O caso Delmo: A arraia miúda abre o bico (4)

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Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

No dia 12 de maio, quase 45 dias depois da confissão de “X-9”, o chofer Antônio Vicente de Araújo, conhecido como “Puxa Faca”, também resolveu contar o que sabia para o juiz Ernesto Roessing.

Na presença do juiz, do promotor Domingos de Queiroz e dos advogados Manuel Barbuda e Raimundo Nonato de Castro, “Puxa Faca”, que no mês anterior havia fugido espetacularmente do Quartel da Polícia Militar e sido recapturado pela Polícia Civil alguns dias depois, abriu o coração.

O que ele disse foi o seguinte:

Que no dia 5 de fevereiro o acusado estava trabalhando na praça, como chofer do carro nº 260, de propriedade do senhor conhecido por Didi;

Que o acusado recebeu o carro às 16h, hora antiga, e que fez “ponto” na avenida Eduardo Ribeiro e aí soube que Delmo ia tomar o “soro da verdade” no pronto-socorro, o que, aliás, todo mundo sabia e a própria imprensa havia noticiado;

Que pelas 18h mais ou menos ou pelas 19h, não se recordando bem a hora, ouviu comentários no “ponto” de que alguns choferes iriam retirar Delmo da assistência para obrigá-lo a confessar o nome de seus cúmplices no assassinato de Honório;

Que esses comentários surgiram de uma roda onde estavam alguns choferes, entre os quais se lembra bem do chofer “Tambaqui”, do chofer “Pirulito” e do chofer Cesário, porém o interrogado não se aproximou desses choferes porque foi logo fazer um serviço a pedido da Garagem Avenida, por intermédio do senhor João Avelino;

Que terminado o serviço, o depoente voltou ao “ponto” na avenida Eduardo Ribeiro, às 19h30, hora antiga, e que permaneceu no “ponto” e mais tarde foi fazer um serviço para um senhor desconhecido até os Educandos e voltou novamente para o seu “ponto”;

Que não se lembra bem a hora que voltou do serviço daquele bairro, mas podiam ser mais ou menos 20h e que, ao chegar, ouviu comentários de que Delmo tinha sido raptado da assistência e conduzido para a Estrada dos Franceses;

Que esses comentários eram gerais em toda a avenida Eduardo Ribeiro e, sabendo disso, o depoente resolveu ir até aquela estrada;

Que, por isso, no seu carro nº 260, subiu a avenida Eduardo Ribeiro, dobrou pela José Clemente, entrou pela avenida Epaminondas e tomou o rumo da João Coelho;

Que ao chegar em frente ao Remanso do Boto, o depoente viu muita gente e um ônibus parado, não se recordando do nome desse ônibus;

Que o depoente não conduziu ninguém no seu carro, pois foi sozinho;

Que entrou na estrada velha de São Raimundo e chegou ao local onde estavam parados vários carros;

Que parou seu carro e saltou e encontrou o sargento Medeiros e um engraxate de cor preta cujo nome não sabe e que o interrogado e mais esses dois ficaram procurando o local por onde entraram os choferes;

Que calcula ter o seu carro parado a uma distância mais ou menos de uns 600 metros da ponte velha de São Raimundo;

Que pouco depois o depoente entrou no seu carro com intenção de voltar e foi quando avistou o chofer Francisco Ribeiro dos Santos, vulgo “Toba de Vaca”, o qual vinha do local onde estava Delmo;

Que “Toba de Vaca” vinha cansado e o depoente perguntou-lhe onde estava o “homem” e que “Toba de Vaca” indicou-lhe o caminho e inda lhe informou de que Delmo já estava morto;

Que “Toba de Vaca” entrou num carro e foi embora e que pela indicação de “Toba de Vaca”, o depoente chegou até o local onde se encontrava Delmo e foi acompanhado do engraxate referido;

Que ao se dirigir para o local onde estava Delmo, muita gente já vinha voltando e se lembra de ter encontrado o chofer conhecido por “Carioca”, que vinha com uma mão amarrada;

Que já dentro do varadouro, perto do local onde estava Delmo, o depoente encontrou-se com o chofer Manoel Cruz e perguntou a este pelo “homem” e que Manoel Cruz respondeu-lhe que o “homem” estava ali perto e indicou com a mão, esclarecendo ainda que Delmo já se encontrava morto;

Que o depoente aproximou-se do local onde estava Delmo e aí viu o chofer “Pirulito” e que o engraxate estava sempre acompanhando o depoente;

Que “Pirulito” já estava se retirando, porém, disse ao depoente que ele tinha de compartilhar do crime porque todos iam se apresentar à polícia e que Delmo nesse momento se encontrava caído no chão de peito para o ar;

Que o depoente aproximou-se de Delmo e viu que ele estava morto e que então enfiou uma faca no peito de Delmo e rasgou-lhe o peito de cima a baixo;

Que depois enfiou a faca na areia, colocou-a na bainha e jogou-a fora;

Que fez isso não com má intenção, mas apenas para ficar solidário com os outros colegas e que feito isso o depoente voltou correndo pela vereda, tendo passado pela frente de diversas pessoas que também estavam voltando;

Que o engraxate ainda ficou no local do crime, não prestando atenção se ele veio atrás do depoente;

Que ao chegar no local onde estavam parados os carros, o depoente apanhou o seu carro e que o chofer Pedro, conhecido por “Mala Velha” e mais outros dois choferes que não conhece, tomaram o carro do depoente;

Que esses dois choferes o depoente não pode afirmar que estejam presos aqui na penitenciária, porém presume que sejam choferes de ônibus;

Que o depoente movimentou seu carro e dirigiu-se para a avenida Eduardo Ribeiro;

Que Pedro Mala Velha ficou na Baratinha e os outros dois choferes foram para a outra esquina onde ficaram;

Que o depoente ficou no “ponto” e recolheu seu carro às 23h e que, antes de recolher o seu carro, foi deixar o carro do senhor Germano na garagem no Alto de Nazaré;

Que a faca usada pelo depoente para furar Delmo, quando já estava morto, pertencia ao depoente, porém, não foi apreendida e era uma peixeira de cinco polegadas;

Que o depoente, no outro dia, pelas 8h da manhã, foi saber se os outros choferes estavam se apresentando à polícia e que ao chegar ao “ponto” o chofer conhecido por “Lambão” informou ao depoente de que a polícia o procurava e por isso foi apresentar-se à autoridade policial;

Que na ocasião em que chegava à Chefatura de Polícia, o Dr. Rocha Barros ia entrando nessa repartição;

Que aí apresentou-se e recebeu voz de prisão do senhor Bastos e foi conduzido num Jeep para o Educandos junto com o delegado desse bairro e que também o acompanharam o policial Bastos, o agente Rosas e mais dois que não conhece;

Que foi conduzido até a sua residência, onde examinaram a roupa do depoente para ver se estava suja de sangue e que, terminado esse exame, foi conduzido para o Posto Policial de Educandos;

Que às 24h, o agente Rosas e outro agente que não conhece foram buscar o depoente e o conduziram para a Chefatura de Polícia;

Que na Polícia Civil o depoente foi ameaçado e coagido por esses dois agentes e foi até ameaçado de ser conduzido ao local do crime para que ele indicasse o local onde havia deixado a faca;

Que o agente Rosas disse que seria conduzido até lá por agentes da Polícia Especial e que o depoente não apanhou, apenas foi muito ameaçado;

Que o depoente não foi convidado por Cesário, “Tambaqui” e “Pirulito” para assaltar a ambulância e que também não tomou parte naquele assalto;

Que o seu interrogatório no Tribunal foi negativo por uma questão de solidariedade entre seus colegas;

Que esta sua confissão é espontânea e está falando a verdade de tudo o que aconteceu com o depoente na noite do dia 5 de fevereiro;

Que o depoente fugiu há dias da Polícia Militar insuflado por seus colegas “Pirulito”, um soldado, Benori, “Toba de Vaca” e “Carioca”, e que todos eles o ajudaram a fugir;

Que o depoente fugiu porque necessitava de copular e mesmo porque desejava estar junto de sua esposa e de seus três filhos que atualmente estão em Belém passando fome;

Que o seu objetivo era juntar-se à sua família, para trabalhar e dar-lhe comida.

Do que, para constar, lavrei este termo que lido e achado conforme vai rubricado por mim, escrivão, e assinado pelo Juiz, pelo acusado e demais pessoas presentes.

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