O bandido da Lamborghini vermelha

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Por Edney Silvestre, de Nova York

Bandido, aqui, tem cara de mocinho. O estrangulador do Central Park é a cara do Tom Cruise (se bem que uns vinte centímetros mais alto); o esquartejador de adolescentes é um louco com jeito de Wiliam Hurt; a Lolita-que-meteu-uma-bala-na-cabeça-da-mulher-de-seu-amante-coroa parece uma mistura de Jodie Foster com Fernanda Torres; o velhaco que raptava menininhas é um sósia de Gregory Peck e por aí vai.Já me acostumava a ver as gatas e os galãs algemados nos noticiários policiais e nem me espanto. Mas Dona Dolores Rodriguez, por desconhecer esta peculiar inversão ianque das teorias lombrosianas, virou protagonista de um real história de terror. Dolores é nome falso, mas a história é verídica, e aconteceu assim:

A filha que já morava aqui trouxe Dona Dolores dos cafundós de El Salvador – onde ela sequer ouvira falar da existência de cinema, quanto mais de televisão – para Chappaqua, uma cidadezica próxima a Nova York. Dona Dolores não sabe ler nem falar em inglês. Ainda assim, a filha lhe arranjou uns trabalhos de faxineira (dez dólares por hora, se lhe interessa saber) e a levava e apanhava na casa dos padrões, todos morando em meio a bosques, isolados dos longínquos vizinhos. Foi na propriedade de um deles que tudo se passou.

Tendo que ir a Manhattan de uma hora para outra e ignorando que sua faxineira não sabia ler, Mrs. Bryant mostrou a Dona Dolores uma alarmante notícia no jornal local. Um velhaco bem-apessoado, alegando urgência em usar o telefone, já assaltara três casas na região, depois de dominar a atar suas vítimas.

– No abrir puerta – Mrs. Bryant explicou em seu espanhol de high-school – y no delar también usar el telefone.

Menos de meia hora após a partida de Mrs. Bryant, Dona Dolores ouviu um barulho de automóvel no pátio da frente. Chegando à janela, viu um homem grisalho, com ar distinto, saltando de um carro esporte vermelho e se encaminhando para a porta. Soou a campainha. De dentro, ela avisou: “No speak English!”

O distinto homem grisalho chegou-se à janela. Ela reparou que ele era não apenas extremamente bonito como tinha olhos excepcionalmente azuis e um sorriso cativante. Dirigindo-se a ela num espanhol razoável, explicou que estava com problemas no carro e necessitava telefonar para que o rebocassem. Dona Dolores lembrou-se da recomendação, mas aquele homem encantador e bem-educado era evidentemente um gran señor. Em tênue concessão à prudência, disse-lhe que desse a volta e usasse o telefone da cozinha.

Enquanto ele dava a volta na casa, Dona Dolores correu até lá, destrancou a porta que dava para fora e, em seguida, trancou a porta de vidro que ligava a cozinha ao resto da casa – numa segunda concessão à prudência, mas que temeu parecer grosseria – e ficou observando enquanto ele discava e falava.

Foi então que seus olhos bateram no jornal, aberto em cima do sofá. E ela viu a foto. Era do homem que estava na cozinha! O mesmo belo rosto viril, os mesmos cabelos grisalhos, o mesmo sorriso cativante, os mesmo olhos claros. Aquele gran señor era justamente, segundo ela entendera, o perigoso assassino de donas de casa e faxineiras de Chappaqua.

Gritar por socorro era inútil, pois os vizinhos não ouviriam. Chamar a polícia, mesmo que o telefone estivesse desocupado, tarde demais. Apavorada, pensou em fugir para a estrada. Mas lembrou-se de que o roubo seria responsabilidade dela, talvez até a vissem como cúmplice. Iria desgraçar a vida de sua filha, seu genro, as três netas. Resolveu: quem já atravessou tanto tiroteio no país natal é capaz de enfrentar um bandido ianque.

Após uma breve prece à Virgem Del Pilar, entrou na cozinha fazendo ar distraído. Pegando um facão dentro da gaveta, gritou “Ayúdame, Diós! E avançou para o homem.

Surpreendido a apavorado por aquele ataque súbito, ele deixou cair o telefone e tentou balbuciar alguma coisa, enquanto, com o facão espetando sua barriga, viu-se empurrando pela brava salvadorenha até um armário de pouco mais de um metro de altura, para dentro do qual ela o jogou e, em seguida, trancou. Enquanto ele gritava em seu interior, Dona Dolores empilhou outros móveis, panelas e objetos diversos contra a porta. Só quando teve certeza de que não escaparia é que ligou para sua filha. Esta chamou a polícia.

A polícia, Mrs. Bryant, a filha de Dona Dolores e o mecânico da Lamborghini vermelha de Paul Newman chegaram todos ao mesmo tempo. Ainda lívido, o ator foi retirado do armário enquanto Dona Dolores mostrava sua foto – anunciando os horários do filme Mr. And Mrs. Bridge no cinema local.

Por mais que Mrs. Bryant insistisse, ele se recusou a autografá-la.

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