O caso Delmo: A batalha final (12)

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Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

No dia 28 de fevereiro, sábado, o jornal A Província do Pará trazia na 3ª página a matéria “Condenados, por unanimidade, mais quatro dos trucidadores de Delmo”:

Manaus, 27 (M) – O grande júri de ontem, no qual foram julgados quatro “ases” do massacre do estudante Delmo, terminou às quatro horas da manhã de hoje, com a condenação por unanimidade de votos.

Foram condenados os homicidas João Brito Teixeira, vulgo “Pirulito”, a 25 anos de reclusão; Luiz Azevedo Silva, vulgo “Mal de Vida”, a 26 anos; Aurino do Espírito Santo, vulgo “Santo Pobre”, a 27 anos; e Ludgero Sarmento, vulgo “Carioca”, a 30 anos de reclusão, todos por unanimidade, como dissemos, tendo a acusação estado a cargo do promotor Domingos Queiroz e Dr. Celso Nascimento, enquanto que atuaram na defesa os advogados Manuel Barbuda, Nonato de Castro e Milton Assensi.

O julgamento despertou imenso interesse entre o público amazonense, pois os quatro réus a serem julgados eram os únicos considerados autores do massacre, enquanto os restantes acusados são apontados apenas como co-autores. As medidas especiais de segurança tomadas e a redução da lotação da assistência quase exclusivamente composta de mulheres, não foi suficiente para impedir que, em oportunidades, se manifestassem surdamente hostis à defesa durante os debates, apesar das insistentes ameaças do juiz de fazer evacuar a sala.

Fora do Palácio da Justiça, cujos portões estavam cerrados, incomputável massa popular se comprimia para ouvir os debates através de amplificadores e projetores de som, enquanto a Rádio Baré, emissora “associada”, irradiava os trabalhos com sucesso sem precedentes. A guarda da Polícia Militar vinha guarnecendo o Tribunal reforçadíssima, até o encerramento do mais sensacional julgamento de todos os tempos no Amazonas.

No mesmo dia 28 de fevereiro, o matutino O Jornal trazia na 1ª página a manchete “Condenado Cruz, o ‘Inquiridor’, a 28 anos de reclusão”:

Finalmente, às 22 horas de ontem, com a condenação do chofer Manuel Rodrigues Cruz a 28 anos de reclusão, por 5 votos contra 2, o Tribunal do Júri encerrou o sensacional julgamento dos implicados no massacre do estudante Delmo Campelo Pereira, ocorrido a 5 de fevereiro de 1952, na estrada velha de São Raimundo, para onde a vítima foi conduzida após haver sido raptada do interior de uma ambulância do Serviço de Socorros de Urgência, à avenida Getúlio Vargas, entre o Colégio Estadual do Amazonas e o cine Politheama.

O julgamento dos choferes deu margem a que fossem travados no Tribunal do Júri acalorados debates, salientando-se, de um lado, na acusação, o promotor Domingos de Queiroz, que se revelou um profundo conhecedor da matéria penal, e o seu assistente, o criminalista carioca Celso Nascimento, dramático, acusador de grandes recursos, prático e impressionante; e do outro, na defesa, os professores Manuel Barbuda e Nonato de Castro e ainda o causídico Milton Assensi, cujos méritos merecem ser ressaltados, pelos esforços desenvolvidos em favor de seus constituintes, com o emprego, inclusive, de todos os recursos de que dispõem os renomados juristas amazonenses.

O povo – acreditamos – está satisfeito com o pronunciamento do Tribunal do Júri, que é, em suma, o seu próprio pronunciamento, já que no seu seio foram escolhidos os juízes de fato, aqueles a quem coube decidir a sorte dos 27 implicados no trucidamento de Delmo Pereira, levados às barras da Justiça. E essa satisfação foi ontem traduzida pelas manifestações verificadas à porta do Palácio “Clóvis Bevilácqua”, logo após o encerramento do julgamento, quando foram aclamados o promotor Domingos de Queiroz e o criminalista carioca Celso Nascimento, mormente este, que por pouco não foi carregado em triunfo.

Apesar de pouco movimentada a sessão de ontem, do Tribunal do Júri, mesmo assim numerosa assistência lotou literalmente as galerias do recinto, enquanto nas imediações do Palácio “Clovis Bevilácqua” grande multidão esperava, ansiosa, pela decisão do Conselho de Sentença, quanto à sorte do chofer Manuel Rodrigues Cruz. À hora regulamentar, composto o Conselho de Sentença dos cidadãos Afonso Celso Maranhão Nina, Eros Pereira da Silva, Raimundo Rebelo de Souza, Augusto Alves da Silva, Tito Couto, Walder Menezes Caldas e Raimundo Fernandes Moura, presentes o promotor Domingos de Queiroz e o seu assistente, Dr. Celso Nascimento, magistrados e estudantes, o juiz Ernesto Roessing passou a interrogar o réu Manuel Cruz, que adiantou nada saber quanto ao crime e os seus pormenores e que foi coagido na polícia para prestar depoimento. Disse que não tinham procedência as alegações da Promotoria Pública quanto à sua pessoa.

Precisamente às 16h, foi dada a palavra ao promotor Domingos de Queiroz, que leu o libelo crime acusatório, mencionando a culpabilidade de Manuel Cruz. Em seguida, passou a ler as peças do processo, citando as declarações dos demais participantes no massacre de Delmo Pereira, comparando-as com as próprias declarações do réu. Mencionou o interesse do grupo em tomar Delmo do poder da Polícia, citando o réu como incriminado nesse fato. Disse que houve vontade de todos para chegarem ao fim que chegaram, passando, finalmente, a indicar as seguintes agravantes: Delmo estava sob imediata proteção da autoridade policial, quando foi sequestrado da ambulância do Serviço de Socorros de Urgência. Negou todas as atenuantes e pediu ao Conselho de Sentença que não aceitasse nenhuma delas. E finalizou a sua peroração às 17h40, pedindo a condenação do réu, porque isso seria um exemplo e não deixaria alternativa para que outros tentassem delinquir certos de que receberiam absolvição da Justiça.

Na tribuna, o Dr. Celso Nascimento demorou-se apenas 15 minutos, o bastante para evidenciar a culpabilidade do réu, relatando as minúcias de sua participação no massacre de Delmo Pereira, como um algoz, de maneira fria, pois tendo uma arma na mão, com ela não tentou evitar o massacre, mas o incentivou e também ameaçou a vítima. Primeiramente, disse o Dr. Celso Nascimento, ele desejava a confissão de Delmo e depois, a sua morte, por isso deixou que o matassem, enquanto ele, de arma em punho, nada fazia. Finalizou pedindo ao Conselho de Sentença a condenação de Cruz e a negação de todas as atenuantes que fossem argumentadas pela defesa.

Às 18h20, foi à tribuna o Dr. Milton Assensi e disse que o inquérito policial, assim como era uma peça valiosa para a acusação, muito mais era, no caso, para a defesa, e que iria patrocinar a causa de seu constituinte baseada nessa peça processual. Passou então a ler o depoimento de Cruz na Polícia e argumentou que o réu não quis a morte de Delmo, porque contra isso muito fez. Não podia, entretanto, se impor a um grupo de ignorantes, alucinados, e tanto essa afirmativa era verdade que, quando um dos choferes gritou para que matassem o jovem, Cruz foi contrário a esse desejo. Cruz se agarrou a “Santo Pobre” quando este queria arrancar o revólver de suas mãos para atirar contra a vítima. Finalmente, o Dr. Milton Assensi adiantou que o réu não poderia ser condenado, pois não desejou e não matou Delmo Pereira. E por isso, pediu ao Conselho de Sentença que procedesse com justiça, absolvendo o réu.

Depois do jantar, foi à tribuna o Dr. Manuel Barbuda, que ali se demorou das 20h30 às 21h30, apoiando a tese apresentada pelo Dr. Milton Assensi, passando ainda a comentar os fatos que culminaram com a morte do estudante, acentuando que Cruz não desejou o crime, mas desejou apenas saber o nome daqueles que, com Delmo, mataram José Honório. E finalizou dizendo que não havia nenhuma prova contra o réu que o indicasse como criminoso bárbaro e, por isso, também pedia a sua absolvição.

Encerrados os debates, recolheu-se o Conselho de Sentença, para responder os quesitos apresentados pelo juiz, voltando à sala das sessões meia hora depois, quando o juiz Roessing pronunciou a sentença, condenando, por 5 votos a 2, o réu Manuel Rodrigues Cruz à pena base de 22 anos, aumentada para mais 6, fixando a pena concreta de 28 anos de reclusão, taxa penitenciária e custas do processo. O Dr. Milton Assensi, em nome da defesa, não se conformando com a pena aplicada ao seu constituinte, protestou por novo júri, sendo o seu pedido deferido pelo juiz Roessing.

Viajando num dos aparelhos da Frota Bandeirante, da Panair do Brasil S. A., regressará hoje, ao Rio de Janeiro, o criminalista Celso Nascimento. À noite de ontem, momentos antes do encerramento do expediente da presente edição, o renomado jurista esteve em visita à redação dos nossos diários, a fim de apresentar suas despedidas e agradecer as notícias divulgadas a seu respeito. Respondendo a uma pergunta, o criminalista Celso Nascimento revelou que estará em Manaus, novamente, em maio vindouro, para funcionar nos trabalhos da 2ª reunião do Tribunal do Júri, do corrente ano, quando voltarão às barras da Justiça os choferes implicados no trucidamento do estudante Delmo Pereira.

Também no mesmo dia 28 de fevereiro, o vespertino A Gazeta trazia na 1ª página a manchete “Apagadas as luzes e encerrado o episódio final do drama em série da estrada velha dos Franceses”:

Convergiam para o Tribunal do Júri, há mais de vinte dias, as atenções do povo amazonense, interessado no julgamento dos choferes envolvidos no chamado “caso Delmo Pereira”. Incontável número de pessoas acorreu, diariamente, ao Palácio “Clóvis Bevilácqua”, a fim de acompanhar o desenrolar do mais sensacional e importante processo já registrado na crônica judiciária do Amazonas. Às vistas do público, desfilaram, no banco de réu, durante esses dias, 27 profissionais do volante, dos quais 18 foram condenados e 9 absolvidos.

Fazendo o computo das penas aplicadas, chega-se a conclusão de que atingem o total de 347 anos de reclusão, distribuídos da seguinte maneira: Francisco de Souza Marques, vulgo “X-9”, 12 anos; Vicente Gonçalves de Alencar, 20 anos; Joaquim Vieira da Mota, vulgo “Joaquim Mecânico”, 14; João Hipólito Bulhões, 14; Jorge de Souza, 12; Pedro Paulo de Farias, 12; Francisco Felismino da Silva, vulgo “Nego Chico”, 12; Pedro Gomes de Souza, vulgo “Mala Velha”, 20; Mario Ribeiro de Souza, vulgo “Mario Trezentos”, 25; Benori Linhares, 20; Francisco Ribeiro dos Santos, vulgo “Toba de Vaca”, 20; Severino Gabriel da Silva, vulgo “Tambaqui”, 22; João Brito Teixeira, vulgo “Pirulito”, 25; José Cesário de Oliveira, 28; Luiz Azevedo da Silva, vulgo “Ruim de Vida”, 26; Aurino do Espírito Santo, vulgo “Santo Pobre”, 27, Ludgero Sarmento, vulgo “Carioca”, 30; e Manuel Cruz, 28. Conseguiram libertar-se os seguintes: Carlos Gomes de Farias, Sebastião da Silva Pardo, Newton de Almeida Palmeira, Guilherme Monteiro da Silva, Orlando Marreiro Lúcio, João Jovino Borges, Luiz Albano, Helvídio Alves de Oliveira e Silas Araújo.

Em todas as reuniões presididas pelo Dr. Ernesto Roessing, da 4ª Vara Criminal, reinou relativa ordem, tendo sido impossível evitar certos desentendimentos entre as partes em choque. No ardor dos debates, os acusadores e defensores fugiram algumas vezes à ética, deixando transparecer, em suas palavras, uma violência e um excesso pouco recomendáveis em um ambiente como o do Tribunal do Júri. Isso, no entanto, não chegou a perturbar a boa marcha dos trabalhos, até ontem, quando entrou em julgamento o último dos choferes implicados na morte de Delmo Pereira – Manuel Cruz. De comprovada participação no crime da estrada dos Franceses, esse indiciado teve sua culpabilidade reconhecida pelo Conselho de Sentença, por cinco votos contra dois, e sua pena foi dosada em 28 anos de reclusão, devido às agravantes que lhe foram imputadas.

Nesses movimentados julgamentos funcionaram, na bancada de acusação, como se sabe, os Drs. Domingos de Queiroz, 3º promotor da capital, e Celso Nascimento, advogado da família da vítima, os quais tiveram destacada atuação, o que, aliás, já era esperado, em virtude da proclamada competência e experiência que ambos possuíam. Por sua vez, a bancada de defesa contou com os Drs. Manuel Barbuda, Nonato de Castro e Milton Assensi. Embora lutando por uma causa ingrata, condenada pelo povo, conseguiram ainda algumas vitórias, em uma demonstração evidente de sua habilidade, uma vez que a culpabilidade dos réus não deixava margem à hipótese do triunfo que obtiveram. Se todos eles já possuíam renome em nosso foro, esse conceito subiu ainda mais com a expressiva e brilhante atuação que tiveram nesses julgamentos.

Formaram o Conselho de Sentença, ontem, os Srs. Afonso Celso Maranhão Nina, Eros Pereira da Silva, Raimundo Rebelo de Souza, Augusto Alves da Silva, Tito Couto, Walder Menezes Caldas e Raimundo Fernandes Moura.

Retornou ao Rio de Janeiro, na manhã de hoje, o Dr. Celso Nascimento. O distinto criminalista viajou em avião da Panair do Brasil, e prometeu aos estudantes que voltará a Manaus em maio vindouro, a fim de atuar nos julgamentos que foram protestados. Seu embarque, no aeroporto da Ponta Pelada, foi bastante concorrido, vendo-se ali, além de grande número de estudantes, pessoas pertencentes a todas as camadas sociais, com o objetivo de apresentar-lhe votos de boa viagem.

No mesmo dia, em editorial de primeira página, A Gazeta mais uma vez abordava o assunto, mas já prevendo uma tempestade no horizonte, que se tornaria real em agosto do ano seguinte, com o suicídio do presidente Getúlio Vargas:

Descido o pano, com o julgamento conduzido à noite de ontem, sobre o episódio final do chamado “caso Delmo Pereira”, e transposta a última etapa dos dias de pesadelo e angústia que vínhamos vivenciando, desde fevereiro de 52, quando a madrugada rubra da ladeira da Forquilha iniciou a saga sangrenta, e encerrado, assim, o ardor da luta, é chegada também a hora serena da paz, o espírito e coração nos chamam, a todos nós que nos batíamos em prélio digno e austero, que não admitia desinteresse ou indiferença, o espírito e o coração nos chamam a ensarilhar definitivamente as armas, lavrando o contrato da concórdia e da harmonia.

Justiça foi feita, punição foi aplicada aos que erraram, o poder majestoso da lei não padeceu gravames no seu pronunciamento honesto, a sociedade resgatou-se das máculas e ofensas que sofrera. Sentenças equânimes foram proferidas, condenando uns, outros inocentando, e umas e outras foram recebidas com serenidade e calma. Empolgados, embora, mercê de Deus a violência não nos comandou, o arbítrio não encontrou asilo em nossas consciências.

Lutamos, sim, e ardorosamente lutamos com as armas limpas da razão e do diploma legal, do raciocínio e da doutrina, do argumento e da jurisprudência, sem excessos de que mais tarde nos arrependêssemos, sem exaltação que nos viesse a envergonhar. Confiávamos no Direito, nos juízes que nós mesmos, através de nosso democrático sistema, escolhêramos, e a eles entregamos nossa causa, acatando suas decisões, respeitando seus ditames.

Agora, chegados ao fim da caminhada exaustiva, em paz com nossa consciência, satisfeitos de como demos desempenho a nossas responsabilidades e a nossos deveres, é chegado o momento de fecharmos hermeticamente o cofre de Pandora, não permitindo de modo algum que novos males dele se derramem. Recusemos nossos pensamentos ao que passou, não alimentemos ódio e malquerenças que terminassem por nos devorar a nós próprios, destruindo tudo que de bom e digno há em nós. Volvamos para a frente nossos olhos.

Os roteiros que se abrem diante de nós, nesta hora difícil de nossa terra, são roteiros que muito de nós exigem e de nós reclamam. Na paisagem perturbada do mundo de nossos tempos, o Amazonas, como o Brasil, está ameaçado, uma nuvem sombria e pesada de tufão alveja-o de longe. E para fugir à tormenta, a mobilização geral é imperativa, mobilização de coragem, de brio, de bravura cívica, de sentimento patriótico.

E não será com dissenções, com claros nas nossas fileiras comuns, com divergências e incompatibilidades, que poderemos fazer frente à tempestade. Choferes, estudantes, partidários destes e daqueles, unamo-nos todos. Acima de tudo, somos irmãos brasileiros, somos amazonenses, e a pátria e nossa terra berço solicitam nossa dedicação e nosso devotamento. Unamo-nos fraternalmente pelo bem do Amazonas e pelo amor do Brasil!

No dia 1º de março de 1953, domingo, o jornal Folha do Norte trazia na 3ª página a matéria intitulada “Garantido por 5 mil estudantes o criminalista Celso”:

O renomado criminalista patrício Dr. Celso Nascimento que, desde o dia 11 de fevereiro último, funcionava como elemento de acusação no processo dos matadores do estudante Delmo, na vizinha capital do Estado do Amazonas, passou ontem por Belém, onde permaneceu poucas horas, com destino à capital da República, centro de suas atividades. Quando se encontrava no aeroporto de Val-de-Cães, foi o Dr. Celso abordado por um de nossos companheiros, a quem concedeu palpitante entrevista sobre o sumário dos motoristas implicados no assassinato de Delmo, o maior processo criminal de que se tem notícia.

Os debates, no Tribunal do Júri, se prolongaram por vinte e quatro dias, e no seu decorrer importantes teses jurídicas foram discutidas, tendo o Dr. Celso Nascimento enfrentado juristas de reconhecido valor, inclusive dois lentes da Faculdade de Direito de Manaus, que foram especialmente contratados para defesa dos acusados. Logo que foi colocado a par das pretensões do jornalista, o Dr. Celso Nascimento não se fez de rogado, concedendo-nos a entrevista que se segue:

– Volto satisfeito com o resultado obtido no processo dos matadores do estudante Delmo, sobre cujo conteúdo não pretendo falar, pois que encerra matéria jurídica já amplamente debatida nas reuniões do júri. A minha satisfação tem motivo, uma vez que o sumário em apreço é o maior de que se tem notícia, constando de duas mil páginas datilografadas, no qual depuseram mais de cem testemunhas. Oito volumes o compõem e, por suas características, constitui ineditismo, pois, inicialmente, foram arrolados cinquenta acusados para serem, afinal, julgados 27 deles. Durante 24 dias o Tribunal do Júri se reuniu e desde o décimo tomei parte nos julgamentos. Não tive oportunidade de participar antes desse tempo pelas razões que já expliquei à Folha do Norte, quando da minha ida a Manaus. Até esse dia já existiam nove absolvições, das quais apenas uma foi tida como justa pelo povo amazonense, mesmo porque o acusado é um homem portador de doença incurável, por isso um condenado à morte.

Continuando em suas declarações à reportagem, disse o criminalista:

– Estou satisfeito. O trabalho foi árduo, penoso, mesmo, mas o corpo de jurados me concedeu integral apoio, aplicando aos criminosos a pena que solicitei. Assim sendo consegui para os principais acusados sentenças que variaram de trinta a vinte anos. O que foi condenado a trinta anos era réu primário, mas seu passado contribuiu para a pena.

– Ouvimos dizer que o senhor conseguiu condenar um dos implicados, que é menor de idade.

– Sim, respondeu o Dr. Celso. Um dos réus ainda não atingiu a maioridade. Entretanto, foi condenado a vinte e cinco anos de reclusão. Esse julgamento eu considero o mais sensacional, uma vez que encerrou matéria de grande valor jurídico, sendo também a primeira vez que isso acontece. Apesar de os advogados de defesa terem apelado para a menoridade, o júri aceitou minha tese.

Depois de falar sobre a tese que levantou para conseguir a condenação de um menor perante a lei, afirmou nosso entrevistado:

– Outro ponto que merece atenção é a soma das penas, pois constitui também coisa inédita, atingindo a trezentos e setenta e dois anos.

Prosseguindo, teve o Dr. Celso Nascimento palavras de elogio aos advogados de defesa, ao promotor e ao juiz.

– Defrontei-me com juristas de grande mérito, em Manaus. Na defesa funcionaram dois mestres do Direito Penal, os Drs. Manoel Barbuda e Nonato de Castro, advogados experimentados, que tornaram difícil a acusação, e que contaram com a valiosa colaboração do Dr. Milton Assensi, homem dotado de grande poder de persuasão. O promotor Domingos Queiroz enfrentou brilhantemente a defesa, sozinho, antes de minha chegada a Manaus. O juiz Ernesto Roessing é um julgador equilibrado, imparcial e honesto, possuidor de vasta cultura jurídica. Questões complicadas e difíceis foram por ele resolvidas, tendo presidido todas as reuniões do Tribunal, que decorreram dentro da melhor ordem.

Em seguida, deu-nos o Dr. Celso Nascimento a relação dos réus absolvidos e condenados, que foram os seguintes:

Condenados: Francisco de Souza Marques, vulgo “X-9”, 12 anos; Vicente Gonçalves de Alencar, 20 anos; Joaquim Vieira da Mota, 14; João Hipólito Bu-lhões, 14; Jorge de Souza, 12; Pedro Paulo de Farias, 12; Francisco Felismino da Silva, vulgo “Nego Chico”, 12; Pedro Gomes de Souza, vulgo “Mala Velha”, 20; Mario Ribeiro de Souza, “Mario Trezentos”, 25; Benori Linhares, 20; Francisco Ribeiro dos Santos, vulgo “Toba de Vaca”, 20; Severino Gabriel da Silva, vulgo “Tambaqui”, 22; João Brito Teixeira, vulgo “Pirolito”, 25; José Cesário de Oli-veira, 28; Luiz Azevedo da Silva, vulgo “Mal de Vida”, 26; Aurino do Espírito Santo, vulgo “Santo Pobre”, 27, Ludgero Sarmento, “Carioca”, 30; e Manuel Cruz, 28.

Absolvições: Carlos Gomes de Farias, por unanimidade; Sebastião da Silva Pardo, vulgo “Sabazinho”, por unanimidade; Newton de Almeida Palmeira, por 5 votos contra 2; Guilherme Monteiro da Silva, por 4 votos contra 3; Orlando Marreiro Lúcio, por 6 votos contra um; João Jovino Borges, por 4 votos contra 3; Luiz Albano das Costa, por 5 votos contra 2; Helvídio Alves de Oliveira, por 5 votos contra 2; e Silas Araújo, por 4 votos contra 3.

– Quer dizer que se pode dar por encerrado o rumoroso caso dos matadores de Delmo, disse o jornalista, puxando pela língua do advogado, que respondeu imediatamente:

– Qual nada! Ainda não dei por terminada minha missão porque ela ainda não terminou. Os réus que foram absolvidos voltarão novamente a júri em maio, assim como os que foram condenados de vinte anos para mais. Contudo, espero condenar a todos sem distinção, pois o crime de que participaram é indefensável. Portanto, o delito cometido no dia 5 de fevereiro de 1952 permanece no cartaz. Em maio voltarei a Manaus para fazer com que a justiça seja cumprida.

Notícias vindas da capital baré, após o julgamento do motorista conhecido pela alcunha de “Mario Trezentos”, diziam que o criminalista Celso Nascimento fora ameaçado de morte, razão por que o referido causídico recorrera à Polícia, solicitando providências e garantias de vida, tendo sua solicitação especial atenção do Chefe de Polícia, Dr. Paulo da Gama Marinho. Sobre o assunto inquirimos nosso entrevistado, que disse:

– De fato, eu recebi inúmeros telefonemas, um dos quais me fazendo sérias ameaças de morte. Entretanto não solicitei nenhuma garantia de vida à Polícia. Os estudantes, ou melhor, os cinco mil estudantes de Manaus forneceram-me todas as garantias possíveis. Eu só andava acompanhado por colegas de Delmo. Por pouco não conseguimos descobrir os autores das ameaças, pois todos os telefones foram censurados. Os julgamentos despertaram a atenção do povo da capital do Amazonas, tendo sido assistido por desembargadores, juízes, advogados, estudantes, enfim, por todas as classes de Manaus.

Finalizando, expressou-se o Dr. Celso Nascimento:

– Condenarei a todos os matadores de Delmo. A justiça será feita.

No dia 3 de março de 1953, terça-feira, o jornal O Globo trazia na 4ª página uma pequena matéria intitulada “Total das penas: 372 anos!”:

Regressou, ontem, de Manaus, o advogado Celso Nascimento, que participou do júri dos autores do massacre do estudante Delmo Pereira. Constituído por cinco mil estudantes do Amazonas, o advogado carioca acusou os motoristas que trucidaram a vítima, jovem de apenas 18 anos de idade. Durante vinte e quatro dias a causa foi debatida, tendo sido este, talvez, o maior júri de que se tem notícia, num processo de oito volumes, com 2.000 páginas datilografadas. As penas impostas aos réus, em número de 27, atingiram a 372 anos. Ouvido pela nossa reportagem, logo após o seu regresso, o advogado Celso Nascimento declarou.

– Esta foi a maior vitória que eu poderia pretender. Todas as teses que sustentei foram acolhidas pelos jurados e na maioria dos casos por unanimidade. É que o processo estava magnificamente preparado pelo promotor Domingos Queiroz, que facilitou muito o meu trabalho. Orgulho-me de haver representado os estudantes do Amazonas, nesta causa importante e justa. Meus adversários, preparados com todo o cuidado para o emocionante debate, foram os melhores advogados do Norte, inclusive dois professores da Faculdade de Direito de Manaus, especializados em Direito Penal: Srs. Manoel Barbuda e Nonato de Castro. Também tive ocasião de debater com o advogado Milton Assensi, que me impressionou muito bem. Presidiu os trabalhos o juiz Ernesto Roessing, imparcial e competente.

Sobre as ameaças de morte, que teria recebido durante o julgamento, o advogado Celso Nascimento disse:

– Realmente, por mais de uma vez, recebi ameaças de morte, mas não me intimidei. Aliás, todas as garantias me foram dadas. Na última acusação, minha tribuna estava cercada de policiais, o que só soube depois do júri. É que as providências tomadas pelo chefe de Polícia, Sr. Paulo da Gama, para proteger a minha vida haviam sido solicitadas pelos estudantes à minha revelia. Felizmente, tudo correu em ordem.

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