O caso Delmo: A batalha final (11)

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Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

No dia 27 de fevereiro, sexta-feira, o matutino O Jornal trazia na 1ª página a manchete “Punidos severamente os cabeças da matança de Delmo!”:

Reuniu-se, ontem, o Tribunal do Júri, sob a presidência do juiz Ernesto Roessing, para julgar os choferes João Brito Teixeira, vulgo “Pirulito”, Ludgero Sarmento, vulgo “Carioca”, Luiz Azevedo da Silva, vulgo “Luiz Ruim de Vida” e Aurino do Espírito Santo, vulgo “Santo Pobre”, os mais importantes personagens dos acontecimentos que culminaram com o massacre do jovem Delmo Campelo Pereira.

A população, como era natural, aguardava ansiosa por esse julgamento. Todos queriam ver sentados no banco de réus aquele quarteto que não desejava somente ouvir a confissão de Delmo, mas também matá-lo, o que levaram a efeito. E foi por isso, em consequência disso, que o povo, ainda muito antes do início dos trabalhos do Tribunal do Júri, já se comprimia em frente ao Palácio “Clovis Bevilácqua” com o desejo de conseguir um lugar nas galerias da sala dos trabalhos.

Assim, depois de tomadas todas as providências, depois de bem policiado o recinto dos trabalhos, depois de acertadas a segurança tanto dos réus como dos membros da acusação, que vem sendo ameaçados pelos amigos e pelos companheiros dos réus, o juiz Ernesto Roessing deu por abertos os trabalhos, depois de verificar também se havia número legal de jurados. Feita a recomendação de praxe, presentes o promotor Domingos Alves Pereira de Queiroz e o seu assistente, o Dr. Celso Nascimento, na bancada da defesa os Drs. Nonato de Castro, Manuel Barbuda e Milton Assensi, jornalistas, magistrados e numerosa assistência nas galerias, o Dr. Ernesto Roessing, auxiliado pelo escrivão Severino Ramos de Assis, passou ao sorteio dos jurados, ficando o Conselho de Sentença constituído dos seguintes cidadãos: Afonso Celso Maranhão Nina, Artur César Meireles Pucú, Alísio Chaves Ribeiro, Hernani Aguiar, Raimundo Fernandes Moura, Jason Stones Martins e Augusto Alves da Silva, que prestaram o juramento exigido por lei.

Como fosse requerido o desdobramento do julgamento, ficaram no banco dos réus apenas “Pirulito”, “Carioca”, “Santo Pobre” e “Luiz Mal de Vida”. O primeiro a prestar depoimento foi “Pirulito”, seguido dos demais, tendo todos, além de outras coisas, adiantado que nada sabiam, não estiveram no local do crime; que tiveram conhecimento do mesmo em suas residências ou na rua; que foram coagidos pela Polícia a prestarem depoimento; que os depoimentos prestados anteriormente foram falsos; que todas as acusações feitas pela promotoria não tinham procedência. Todos eles se limitaram a negar e, como verdadeiros inocentes, cinicamente disseram que nada viram, que nem chegaram a ver o corpo de Delmo.

Depois do interrogatório dos réus, o juiz Roessing passou a palavra ao promotor Domingos de Queiroz, que iniciou a sua acusação às 15h45. O representante do Ministério Público leu o libelo crime acusatório. Demorou-se a examinar os depoimentos dos acusados, lendo-os um por um. Leu os antecedentes dos réus, examinando a periculosidade de todos. Referindo-se particularmente a cada um dos réus, mostrou a maneira de agir de “Carioca”, “como um verdadeiro tarado, um frio assassino, um monstro, que se atirava raivosamente contra sua vítima indefesa e a esfaqueava, ajoelhado sobre seu corpo, a furá-lo sem piedade”. Disse que “ele tomou parte em todas as fases do crime, desde o assalto à ambulância, no interior do carro que transportava Delmo, onde “Carioca” ia picando o corpo de Delmo, furando-lhe os dedos com um punhal e rindo-se gargalhadamente, como um louco”. Citou a folha de antecedentes desse réu e o apontou como “um mau elemento, que foi expulso da Polícia Militar, por indisciplina”.

Falou, a seguir, de “Pirulito”, dizendo de sua participação no crime, citando todos os depoimentos que o mencionam, dizendo que “ele também participou de todas as fases do delito”, desde o assalto à ambulância e a facada que o mesmo deu em Delmo. Citou o interesse, a vontade de “Pirulito” de exterminar logo a vítima, passando, então, a enumerar a folha de antecedentes do acusado, citando todos os processos a que o mesmo respondeu.

Analisou, também, as acusações feitas a “Santo Pobre” e a “Luiz Mal de Vida”, indicando todas as partes do processo que os apontam como muito implicados naqueles acontecimentos, que culminaram com o massacre de Delmo Pereira. “Esfaquearam também o jovem, o segundo o esbofeteou e espancou com um pedaço de pau, quando o mesmo já se encontrava agonizante”. Passou a analisar a personalidade de cada um, mencionando o grau de periculosidade dos mesmos, apontando, enfim, que os quatros réus mereciam a condenação porque tiveram, realmente, a sua culpabilidade naqueles terríveis acontecimentos de 5 de fevereiro de 1952.

E continuou o promotor Domingos de Queiroz dizendo que “não eram eles simples co-autores, mas os autores das facadas desferidas em Delmo. São os matadores, os principais criminosos”. “A situação dos mesmos é tão complicada que a defesa, os maiores conhecedores de doutrina penal em nossa terra, não encontraram argumentos para os defenderem. E a promotoria não procurava outras provas, outras argumentações, porque a condenação dos réus estava patenteada, estava determinada pelas suas próprias declarações e também pela declaração dos seus companheiros choferes. E não podia haver dúvida por parte dos jurados, que nada mais tinham a procurar senão basear o seu ponto de vista, para julgar os réus, pelas provas processuais, pois em todos os volumes havia acusações graves a todos eles”. Finalizou o Dr. Domingos de Queiroz, às 19h, pedindo a condenação de todos eles, porque de justiça.

A seguir, foi à tribuna o Dr. Celso Nascimento, que se referiu, inicialmente, às declarações de cada um dos acusados e também à defesa, a qual dissera que cada um devia ser responsabilizado pelo ato que praticou. Afirmou, energicamente, que cada um dos réus tem a sua participação bem definida: todos primaram por espancar, esfaquear, surrar e matar, “finalmente, Delmo Pereira, pois esse era o seu desejo, desejo de vingança, vingança baixa e cruel”. Citou “Carioca” como um monstro, que ajoelhado sobre Delmo satisfazia seus instintos perversos, furando-lhe os dedos, quando ainda dentro do carro, gargalhava, e na vereda, a esfaquear por duas vezes a vítima, seguido dos demais, daqueles que ali se encontravam ao seu lado, no banco dos réus.

Citou o desejo vingativo de “Pirulito”, “Santo Pobre” e “Luiz Mal de Vida”, disse que todos eles usaram da perversidade, da covardia, da barbaridade, uns esfaqueando, os outros, como “Santo Pobre”, esbordoando Delmo, quando o mesmo já estava prestes a expirar. Disse do interesse de “Santo Pobre”, que chorou no local por não poder fazer o que bem entendia, para vingar José Honório, morto por Delmo. Chorou “Santo Pobre” e como Cruz, que também queria fazer seu trabalho, lhe tomasse uma faca que portava, tomou de um pedaço de pau, com o qual esbordoou a cabeça de Delmo.

Referiu-se, incisivamente, à situação de “Pirulito”, pela sua menoridade, adiantando, entretanto, que essa menoridade não foi provada nos autos. Mencionou esse fato, dizendo que a defesa nada fez para provar tal situação de “Pirulito”, advertindo o Conselho de Sentença que não deve levar em consideração tal afirmativa de defesa, pois isso somente veio à baila pelas palavras do próprio réu. E adiantou não ser possível, por injusto, a não condenação do réu à pena de 30 anos de reclusão. Passou a ler a folha de antecedentes daquele acusado, citando a prisão por embriaguez na própria Penitenciária, dizendo que ele não se adapta à vida em sociedade, porque enveredou desde cedo na vida do crime e por isso não pode ser atribuído ao réu atenuante da menoridade.

Passou a se referir a “Carioca” e mencionou seus antecedentes. Disse que “Carioca” por várias vezes demonstrou a sua periculosidade, o seu espírito de homem tarado, que chegou ao ponto de esbofetear a sua própria esposa no interior da Penitenciária. “Ele é um covarde, que não se detém, mas que manifesta o seu instinto perverso, friamente, como o fez barbaramente com Delmo, sua vítima indefesa”. E continuou: que não são choferes esses criminosos, são, sim, uns tarados, uns covardes, que mancharam o bom nome de sua classe, composta de 2.000 elementos, trabalhadores dignos, os quais estavam sendo maculados pelo grupo de criminosos que se envolveram num crime dos mais bárbaros, para satisfazer os seus mais baixos instintos. Citou a participação de “Carioca” no crime da vereda, onde se atirou contra Delmo e, de joelhos sobre o seu corpo, o esfaqueava friamente.

Passou a enumerar a participação de “Luiz Mal de Vida”, também gravemente implicado na morte de Delmo. Ele passava a faca de “Pirulito” a “Carioca”, procurando servir a todos, procurando prestar seu auxílio aos seus companheiros, e ele também, para não deixar de aplicar a sua facada, tomou de uma arma e cravou na altura do fígado de Delmo. Ele foi “brilhante” na sua maneira de auxiliar e de matar Delmo. Ele desejava a morte do jovem, ele não queria a sua confissão, mas matá-lo, para vingar o seu companheiro. Finalizou o Dr. Celso Nascimento mencionando a perversidade como agiam os matadores de Delmo, pedindo pena máxima para eles, porque não poderiam ficar em liberdade, no seio do povo, de vez que perigosos e que, a qualquer momento, se contrariado, poderiam se atirar contra seus semelhantes para tirar-lhes a vida. Pena máxima, pediu ao Conselho de Sentença o Dr. Celso Nascimento, para o bem da sociedade, porque de justiça.

Depois da pausa para o jantar, às 21h, foi concedida a palavra ao Dr. Milton Assensi, membro da defesa, que passou a se referir aos antecedentes de Delmo, citando o desamparo em que o mesmo vivia por parte de sua família. E passou, então, a se referir tão somente ao réu “Pirulito”, dizendo que foi ele o único autor da morte de Delmo. E continuou dizendo que aceitava a tese da acusação, concordava com ela, pedindo a condenação do réu. Mas, então, passou a analisar a personalidade de “Pirulito” como um menor, um irresponsável, influenciado pelo próprio meio onde trabalhava e também pela explosão própria de sua idade, em face dos antecedentes ao crime. Vendo o que se passava, ficaram os choferes, principalmente “Pirulito”, pela cena que se apresentava no local onde Delmo foi morto e também pelas impressões que ainda retinha da morte de Honório, tudo isso contribuiu para levar o réu a cometer o delito.

Passou a argumentar a tese da emoção retardada, citando autores e doutrinas em favor do réu. Disse da “revolta entre espírito e alma” e se demorou nessas argumentações, mostrando que “Pirulito” era um irresponsável, um retardado em seu discernimento, pelo que o mesmo não podia ser responsabilizado como os demais, porque a sua idade assim o exigia. Apartes entre a defesa e a acusação fizeram com que o Dr. Milton Assensi solicitasse ao juiz para cessar os apartes, ameaçando deixar a tribuna se eles continuassem. Disse ainda que o Tribunal não é lugar para palhaçadas, tendo sido aparteado pelo Dr. Domingos de Queiroz, o qual afirmou “quem está fazendo palhaçada é V. Excia.”

Continuou o orador, dizendo que “Pirulito é um criminoso, é um culpado e por isso devia ser punido, mas punido com as atenuantes de “forte emoção produzida por ato injusto da vítima” e também da sua menoridade, para que ele se reabilite, ele se torne um elemento útil à sociedade. “Condenem, Srs. do Conselho de Sentença, condenem Pirulito, mas que seja observado o seu temperamento de jovem e a emoção de que estava possuído quando cometeu o delito”, finalizou o Dr. Milton Assensi.

Às 23h, foi à tribuna o Dr. Manuel Barbuda, que passou a analisar também a personalidade de “Pirulito”, dizendo que era um absurdo o auxiliar da acusação pedir a pena máxima para o mesmo, de vez que ele era um menor. Defendeu também a tese de que “Pirulito” não podia ser incluído no rol dos que cometeram o crime com a responsabilidade da maioridade. Passou a se referir também aos demais réus, contrariando as alegações da acusação, dizendo que a ela sim caberia apurar as verdadeiras provas, os fatos que viessem esclarecer a situação dos réus para que eles não fossem punidos por crimes que não cometeram.

Trocaram-se apartes e continuou o Dr. Barbuda as suas alegações mostrando a falha do processo, desde o seu início até a instrução criminal, o que, conforme disse, muito estava a depor contra a honestidade da Justiça. Combateu as palavras do Dr. Celso Nascimento, quando se referiu com palavras por demais enérgicas, chegando ao ponto de chamar os membros da acusação de desonestos quando apresentavam fatos contra os réus. Finalizou as suas argumentações à 00h50, pedindo que fosse feita justiça aos réus, porque, se assim fizesse, o Conselho de Sentença estaria agindo de acordo com a vontade da sociedade, que representava, e para a segurança e o respeito dessa própria Justiça.

Precisamente à 00h52, o Dr. Domingos de Queiroz ocupou novamente a tribuna, para replicar. E iniciou a sua oração referindo-se às palavras proferidas pelos membros da defesa, dizendo que lamentava terem os mesmos se manifestado insultuosamente aos membros da acusação, inclusive o Dr. Barbuda. Estranhou tal procedimento e disse que sempre procurou respeitar os seus colegas, aqueles que se encontravam na bancada da acusação, sem insultá-los, sem menosprezá-los, porque sempre procurou respeitar a Justiça, o Tribunal do Júri. Passou, então, a afirmar que os réus delinquiram desde quando do assalto à ambulância até aos atos praticados por eles quando mataram Delmo Pereira na vereda da estrada de São Raimundo.

 

Citou novamente alguns depoimentos, de choferes também, que acusaram os réus, de maneira clara, insofismável, como os principais implicados no crime. Mencionou que estava de posse de todos os dados referentes às datas de nascimento de todos os réus e portanto poderia dizer que “Pirulito” não tinha outra idade senão a de 22 anos. E passou depois a comentar a tese da defesa, que afirmou terem os réus cometido o crime sob “forte emoção, produzida por ato injusto da vítima”. E adiantou: “Quem deseja carregar um cadáver na mala de um carro; quem procura uma cerca de arame farpado para enganchar esse corpo, a exemplo do que foi feito com José Honório; quem produz golpes certeiros, em lugares mortais, numa vítima indefesa, pode estar emocionado, pode estar apaixonado?”. E ele mesmo responde que “não”. “Eles agiram em perfeita noção do que estavam fazendo, eles queriam o fim a que chegaram. Eles queriam a morte de Delmo, por vingança, por covardia”, afirmou.

Referiu-se às alegações da defesa de que os réus foram coagidos na Polícia, para confessarem o seu crime. E então adiantou que foram esses mesmos réus, o próprio “Carioca” quem, na Penitenciária, quando ali foi recolhido, eles mesmos, através daquele seu companheiro, elogiaram a atitude da Polícia, principalmente do Chefe de Polícia, tenente-coronel Luiz Pinheiro de Araújo, pelo tratamento que lhes foi dado. Ao finalizar a sua oração, disse o Dr. Domingos de Queiroz: a absolvição dos réus, como pediu um dos membros da bancada de defesa, seria um escárnio, um desrespeito à sociedade e um convite ao recrudescimento da criminalidade porque aqueles que delinquem, se libertos, ficam com a convicção de que jamais serão punidos e por isso zombam da Justiça e da sociedade, e se tornam perniciosos no seio da própria sociedade.

Depois de elogiar os trabalhos dos advogados da defesa, que se esforçam para defender, para inocentar os seus constituintes, lamentava que eles estivessem fugindo à ética para passarem ao plano dos insultos, lendo, então, um trecho de Nelson Hungria, o qual diz: “Confiar, desconfiando sempre”. Por fim, para a tranquilidade da sociedade, para a satisfação da justiça e da sociedade, o Conselho de Sentença deveria condenar os réus, avisou. Finalizando a 01h59, o Dr. Domingos de Queiroz foi substituído na tribuna pelo Dr. Celso Nascimento, que argumentou quanto às agravantes mencionadas anteriormente contra os réus, pedindo ao Conselho de Sentença que aplicasse a pena com todos esses agravantes, dando aos réus a pena máxima.

Passou a comentar o grau de periculosidade de cada um, desfazendo as argumentações da defesa de que “Pirulito” era um menor e por isso não poderia ser punido com a mesma pena como os demais. Sempre aparteado pela defesa, continuou o Dr. Celso Nascimento, dizendo que “Carioca”, num alto grau de perversidade, dentro do carro, ia furando os dedos de Delmo e gargalhando. Contrariou a alegação da defesa de que os réus cometeram o crime sob violenta emoção provocada por ato injusto da vítima, passando a ironizar os membros da defesa, contrariando as suas argumentações em favor dos réus.

Continuando, o Dr. Celso Nascimento ironizou o pedido de condenação para “Pirulito”, feito pelo Dr. Milton Assensi, e o de absolvição para todos, feito pelo Dr. Manuel Barbuda. E, então, disse que a defesa chocou-se nas suas alegações, ficando o Conselho de Sentença num dilema, pelo pedido de um e de outro. Um, pediu a absolvição, e o outro, a condenação. Passou então a revigorar as suas citações anteriores quanto à participação dos réus nas diversas fases do crime, indicando as ações de cada um dos réus, apontando todas as facadas que recebeu Delmo, vibradas pelos acusados.

Depois de argumentar claramente os fatos, finalizou o Dr. Celso Nascimento dizendo que as provas dos autos estavam à disposição dos jurados para verem o que cometeram os réus, barbaramente, contra a vítima e pediu, então, porque os mesmos conheciam muito mais do que estava no processo e já que não revelaram deviam ser punidos, condenados, sim, à pena de 30 anos de reclusão. “Justiça”, pediu. “Não a justiça com as próprias mãos, como fizeram os choferes implicados, mas a justiça que eles não respeitaram e não querem respeitar, a justiça dos homens civilizados, a verdadeira justiça, aquela onde eles podem se defender, onde os seus advogados se esforçam para inocentá-los, justiça, sim, de 30 anos!”, finalizou o Dr. Celso Nascimento.

Terminada a réplica, o advogado Milton Assensi, em tréplica, ocupou a tribuna para reafirmar a menoridade de “Pirulito”, reconhecendo-o culpado, porém que o Conselho de Sentença lhe desse a pena de acordo com a Lei e o Direito. Passada a palavra ao Dr. Manuel Barbuda, voltou o ilustre professor a pedir a absolvição dos réus, desde que não estava verdadeiramente reconhecida a sua culpabilidade. Ele deixou a tribuna às 03h10.

Às 04h45, reaberta a sala, foi conhecida a sentença, tendo o doutor juiz Ernesto Roessing condenado Ludgero Sarmento, vulgo “Carioca”, à pena máxima de 30 anos; João Brito Teixeira, vulgo “Pirulito”, à pena concreta de 25 anos; Aurino do Espírito Santo Silva, vulgo “Santo Pobre” a 27 anos e Luiz Azevedo da Silva, vulgo “Luiz Mal de Vida”, a 26 anos. Conhecida a sentença, o Dr. Milton Assensi protestou por novo julgamento, sendo deferido o protesto.

O juiz Ernesto Roessing convocou outra sessão para hoje, às 13 horas, quando será julgado Manuel Cruz, último dos implicados na morte de Delmo Pereira e considerado o “inquiridor” da vereda dos franceses.

Também no mesmo dia 27 de fevereiro, o vespertino A Gazeta trazia na 1ª página a manchete “Lavada a mancha que infelicitava a terra e a gente amazonenses”:

Somente na manhã de hoje, por volta das 4 horas da madrugada, terminou o sensacional julgamento de “Pirulito”, “Carioca”, “Ruim de Vida” e “Santo Pobre”, apontados como autores diretos da morte do estudante Delmo Campelo Pereira. Como era de esperar, nenhum dos réus, apesar dos ingentes esforços dos seus patronos, conseguiu absolvição, tendo sua culpabilidade sido reconhecida unanimemente pelo Conselho de Sentença. Tampouco se reconheceu, em favor de qualquer deles, as atenuantes levantadas pela bancada de defesa, não se levando em consideração nem mesmo a situação de menoridade arguida de um dos indiciados – “Pirulito”. Pelo contrário, os juízes de fato aceitaram todas as agravantes apontadas pelos acusadores e constantes do artigo 44 do Código Penal Brasileiro.

Tendo em conta seu grau de criminalidade, sua periculosidade, seus antecedentes e sua personalidade, o Dr. Ernesto Roessing, presidente do Tribunal do Júri aplicou-lhes as seguintes penas: Ludgero Sarmento, “Carioca”, 30 anos de reclusão, cem cruzeiros de taxa penitenciária e pagamento das custas do processo; Aurino do Espírito Santo, “Santo Pobre”, 27 anos de reclusão, cem cruzeiros de taxa penitenciária e pagamento das custas do processo; Luiz Azevedo da Silva, “Ruim de Vida”, 26 anos de reclusão, 50 cruzeiros de taxa penitenciária e pagamento das custas do processo; e João Brito Teixeira, “Pirulito”, 25 anos de reclusão, 50 cruzeiros de taxa penitenciária e pagamento das custas do processo. Depois da leitura da sentença, o Dr. Manuel Barbuda, da bancada de defesa, protestou por novo júri, baseado, como já se sabe, no artigo 607 do Código do Processo Penal.

Está, assim, a sociedade amazonense saneada de elementos de tão comprovada nocividade. Retornando à Penitenciária do Estado, para cumprimento da punição que lhes impõe a lei, vão eles entrar em uma fase de reabilitação, necessária a todos os criminosos de sua estirpe. Voltarão a novo júri, pela benevolência dessa mesma lei, que pedia sua condenação proferida à madrugada de hoje, tudo indica, será a mesma que lhes será aplicada quando submetidos a novo julgamento, possivelmente em maio vindouro. E assim deve ocorrer uma vez que são acusados de um delito monstruoso, agravado de tortura, crueldade, desrespeito ao poder da autoridade e até mesmo vingança. A sociedade, que eles ultrajaram, a lei, que eles desrespeitaram, e a Justiça, que eles vilipendiaram, estão exigindo sua punição, e essa punição, já exercida ontem, será ratificada posteriormente.

Inculca-se a todos eles – os acusadores são seus próprios companheiros – a maior responsabilidade pelo massacre do estudante Delmo Pereira, atribuindo-se a cada um, ainda, facadas, cipoadas e bofetadas na vítima. E o Conselho de Sentença, ante as provas dos autos, não teve outra saída senão condená-los. De nada adiantaram os argumentos da defesa e as citações de doutrina e jurisprudência, com o intuito de inocentar seus constituintes.

Nenhum efeito, no pronunciamento dos jurados, causaram as brilhantes teses defendidas pelos Drs. Milton Assensi e Manuel Barbuda. A do primeiro, ao nosso ver, superior, em certos pontos, à do experimentado e culto professor da nossa Faculdade de Direito. Soube desenvolvê-la com grande habilidade e, também, com grandes conhecimentos, em uma demonstração evidente dos estudos que realizou sobre a causa pela qual se batia. Do ponto de vista científico, merece esse trabalho os maiores encômios. Olhando-o, no entanto, pelo prisma da realidade, pelo lado verdadeiro da questão, já não podemos dizer a mesma coisa. A realidade é que todos eles tinham sido autores. Seu crime era bem flagrante.

Em seus respectivos encargos, de defensor da sociedade e de advogados da família da vítima, os Drs. Domingos de Queiroz e Celso Nascimento tiveram atuação semelhante às anteriores, tudo fazendo, dentro do Direito e dos fatos, pela condenação daqueles que, sentados no banco de réu, respondiam por um grave crime de homicídio. Mais uma vez saíram vitoriosos, elevando-se, assim, a 19 o número de condenações por eles conseguidas.

O Conselho de Sentença esteve constituído dos seguintes cidadãos: Afonso Celso Maranhão Nina, Artur César Meireles Pucú, Alísio Chaves Ribeiro, Ernani Aguiar, Raimundo Fernandes Moura, Jason Stone Martins e Augusto Alves da Silva. Para dar sua decisão, os jurados permaneceram em reunião secreta durante quase duas horas, no correr das quais tiveram que responder a dezenas de quesitos, formulados pelo Dr. Ernesto Roessing, relativos, inclusive, ao agravamento do crime.

Com exceção de “Pirulito”, de cujos olhos caíram lágrimas, os demais réus permaneceram impassíveis, sem nenhum sinal de tristeza ou comoção, no momento em que o presidente do Tribunal do Júri lia a sentença condenatória. Pouco antes disso, nossa reportagem esteve em contato com todos eles, na sala onde se encontravam, sob a guarda da Polícia. Tinham certeza de sua condenação, mas não esperavam que lhes fossem aplicadas penas tão elevadas. Acreditavam que o Conselho de Sentença reconhecesse as atenuantes arguidas em seu favor pela bancada da defesa. “Pirulito”, por exemplo, estava crente de que sua apregoada menoridade iria contribuir para a diminuição de sua pena.

Interessante é que negavam ser os responsáveis pela morte de Delmo, recusando, em tom peremptório, que tivessem esfaqueado a vítima, “como disseram o Dr. Domingos de Queiroz e o Dr. Celso”. “Carioca” chegou a dizer que o matador de Delmo “anda por aí, em liberdade”. Afirmou que o Dr. Nonato de Castro sabe quem é, e que a Polícia, “mesmo que passe cinco anos procurando, não descobrirá ele”.

Apesar da restrição feita pelo Dr. Arnoldo Peres, presidente do Tribunal de Justiça, grande assistência compareceu ao julgamento de ontem, predominando, como sempre, o elemento feminino. Pode-se dizer, mesmo, que noventa por cento dos espectadores eram mulheres. Em frente ao Palácio “Clóvis Bevilácqua”, pela parte da tarde e à noite, centenas de pessoas se comprimiram, umas tentando entrar, e outras ouvindo os debates através de um alto-falante instalado, ali, pela União dos Estudantes do Amazonas. Houve gente, conforme pudemos verificar, que não se afastou do seu lugar desde o início até o encerramento dos trabalhos, pouco se importando com o jantar.

Como dissemos ontem, o Dr. Ernesto Roessing, diante das ameaças que teriam sofrido os membros da bancada de acusação e alguns jurados, por parte de pessoas das famílias dos réus, solicitou autorização do presidente do Tribunal de Justiça para reforçar o policiamento, a fim de prevenir qualquer tentativa de perturbação da ordem. Desse modo, soldados da Polícia Militar do Estado, de baioneta calada, montaram guarda nos pontos estratégicos da sala do Tribunal do Júri, enquanto agentes e guardas-civis se distribuíram pelos corredores do Palácio da Justiça.

Com o júri de Manuel Cruz, iniciado à hora de praxe, hoje, terminam os julgamentos dos choferes implicados nos trágicos acontecimentos de 5 de fevereiro do ano passado. Cruz, tão incriminado quanto os condenados de ontem, é o último dos indiciados, assim, a resgatar sua dívida com a sociedade.

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