O caos nosso de cada dia

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Da direita pra esquerda: Redi, Millôr, Rubem Braga, Chico Caruso, Ivan Pinheiro Machado, Luiz Gravatá e Antonio Poteiro

Por Geraldo Carneiro

Sempre quis saber se há ordem no mundo, ou se estamos condenados ao caos.

Meu escritório, por exemplo, era todo organizado, pelo menos aos meus olhos. Até que apareceu um simpático faxineiro chamado André, que não percebeu que havia uma ordem oculta naquela bagunça. Graças à criatividade dele, a Ilíada foi morar ao lado de “Os Sertões”. Vinicius de Moraes virou vizinho de uma antologia de nus artísticos, o que não lhe desagradaria. Os Sermões do Padre Antonio Vieira foram morar ao lado de Nelson Rodrigues.

Agora meus livros se assemelham a uma minúscula Biblioteca de Alexandria — depois das catástrofes.

Mantiveram-se a salvo os dois livrões que sustentam o monitor diante de mim. O primeiro é a “História do Brasil”, de Pedro Calmon, que veio parar aqui quando escrevi um roteiro sobre a Independência da Bahia, cujos episódios humorísticos não revelo para não desagradar a gregos e baianos. O outro é uma coletânea de crônicas de Rubem Braga, que ganhei do autor das ilustrações, Millôr Fernandes.

O curioso é que o Millôr tinha escritório a poucos metros da Praça General Osório, em Ipanema, e Rubem morava do outro lado da praça, numa cobertura onde havia um jardim suspenso mais famoso do que o de Nabucodonosor. Os dois costumavam trocar saudações de um edifício ao outro.

Fui inúmeras vezes ao apartamento do Millôr, para trabalhar e, sobretudo, para bater papo. Infelizmente, jamais fui à cobertura de Rubem. Conheço-a apenas por fotografias e por descrição do próprio Millôr, que considerava Rubem o maior cronista do Brasil.

Nas poucas vezes em que estive com Rubem, em bares ou em casa de amigos, ele jamais demonstrou interesse em conversar com aquele fedelho que era eu. Se convocado pelas pessoas a dialogar, respondia com grunhidos pouco inteligíveis. Só o via manifestar interesse dialogal com as criaturas do sexo feminino. Questão de gênero, talvez.

Em 1983 fui chamado a escrever uma pequena biografia de Vinicius. Nela escrevi uma cena imaginária, na qual Rubem, quando convidado a falar, dizia apenas: “Argh!” “Grunf!”

Entreguei o livro à editora, e me esqueci do assunto. Acontece que, antes da publicação, encontrei Rubem no bar da moda, o Florentino. E, para minha surpresa, ele entabulou comigo uma conversação amável. Que fazer? Pensei em telefonar para o editor, pedindo para mudar o capítulo em que Rubem grunhia. Tarde demais.

Fui reencontrá-lo alguns anos depois, numa festa de aniversário do Millôr. Rubem estava cheio de problemas de funcionamento. Caminhava e escutava mal. Reclamava de falas demasiado baixas, ou demasiado altas. A certa altura, fiz menção de me desculpar pelos grunhidos no livro do Vinicius. O Rubem se antecipou, esboçou um sorriso e disse alguma coisa como: “Deixa pra lá.”

Agradeço ao André, meu faxineiro, por manter Millôr e Rubem no mesmo lugar, amparando o computador, em meio ao caos do mundo. Pode ser um sinal de que ainda exista ordem no universo.

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