O caso Delmo: A arraia miúda abre o bico (1)

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Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

A prisão injusta e a posterior permanência na Penitenciária do Estado de vários motoristas inocentes começaram a perturbar o juízo de alguns dos verdadeiros envolvidos na chacina.

O suposto suicídio do motorista de ambulância Sílvio de Oliveira (para muitos ele foi morto por colegas como “queima de arquivo”) contribuiu para azedar o já irrespirável ambiente da cadeia.

Além disso, já que todo mundo – culpados e inocentes – havia negado a participação no crime do estudante, escaparia primeiro quem pudesse contratar bons advogados. A arraia miúda começou a ficar inquieta.

O primeiro a quebrar a auto-imposta e acordada “lei do silêncio” (conhecida entre os mafiosos como omertà) foi o acusado José Cesário de Oliveira.

No dia 25 de março de 1952, na presença do juiz Ernesto Roessing, Cesário resolveu fazer um “Termo de Confissão”.

O advogado do acusado, Milton Assensi, depois de tentar inutilmente impedir que Cesário prestasse as declarações, retirou-se da Sala de Audiência, em protesto.

O que o chofer disse foi o seguinte:

Que já há dias o acusado pretendia prestar declarações neste Tribunal a respeito de sua participação real e exata no crime do dia 5 de fevereiro;

Que no seu interrogatório feito neste Juízo não contou a verdade porque os primeiros choferes interrogados contavam na penitenciária que negaram a participação no crime e que uns até diziam que o interrogatório neste Tribunal era um “maná”;

Que por isso, em face da atitude dos primeiros interrogados, o acusado seguiu a mesma orientação e negou nesse Juízo sua participação no assassinato de Delmo;

Que as declarações prestadas junto às autoridades policiais são verdadeiras;

Que apesar de ter sido coagido na Polícia Civil o acusado contou a verdade perante o presidente do inquérito policial e até o doutor Domingos de Queiroz, terceiro promotor de Justiça, esteve presente quando prestava seu depoimento na Polícia Civil;

Que pensando melhor e verificando não ser o depoente o que dizem dele, isto é, um criminoso perverso e feroz, e como existem entre seus colegas denunciados elementos mais culpados do que ele resolveu fazer esta confissão para que não fique em igualdade de condições junto aos mais culpados;

Que o assalto à assistência não foi nada combinado ou pelo menos o acusado não teve conhecimento se havia premeditação a esse respeito;

Que no dia 5 de fevereiro do corrente ano, pelas 17h30, hora antiga, o depoente entregou seu carro para o chofer de plantão noturno de nome Hilton de tal e que depois disso esteve no Leão de Ouro, onde tomou um café e seguiu em direção de sua residência;

Que subiu, então, a pé, a avenida Sete de Setembro a fim de tomar um ônibus no canto da Joaquim Nabuco com aquela avenida;

Que ao chegar nesse local o depoente notou grande aglomeração de pessoas em frente ao hospital do Serviço de Socorros de Urgência e que, em face disso, o declarante caminhou até a rua Lauro Cavalcante e aí avistou o investigador Bastos, que estava numa caminhonete;

Que voltou novamente ao primeiro local, isto é, o canto da Joaquim Nabuco com a avenida Sete de Setembro;

Que pouco depois viu a assistência do Serviço de Socorros de Urgência sair desse hospital dobrar para a esquerda e entrar na rua Lauro Cavalcante;

Que nesse momento viu um ônibus e o depoente ficou indeciso se tomaria este ônibus para ir para casa ou se ficaria para ver o movimento daquela aglomeração de pessoas que seguia atrás da ambulância;

Que resolveu descer a Sete de Setembro e por isso não tomou o ônibus para ir para casa;

Que ao chegar ao canto do Cinema Guarany viu aquela ambulância, a qual vinha trafegando lentamente, com a sirene em funcionamento e uma das portas traseiras abertas;

Que a ambulância se encontrava bem em frente ao Cinema Polytheama, do lado do Ginásio Amazonense, quando verificou que a mesma estava com uma das portas traseiras aberta e que pouco depois esta porta fechou-se;

Que a assistência ao chegar no canto da Sete de Setembro com a Getúlio Vargas parou e neste momento o acusado aproximou-se pela parte de trás da ambulância;

Que ao chegar perto da parte traseira da ambulância o acusado viu as duas portas abertas e que nesse momento viu um cidadão que não conhece aproximar-se da parte traseira do veículo;

Que nesse momento um investigador que estava no interior da ambulância pulou da mesma para fora fugindo;

Que então viu Delmo Pereira segurando-se na ambulância com os dois braços levantados e apoiados num dos ferros do veículo;

Que o depoente nesse momento segurou uma das pernas de Delmo e puxou-o, porém Delmo conseguiu livrar-se;

Que um cidadão que não conhece puxou Delmo pela outra perna e Delmo novamente conseguiu livrar-se;

Que o acusado trepou na ambulância a fim de segurar Delmo por um dos braços, porém recebeu uma pancada na cabeça caindo ao solo e quando estava caído Delmo passou por cima do depoente já seguro por várias pessoas;

Que não sabia que pretendiam assaltar a ambulância;

Que Delmo da ambulância foi conduzido para um carro marca Hudson grande, não podendo informar se este carro estava ali previamente parado ou se ia chegando naquela ocasião;

Que o depoente também entrou naquele carro tendo reconhecido que no mesmo estavam as seguintes pessoas: na frente, Delmo Pereira, o chofer Ludgero Sarmento, vulgo “Carioca” e um chofer que dirigia o carro, que mais tarde veio saber que se tratava do chofer conhecido como “Bigode”. Atrás ia o depoente, Waldemar Lemos e um chofer de nome Benori;

Que nesse carro desceram a Sete de Setembro, entraram na rua Itamaracá, seguiram na estrada da Epaminondas no rumo da avenida João Coelho, chegaram em frente ao estabelecimento denominado Remanso do Boto e entraram na estrada velha de São Raimundo;

Que durante o trajeto Ludgero Sarmento puxou de um punhal e ameaçou Delmo dizendo-lhe: “Seu patife, você agora vai dizer o nome de seus cúmplices da morte de José Honório!”;

Que o depoente mais Waldemar e o chofer “Bigode” protestaram junto a “Carioca” para que ele não matasse Delmo tendo até “Bigode” dito que no seu carro não se mataria Delmo;

Que entraram na estrada referida e pararam em frente de uma barraca e que outro carro encostou no carro de “Bigode” e uma voz perguntou pelo homem, sendo Delmo transferido para esse carro;

Que este último carro continuou a sua marcha e que o chofer “Bigode” resolveu voltar para a cidade, no que foi acompanhado por Waldemar Lemos;

Que o depoente também resolveu voltar, porém o carro quando fez a manobra seguiu novamente por isso o depoente ficou no local;

Que muitos carros nesse momento vinham chegando e muitas pessoas também se aproximavam e que o depoente resolveu continuar o caminho seguindo pela estrada atrás do carro onde ia Delmo;

Que a certa altura o carro que conduzia Delmo parou e daí vários choferes entraram por uma vereda conduzindo Delmo o qual no caminho era esmurrado e levava pontapés até que chegaram a um local onde todos pararam;

Que nesse local Ludgero Sarmento começou a interrogar Delmo perguntando-lhe quais eram os companheiros que o tinha ajudado a matar José Honório e então Delmo respondeu que ia dizer;

Que então Delmo disse que seus cúmplices eram Antônio Muniz e José Alberto;

Que durante esse tempo vários choferes espancavam Delmo, inclusive alguns populares, tanto assim que Manoel Cruz recomendava calma e que não fizessem aquilo com o rapaz, porém ninguém se entendia nessa ocasião;

Que Manoel Cruz dirigiu-se a Delmo e fez-lhe nova pergunta e Delmo então respondeu que seus cúmplices eram Antônio Muniz e José Alberto;

Que Manoel Cruz perguntou a Delmo quem era esse Alberto tendo Delmo respondido que ele se dirigisse a Antônio Muniz, pois esse sabia de tudo;

Que o depoente para se certificar perguntou a Delmo quem era o terceiro para que Delmo dissesse o nome dele e que Delmo então disse que o terceiro era José Alberto;

Que nesse momento Delmo, que estava com a boca e o nariz sangrando, respirou junto do depoente sujando-lhe a sua roupa com pingos de sangue, dele depoente;

Que o depoente afastou-se e tomou nota numa caderneta do nome de José Alberto;

Que depois disso “Pirulito” dirigiu-se a todos dizendo que Delmo já tinha confessado e deveria ser levado para a Polícia na mala do carro dele, “Pirulito”, e que todos deveriam se entregar à autoridade policial;

Que então ouviu-se uma voz que dizia que não se deveria levar Delmo à polícia, e sim matá-lo;

Que o depoente sugeriu que Delmo deveria ser levado à Polícia, pois todos ou alguns eram pessoas de responsabilidade e que não poderiam ser prejudicados;

Que outra voz se ouviu dizendo que Delmo deveria ser morto para que amanhã não matasse outro colega;

Que Manoel Cruz então falou em voz alta, e também o depoente, para que não matassem Delmo, pois todos tinham responsabilidade;

Que um chofer puxou de uma faca, porém Manoel Cruz atracou-se com este e tomou-lhe a faca;

Que este chofer o reconheceu na Penitenciária do Estado e é conhecido por “Santo Pobre”;

Que Manoel Cruz entregou a faca de “Santo Pobre” ao chofer de confiança de nome Silas Araújo, para que guardasse a faca;

Que Manoel Cruz procurou evitar que matassem Delmo dando empurrões em vários choferes ou pessoas que estavam lá;

Que fez isso a pedido de Delmo que solicitou de Cruz para que ele não deixasse fazer aquilo com ele, Delmo;

Que Manoel Cruz vendo-se impossibilitado de evitar a morte de Delmo resolveu retirar-se e convidou o depoente para acompanhá-lo;

Que atendendo o pedido de Cruz o depoente saiu do local dirigindo-se para o local onde se encontravam os carros parados na estrada;

Que durante o trajeto pela vereda várias pessoas corriam ora para o local onde Delmo estava, ora em sentido contrário e em dado momento ouviu uma voz dizer que haviam morto o Delmo;

Que surpreso com esta notícia o depoente voltou ao local e então viu Delmo debruçado, caído no chão, e que também estava no local o chofer Helvídio;

Que o depoente aproximou-se de Delmo e pegou o pulso dele e Helvídio então perguntou-lhe se ele estava morto e o depoente respondeu “mataram o homem!”;

Que depois disso Helvídio segurou o cadáver de Delmo e o virou, deixando-o com o peito para frente e as costas para o chão;

Que nessa ocasião o peito de Delmo ainda não se encontrava aberto;

Que Delmo já se encontrava sem camisa;

Que o depoente voltou para o local onde se encontravam os carros e que teve um pressentimento de que aquilo traria consequências desastrosas, pois tinha sido uma barbaridade o que fizeram com o Delmo;

Que nessa ocasião o depoente até chorou;

Que voltou para a cidade no carro de Manoel Cruz, guiado pelo chofer Silas;

Que ao chegarem nas imediações dos Bilhares foram presos pelo chefe de Polícia e conduzidos ao Quartel da Polícia Militar;

Que de vez em quando o policial Bastos ia buscar dois ou três choferes para conduzi-los à Chefia de Polícia e que o depoente foi conduzido a essa repartição pelo policial Raimundinho;

Que na Polícia Civil o investigador Bastos com o cassetete na mão dirigiu-se ao depoente e aí ele disse que tinha chegado a oportunidade de vingança e que Cesário ia lhe pagar o velho e o novo, pois há seis anos que aguardava essa ocasião;

Que o policial Bastos ainda intimidou o depoente e quis obrigá-lo que confessasse ser um dos autores da morte de Delmo, porém o depoente só contou a verdade do que aconteceu como está fazendo agora;

Que nessa mesma ocasião o policial também dirigiu-se ao chofer João Borges ameaçando de pancadas e depois conduziu este chofer ao xadrez não sabendo o depoente o que aconteceu depois com João Borges;

Que foi essa a participação do depoente nos fatos do dia 5 de fevereiro do ano corrente.

Do que para constar lavrei este termo, que lido e achado conforme vai rubricado por mim escrivão e assinado pelo juiz e pelo acusado.

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