Oliveira, residente e domiciliado na rua Silva Ramos, nº 216, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que foi cometido o crime, o interrogado se encontrava na avenida Eduardo Ribeiro e, aí, pelas 20h10, teve conhecimento do mesmo;

Que sobre as provas já apuradas e referentes ao seu depoimento prestado na Polícia, tem a dizer que muitas coisas que disse foi debaixo de coação.

Que não conheceu a vítima;

Que das testemunhas arroladas pela Promotoria só conhece Manoel da Rocha Barros e Manuel José Antunes, sendo que o primeiro, já antes destes fatos, era seu inimigo, nada tendo a alegar contra o segundo;

Que dos instrumentos, armas e objetos ora apresentados, só reconhece a sua roupa, constituída de calça, paletó, camisa, cinturão e meias, pois essas peças foram apreendidas pela Polícia;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita e que como já disse o interrogado se encontrava na avenida, pelas 20h10, mais ou menos, quando soube por populares de que alguns choferes tinham raptado e, como visse muito movimento de automóveis, o declarante resolveu verificar o que havia e por isso no seu carro, depois de algumas investigações, conseguiu chegar ao local do crime;

Que parando o seu carro desceu e foi informado de que a vítima tinha ficado no mato, não sabendo se estava viva ou morta e que não interrogou a vítima.

Que logo depois chegou a Polícia Civil e prendeu o interrogado;

Que o chefe de Polícia obrigou o interrogado a carregar o cadáver e por isso suas roupas ficaram sujas de sangue;

Que o comandante do 27º BC fez ver ao doutor Rocha Barros que ainda não tinha sido feito o levantamento cadavérico e por isso o interrogado novamente foi obrigado a colocar o cadáver no lugar;

Que não sabia se alguns choferes pretendiam interrogar Delmo longe das vistas da Polícia;

Que não sabe quem idealizou o assalto à ambulância;

Que também não sabe se foram feitas outras tentativas para retirarem Delmo das mãos da Polícia;

Que ouviu gritos por populares de que Delmo tinha sido raptado do poder da Polícia;

Que não sabe quem atendeu telefonema de Silvio avisando a partida da ambulância;

Que não sabe quais foram os choferes que interrogaram e quais os que maltrataram ou feriram Delmo;

Que aqueles gritos dos populares a que se referiu ouviu na Praça da Saudade quando o interrogado se dirigia à sua Garagem, na rua Luiz Antony, para guardar o seu carro e ir jantar em sua residência;

Que o interrogado não esteve no Palácio Rio Negro em companhia de outros choferes e também não sabe se alguma comissão de choferes esteve com aquela autoridade;

Que o interrogado desde o local do crime até chegar à Polícia foi coagido e espancado pelo investigador Bastos e este na Polícia ainda deu um pontapé nas costas do interrogado;

Que o interrogado foi encarcerado num xadrez da Polícia em companhia de dois presos e estes receberam ordem de Bastos para que espancassem e torturassem o interrogado;

Que esses dois presos realmente espancaram o interrogado e lhe deram um banho de soda cáustica;

Que antes de entrar no xadrez o investigador Bastos deu uma gravata no interrogado e rasgou-lhe a camisa;

Que o investigador Bastos ainda tirou-lhe a carteira com a importância de 700 cruzeiros, inclusive uns documentos que estavam no interior da mesma e que até a presente data não lhes foram devolvidos;

Que o interrogado prestou declarações na Polícia umas 15 vezes, sendo ameaçado de Parabelum, borracha e faca, no momento em que prestava essas declarações;

Que foi processado e julgado em Belém por crime de homicídio, tendo sido absolvido;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Antonio Vicente de Araújo, vulgo “Puxa Faca”, na forma abaixo:

Aos 27 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, capital do Estado do Amazonas, em meu Cartório, pelas 14 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Antonio Vicente de Araújo, vulgo “Puxa Faca”, brasileiro, natural do Estado do Ceará, casado no católico, com 32 anos de idade, motorista, sabendo assinar o nome, filho de Vicente Batista de Araújo e de Rita Batista de Araújo, residente e domiciliado nesta cidade, á Estrada de Constantinópolis, s/nº, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado.

Que no tempo em que se deu o crime o interrogado se encontrava trabalhando em sua profissão de chofer, mais ou menos às 20h do dia 5 de fevereiro e estava a serviço de um freguês cujo nome não sabe;

Que logo depois o interrogado foi à Avenida e ali ouviu comentários de uma multidão de pessoas de que Delmo tinha sido raptado da assistência;

Que sobre as provas já apuradas referentes ao seu depoimento prestado na Polícia tem a declarar que as suas declarações de folhas 19 e 19 verso não são verdadeiras, pois foi coagido a contar coisas que não praticou;

Que não conheceu a vítima;

Que das testemunhas arroladas só conhece Manoel de Rocha Barros, nada tendo a alegar contra o mesmo;

Que não conhece nenhum instrumento ou objetos que ora lhe são apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que o interrogado quando soube do rapto de Delmo dirigiu-se para o local do crime depois de ter se informado do rumo que tomaram vários automóveis;

Que por isso chegou até as imediações da Chapada, onde estavam parados vários carros e estacionou o, digo, e como visse muita gente e alguns carros voltando, o interrogado então fez uma manobra e retornou para a cidade;

Que não chegou a saltar do carro;

Que não viu o cadáver;

Que o interrogado não tinha conhecimento de que havia premeditação no assalto à ambulância;

Que também não teve conhecimento se foram feitas outras tentativas de retirar Delmo do poder da Polícia;

Que ninguém lhe avisou de que Delmo tina sido raptado, pois muita gente comentava esse fato na Avenida;

Que não sabe quais foram os choferes que interrogaram Delmo no local, mas ouviu dizer que tinha sido José Cesário e Manuel Cruz;

Que não sabe quais os choferes que feriram Delmo;

Que não é verdade ter o interrogado esfaqueado Delmo depois de morto, conforme a denúncia;

Que o interrogado não esteve no Palácio Rio Negro, mas ouviu falar que uma comissão de choferes estiveram lá, mas não foi informado com que objetivo;

Que antes de prestar declarações na Polícia o interrogado levou uns empurrões dos policiais Bastos e Rosas, os quais ameaçaram o interrogado a fim de que ele confessasse o crime;

Que nunca foi preso nem processado;

Que tem advogado constituído;

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Auto de qualificação e interrogatório do réu Francisco Ribeiro dos Santos, vulgo “Toba de Vaca”, na forma abaixo:

Aos 27 dias do mês de fevereiro de 1952, em Manaus, Capital do Estado do Amazonas, no Palácio da Justiça, em meu Cartório, pelas 15 horas (verão), onde foi vindo o Excelentíssimo Senhor Doutor Ernesto Roessing, Juiz Substituto da 5ª Vara, no exercício pleno do cargo de juiz de Direito, comigo escrivão interino adiante nomeado, compareceu o réu deste processo o qual, depois de ouvir e ler a denúncia de folhas duas e demais peças do processo, bem como advertido do disposto no artigo 186, do Código de Processo Penal, passou a ser qualificado e interrogado pela maneira que se segue.

Que se chama Francisco Ribeiro dos Santos, vulgo “Toba de Vaca”, brasileiro, natural do Estado do Ceará, solteiro, com 25 anos de idade, chofer, alfabetizado, filho de Homero Ribeiro dos Santos e de Bela Maria da Conceição, residente e domiciliado nesta cidade, na rua 24 de Maio s/nº, atualmente preso e recolhido à Penitenciária do Estado;

Que no tempo em que se deu o crime o interrogado estava fazendo um serviço para o senhor Calderaro, diretor de A Crítica, e, às 19h30, quando terminou este serviço, foi a Adrianópolis com o senhor Júlio Seixas;

Que às 20h, já na avenida Eduardo Ribeiro, soube de que tinha sido assassinado Delmo Pereira, não se lembrando do nome do informante;

Que quatro dias depois foi preso e sobre as provas contra si já apuradas e que são as suas declarações prestadas na Polícia, tem a dizer que as mesmas não são verdadeiras, pois prestou seu depoimento sob coação;

Que não conheceu a vítima;

Que não conhece nenhuma das testemunhas arroladas na denúncia e por isso nada pode alegar contra elas;

Que não conhece nenhum instrumento e nenhum objeto que ora lhe foram apresentados;

Que não é verdadeira a imputação que lhe é feita;

Que o interrogado não se encontrava no local do crime na ocasião em que foi assassinado Delmo;

Que tem três testemunhas que podem informar que o interrogado nessa hora estava de serviço;

Que essas testemunhas são o senhor Calderaro, o senhor Júlio, já referidos, e o comandante do 27º Batalhão de Caçadores, pois às 20h15 se encontrava a serviço com esse militar;

Que não sabia que já haveria propósitos de assaltar a assistência e também não sabe quem idealizou esse assalto;

Que também não sabe se foram feitas outras tentativas para raptar Delmo da Polícia;

Que não sabe quais foram os choferes que maltrataram e assassinaram Delmo, nem por ouvir dizer;

Que nunca foi preso e nem processado;

Que tem advogados constituídos.

Nada mais disse e nem lhe foi perguntado pelo que deu-se por findo o presente auto de qualificação e interrogatório, o qual depois de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here