O Bruce Lee de Parintins

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No dia 20 de outubro de 2001 foi inaugurada oficialmente, em Manaus, a Amazon Koutakukai, uma entidade destinada a relembrar os pioneiros japoneses que chegaram ao Estado para participar de um projeto de imigração. A primeira turma chegou à região em 21 de junho de 1931, se estabelecendo na Vila Amazônia, em Parintins.

A criação da entidade foi uma forma de celebrar o aniversário dos 70 anos de chegada desses primeiros japoneses – chamados de koutakusseis, que eram em sua maioria técnicos e vieram acompanhados de suas famílias. Os koutakusseis desenvolveram pesquisas para introduzir novas culturas agrícolas que melhor estivessem adaptadas à região amazônica, o que possibilitou, por exemplo, a exploração comercial da juta.

Nos anos 90, vários descendentes de japoneses que moravam em Parintins começaram a fazer o caminho de volta e foram trabalhar no Japão, onde ficaram conhecidos como dekasseguis. O empresário da noite Evandro Hara, mais conhecido como “Sarita”, foi um deles. Depois de alguns anos, Sarita retornou e investiu suas economias na cidade. Entre outros empreendimentos, ele foi dono da boate Ludicu’s, a mais badalada do baixo Amazonas.

Funcionário de uma serraria clandestina, no alto Mamuru, Zé Cunha um dia fez as malas e se despediu dos amigos, avisando que também iria tentar a vida na Terra do Sol Nascente. Ficou sumido um ano, trabalhando na construção civil, em Manaus, e depois retornou para a comunidade tecendo loas à vida maravilhosa que curtiu no Japão. A mulherada ficou alucinada. A macharada, cabreiríssima.

Entre outras lambanças, Zé Cunha contava que havia passado seis meses em um templo Shaolin de Kung Fu, tornando-se mestre em artes marciais. Pra quem duvidava, ele dava um grito assustador e fazia aquelas poses clássicas da luta, que foram aprendidas, provavelmente, em centenas de noites em claro, assistindo antigos filmes do Bruce Lee, via “Corujão da Madrugada”, nos canteiros de obra de Manaus.

Um dia, durante uma festa na comunidade do Mamuru, Zé Cunha, numa roda de mulheres e adolescentes curiosos, começou a se exibir. Com uma perna e um punho alongado, ele começava a mexer os dedos, dava um grito e adotava uma postura rígida.

– Voo da garça no delta do rio Amarelo! – explicava.

Aí, fazia aquela saudação nipônica tradicional – mãos em prece, pernas juntas e rígidas, tronco curvado duas vezes, em direção ao chão, repetição da operação nos quatros pontos cardeais – e só então relaxava. As mulheres ficavam excitadíssimas.

Daqui a pouco, Zé Cunha dava um novo grito, levantava e arqueava uma das pernas como uma ave pernalta, estendia um dos braços e encolhia o outro, com ambos os dedos em forma de garra, e ficava imóvel.

– Garras do tigre no bambuzal da Indochina! – explicava.

Assistindo tudo e cada vez mais mordido com a presepada do conterrâneo, Zeferino, a uns três metros de distância, enchia a moringa de cachaça.

Zé Cunha não estava nem aí e continuava fazendo seu show particular:

– Serpente alada na caverna de Nankim!

– Dragão faminto no templo de Hokkaido!

– Louva-deus na flor de cerejeira na estação das flores!

– Dança com lobos (sim, ele tinha visto o filme do Kevin Costner.) no inverno norte-americano!

De repente, Zeferino deu um grito:

– Cadeira da Brahma no chifre de um cabra leso e abestado!

E desmontou, com violência, uma cadeira de ferro no meio da cabeça do professor de artes marciais, que caiu desmaiado.

Zé Cunha teve de ser carregado pra casa. Nunca mais se meteu a besta na frente de Zeferino.

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