O caso Delmo: A arraia miúda abre o bico (2)

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Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

A confissão de José Cesário de Oliveira teve o efeito de uma bomba de efeito retardado. De repente, todos os acusados, culpados ou inocentes, ficaram com uma pulga atrás da orelha. Os culpados começaram a acreditar que a vaca estava indo para o brejo. Os inocentes começaram a vislumbrar uma luz no fim do túnel.

Considerado o mentor da operação, Ludgero Sarmento, o “Carioca”, estava se sentindo preso nas cordas, à espera de um nocaute demolidor. Ele resolveu partir para o contra-ataque, antes que fosse tarde demais.

No dia 28 de março, três dias após a confissão de Cesário, também resolveu contar o que sabia.

A confissão de “Carioca” foi presenciada pelo juiz Ernesto Roessing, pelo promotor Domingos de Queiroz e pelos dois advogados do réu, Raimundo Nonato de Castro e Manoel José Machado Barbuda.

O que o chofer disse foi o seguinte:

Que o acusado não está aqui para acusar ou inocentar os seus companheiros, porém deseja esclarecer todos os acontecimentos que culminaram com a morte de Delmo Pereira;

Que deseja também o apoio dos companheiros no sentido de confirmarem as suas declarações, pois está disposto a contar tudo o que se passou;

Que sobre o assalto à ambulância do Serviço de Socorros de Urgência tem a informar o seguinte;

Que no dia 5 de fevereiro o declarante se encontrava de serviço no ônibus Líbano e deixou esse serviço às 18h, hora antiga;

Que depois disso saiu a pé e foi até a avenida Eduardo Ribeiro, onde encontrou-se com José Cesário de Oliveira e que José Cesário cientificou ao declarante o que ia acontecer;

Que então Cesário disse ao depoente de que já estava combinado com o Silvio de Oliveira de que iam assaltar a ambulância;

Que aí o depoente entrou no carro de José Cesário e se dirigiram até a casa de um senhor que conserta armas, no canto da Joaquim Nabuco com a rua dos Barés, e que esse senhor respondeu que as armas não estavam prontas, sendo dois revólveres, um de propriedade do chofer Tourinho e outra de propriedade de José Cesário de Oliveira;

Que não sendo possível levar essa armas subiram a avenida Joaquim Nabuco e, no trajeto, solicitou a Cesário que tinha necessidade de ir a sua casa, tendo sido atendido por Cesário;

Que se dirigindo pela Joaquim Nabuco, no canto da rua Lauro Cavalcante, viram uma ambulância parar e o doutor Rocha Barros saltou dessa ambulância;

Que Cesário então disse ao depoente que talvez o doutor Rocha Barros fosse para casa e que tudo estava pronto;

Que retificando o doutor Rocha Barros saltou no canto da Joaquim Nabuco com a rua José Paranaguá;

Que depois disso seguiram essa ambulância até o canto do Cinema Guarany e dali entraram na Sete de Setembro, subindo essa avenida e se dirigiram para a casa do depoente;

Que chegando em casa, entrou e apanhou uma faca, não tendo encontrado sua esposa;

Que, porém, quando saiu de casa, com a faca, sua esposa lhe chamou ao mesmo tempo que Cesário também lhe chamava e que por uns momentos ficou indeciso não sabendo se atenderia sua esposa ou se atenderia Cesário;

Que resolveu ir para o carro de Cesário e, daí, seguiram pela Sete de Setembro e foram até a avenida Eduardo Ribeiro e, aí, Cesário entregou o carro para um chofer que trabalha à noite no carro dele;

Que em seguida tomaram um carro, o depoente e Cesário, não se lembrando, presentemente, o número desse carro e não se recordando também do chofer, e foram até a Santa Casa de Misericórdia;

Que ao chegarem perto da Santa Casa, Cesário disse para o depoente: “Lá está o carro do Pirulito!”;

Que saltaram no canto da rua Dez de Julho com a Eduardo Ribeiro e ficaram escondidos atrás de umas mangueiras aguardando a chegada de uma ambulância e que pouco depois estacionou uma ambulância em frente da Santa Casa e Cesário dirigiu-se até lá;

Que logo depois Cesário assoviou e então o depoente e mais “Pirulito” foram até onde se encontrava Cesário, tendo este lhes informado de que Delmo não se encontrava nessa ambulância;

Que no local referido estavam parados muitos carros e, como Cesário lhes informou de que Delmo não estava nessa ambulância, “Pirulito” retirou-se para o seu carro, dele, “Pirulito”, e o depoente, em companhia de Cesário, entraram no carro do chofer Manoel Cruz, o qual estava sendo guiado pelo chofer Silas Araújo;

Que os demais carros tomaram outros rumos e o depoente com Cesário saltaram na avenida Getúlio Vargas no canto da Lauro Cavalcante;

Que nesse local se encontrava o chofer José Aguiar, vulgo “Cu de Vidro”, e que Cesário dirigiu-se a José Aguiar dizendo-lhe que ele esperasse por ali, enquanto ia avisar os demais companheiros;

Que para provar sua ida à oficina da Joaquim Nabuco com a rua dos Barés, em companhia de Cesário, para irem buscar os revólveres, aponta os nomes de Taurino José Mota de Siqueira, o qual os acompanhou até lá, e do dono dessa oficina, que veio saber chamar-se Manoel Lestão;

Que todos os carros de praça que iam aparecendo por ali, isto é, na avenida Getúlio Vargas e imediações, José Cesário ia avisando aos choferes de que eles ficassem aguardando;

Que Cesário disse ao depoente que Silvio Alves de Oliveira tinha combinado dar duas sirenadas da assistência antes de ela sair do Hospital do Serviço de Socorros de Urgência;

Que o depoente perguntou a Cesário porque é que ele sabia desse pormenor, tendo ele respondido que tinha passado a tarde com Silvio na “A Renascença”;

Que já nesse estabelecimento compareceu um cidadão que falou com o chofer Francisco das Chagas Barroso Lotif o qual se ofereceu a testemunhar esse encontro de Cesário com Silvio, naquela casa referida, e que esse cidadão é empregado dessa casa, não lhe sabendo o nome, porém poderá ser identificado por Lotif;

Que uns dez minutos antes da saída da ambulância do Serviço de Socorros de Urgência, um guarda do Corpo de Segurança, de nome João, bateu no ombro de Cesário, perto daquele hospital, perguntando-lhe o que havia de novo e ele respondeu que Delmo talvez se encontrasse ali dentro do Serviço de Socorros de Urgência;

Que então, por essas atitudes de Cesário, pensa ter sido ele o autor intelectual do assalto à ambulância;

Que depois, não se recordando bem da hora, mas possivelmente depois das 18h, hora antiga, ouviu-se o sinal dado por Silvio, isto é, aquelas duas sirenadas;

Que o depoente acredita na inocência de Lotif e que seria talvez pegado de surpresa e que conversando aqui na penitenciária com Lotif, este, por várias vezes, informou ao depoente de que não tinha conhecimento desse assalto e que foi Silvio quem lhe pediu para que descesse pela Lauro Cavalcante;

Que depois do sinal convencionado, a assistência desceu pela rua Lauro Cavalcante e entrou na Getúlio Vargas e que ao chegar no canto do ginásio já na avenida Sete de Setembro, cruzamento da avenida Getúlio Vargas, a assistência do Serviço de Socorros de Urgência parou;

Que veio a saber depois que Silvio, nessa ocasião, tinha fechado a chave de ignição e que o chofer Lotif se afobou, pisando no acelerador e afogando o veículo;

Que nesse momento todos correram em direção da ambulância que já estava com as portas traseiras abertas;

Que um agente da polícia que se encontrava dentro da ambulância saiu, não sabendo o depoente se foi puxado por alguém;

Que depois disso José Cesário de Oliveira entrou na assistência e, colocando uma das mãos atrás do pescoço do Delmo, o retirou do interior do veículo;

Que quando olhou para trás o depoente viu um carro Hudson parando atrás da assistência com a sua frente para a parte traseira da assistência;

Que não sabe se este carro já estava ali parado há muito tempo e também não pode informar de que rua veio e se o carro já estava ali com o objetivo de conduzir Delmo;

Que o depoente dirigiu-se até esse carro Hudson e abriu uma das portas e nesse momento já vinha Delmo sendo conduzido pelo ar, nos braços de muita gente, e lembrou-se de que Cesário ajudou a conduzi-lo;

Que Delmo entrou no carro Hudson e desceram a Sete de Setembro e que nesse carro iam as seguintes pessoas: o chofer “Bigode”, na direção do mesmo, Delmo Pereira, ao lado deste e o depoente ao lado de Delmo. Atrás estavam Benori, José Cesário e Waldemar Lemos;

Que desceram a Sete de Setembro, entraram na rua Itamaracá, continuaram pela avenida Epaminondas e avenida João Coelho;

Que ao chegarem no cruzamento da estrada de São Raimundo, o depoente disse que seu pé estava preso na porta do veículo e que nesse momento pararam o carro e José Cesário saltou dele em companhia de outro chofer que estava atrás, não se recordando quem foi o outro;

Que os dois saltaram para abrir a porta do carro e a porta foi aberta;

Que Cesário, depois disso, pediu ao chofer “Bigode” para que fosse mais devagar a fim de esperar os outros carros;

Que continuaram a marcha até chegarem à estrada velha de São Raimundo e que ali o depoente perguntou se iam a Flores, tendo Cesário dito que iam entrar na estrada velha de São Raimundo, o que foi feito;

Que chegaram até as imediações do Batuque da Mãe Joana e continuaram trafegando até passarem esse batuque;

Que nessa altura o chofer “Bigode” disse que não desejava continuar e parou o carro;

Que por isso o depoente saltou em companhia de Delmo, Cesário e Benori e o chofer “Bigode” voltou no carro para a cidade, em companhia de Waldemar, sendo que este último não chegou nem a saltar do automóvel;

Que logo depois chegou o carro de “Pirulito” e Delmo foi transportado para esse carro;

Que seguiram mais ou menos uns 200 metros e no carro iam “Pirulito”, guiando, Delmo Pereira, o depoente, Benori, na frente; atrás iam Cesário e mais outros, não se recordando do nome e do número desses outros;

Que após uns 200 metros, o carro parou e todos saltaram conduzindo Delmo por uma vereda;

Que Delmo não ia sendo espancado ou torturado;

Que caminharam nessa vereda, calculadamente, uns 200 ou 300 metros e que depois disso pararam e Delmo começou a ser interrogado;

Que o depoente perguntou a Delmo quem eram os cúmplices no assassinato de José Honório;

Que nesse momento surgiu o chofer Manoel Cruz, de revólver em punho, e pediu a Delmo que ele se afastasse três passos para morrer;

Que Delmo cumpriu essa ordem;

Que Manoel Cruz pediu para que todo mundo se afastasse de perto de Delmo, pois ali já estavam muitos choferes e algumas pessoas que não pertenciam à classe dos volantes;

Que aí uma multidão de gente caiu em cima de Delmo, dando-lhe murros e pontapés;

Que o local estava muito escuro e não pôde observar quais as pessoas que batiam em Delmo;

Que passado isto, Delmo ficou em pé e prosseguiu-se o interrogatório, o qual foi feito por Manoel Cruz;

Que Delmo então apontou como seus cúmplices dois nomes: Antônio Muniz e José Alberto;

Que José Cesário tomou nota desses nomes numa caderneta e que aqui na penitenciária o depoente procurou identificar esse José Alberto;

Que a muito custo conseguiu saber de que José Alberto é um soldado da Aeronáutica, número cinco, e atualmente se encontra em Belém, na Escola da Aeronáutica, fazendo um curso de Rádio Técnico;

Que esse soldado se encontrava no local do crime quando Delmo era interrogado;

Que José Alberto foi o autor da morte de Delmo, pois deu duas facadas em Delmo e que foram as primeiras;

Que o chofer “Santo Pobre” até disse ao depoente de que viu esse soldado dar uma facada em Delmo;

Que “Pirulito” também contou que José Alberto deu duas facadas em Delmo, uma no ventre e outra nas costas;

Que “Santo Pobre” ainda disse ao depoente de que José Cesário foi o autor de uma facada;

Que Benori também pode afirmar que esse soldado estava no local do crime, pois o conhecia antes e o reconheceu naquele local;

Que a faca usada por José Alberto foi reconhecida por Benori, pois este já tinha conhecimento de que José Alberto usava há muito tempo essa faca;

Que Manoel Cruz não chegou a disparar seu revólver em Delmo Pereira;

Que há uns 15 dias, o depoente pediu ao Dr. Nonato para que conseguisse uma permissão para ir procurar, no local do crime, essa faca, pois José Alberto, depois de furar Delmo, enterrou-a no chão por duas vezes e jogou-a fora;

Que o advogado presente, Dr. Raimundo Nonato de Castro, poderá confirmar essas declarações;

(Pela ordem, o Dr. Raimundo Nonato pediu a palavra, pela ordem, para confirmá-las e solicitar diligências a fim de se procurar essa faca. O preso continuou seu depoimento.)

Que pode afirmar que o responsável pela morte de Delmo foi esse soldado da Aeronáutica, José Alberto, e que o depoente não deu nenhuma facada em Delmo;

Que os responsáveis pelo assalto da ambulância pode afirmar que são Manoel Cruz e José Cesário;

Que aqui na penitenciária, por diversas vezes, José Cesário disse ao depoente que tinha remorsos de ter acusado Benjamin de Souza, pois este era inocente;

Que tomaram parte no assalto à ambulância o depoente, José Cesário, Benori, Pedro Paula de Farias, Jorge de Souza e outros que não se lembra, mas os que citou tem certeza de que tomaram parte;

Que recorda-se agora de Francisco de Souza Marques, Aurino do Espírito Santo Silva e Orlando Marreiro Lúcio, que tomaram parte no assalto à ambulância;

(Pela ordem, o Meritíssimo Juiz viu neste momento o chofer “Pirulito” apontando a pessoa de Orlando Marreiro Lúcio e imediatamente “Carioca” o incriminou como um dos autores do assalto à ambulância. O preso continuou seu depoimento.)

Que o depoente pode afirmar que todos estes esclarecimentos que está prestando é a expressão da verdade e que o único autor da morte de Delmo Pereira foi aquele soldado da Aeronáutica, José Alberto.

Do que para constar lavrei este termo que lido e achado conforme vai rubricado por mim, escrivão, e assinado pelo Juiz e pelo acusado.

Em tempo: o depoente ainda tem a declarar o seguinte: que quando saiu do local do crime, em companhia de “Pirulito”, Delmo ainda se encontrava com vida, embora esfaqueado, e vários choferes ficaram no local do crime;

Que no trajeto pela vereda era muito escuro e que apanharam o carro na estrada e, depois de caminharem uns cem metros, encontraram Manoel Cruz, a pé, também se dirigindo para a cidade;

Que o depoente viu o soldado da Aeronáutica dar uma facada em Delmo na altura do pescoço atingindo a clavícula, facada essa desferida quando esse soldado se encontrava pelas costas.

E lido e achado conforme vai rubricado por mim, escrivão, e assinado pelo Juiz e pelo acusado.

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