O carneiro mestiço do Carlos Paulain

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Setembro de 2001. Disposto a enfrentar novos desafios, o compositor Carlos Paulain conseguiu descolar um empréstimo na Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam) e comprou duas dezenas de carneiros Santa Inês, que passou a criar em um sítio, na zona rural de Parintins.

A raça de ovinos Santa Inês tem origem na década de 50, quando o animal era chamado de Pelo-de-boi. Originário do Nordeste brasileiro, o Santa Inês é resultado do cruzamento das raças Bergamácia, Morada Nova e Somalis. Trata-se de um animal deslanado, com pelos curtos, grande porte, boa qualidade de carne e baixo teor de gordura, adaptável a qualquer sistema de criação e de pastagem.

Para identificar um autêntico Santa Inês não tem mistério: todos eles têm corpos grandes, pernas compridas, orelhas pendulares e longas, e não apresentam chifres. A pelagem pode ser branca, malhada, castanha ou preta.

Quando souberam da novidade, os participantes da Confraria do Vivaldo procuraram o compositor com o intuito de ganhar um carneiro de presente. Paulain desconversou:

– Olha, gente, esses carneiros são muito caros. Pra vocês terem uma ideia, o carneiro FC1113, do paraibano Pompeu Borba, considerado o melhor selecionador de Santa Inês da atualidade, está avaliado em R$ 816 mil.

O pessoal da Confraria ficou indignado.

Alguns meses depois, entretanto, nasceu um carneiro esquisitão, peludo, com uma lã extraordinariamente uniforme, como se fosse um autêntico Merino nordestino.

Provavelmente uma das ovelhas havia pulado a cerca e sido emprenhada por um dos carneiros pebas criados pelos vizinhos de Paulain.

Para não contaminar o plantel, Paulain resolveu doar o “mestiço” à Confraria antes que ele ficasse adulto e começasse a passar o rodo nas ovelhas Santa Inês. Foi uma festa.

Seis meses depois, o carneiro esquisitão estava um parrudo, com um par de chifres de assustar zebu. O empresário Jander Souza deu logo a dica:

– Vamos capar! Aí, assim que ele engordar mais um pouco a gente faz um festival de comida nordestina no Bar do Vivaldo.

O animal foi levado à casa do gente-fina Mazão Viana, que providenciou a cirurgia.

Uma semana depois, Paulain e Jander voltaram ao sítio e perceberam que o “mestiço” estava afastado do resto do plantel, meio ressabiado, meio triste, olhando para as demais ovelhas com um ar de resignação.

Desconfiados de que alguma coisa muito grave estava acontecendo, os dois foram em busca de auxílio com o “veterinário” Mazão Viana.

Mazão examinou o animal:

– Carlinhos, mano, eu não sei o que aconteceu… A cirurgia já cicatrizou… Agora, que ele está estranho, ele está…

– Eu estou achando ele muito deprimido!… – avisou Jander.

– Não é pra menos, parente… Olha, mano, se também tirassem os meus colhões, eu juro que me matava… Continuar vivo pra que?… – filosofou Mazão.

O “mestiço” foi pra panela no mesmo dia.

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