O badalado La Fiorentina

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Por Luiz Carlos Miele

Desde 1957. É o que diz o cardápio. Cheguei ao Rio de Janeiro em 1957 e fui parar na inauguração da TV Continental, lá nas Laranjeiras. Viemos todos de São Paulo. Câmeras, cenógrafos, diretores de TV, produtores, toda a equipe técnica e artística, enfim.

A Continental não tinha nem elenco, nem pessoal técnico. Infelizmente, também não tinha como pagar os nossos salários, de modo que ficamos um bom tempo ilhados entre Laranjeiras e Catete, dependendo das possibilidades de um garçom que bancava os nossos penduras no também antológico Lamas, onde também, às vezes, juntávamos os trocados paulistas para apostar no taco de José Miziara, exímio na sinuca. Se ele ganhasse, todo mundo comia.

Demorei, portanto, algum tempo para descobrir o Rio de Janeiro que “eu sempre hei de amar”, como disseram Tom e Billy Blanco. Descobrir a Bossa Nova, o Beco das Garrafas, o Cinema Novo, Ipanema, o Jangadeiros e, naturalmente, a Fiorentina.

Fui chegando timidamente, curtindo a dureza daqueles primeiros momentos, sem direito à companhia dos titulares ilustres, como Edu da Gaita, Mario Lago, José Lewgoy, Ziraldo e todos aqueles eternizados no mural das caricaturas.

Vivi o anonimato dos que não tinham o nome nas colunas. Até que um dia o maître colocou a pilot na minha mão:

“Assina aqui, Miele.”

Pronto. Eu havia chegado definitivamente ao Rio de Janeiro.

Cada um de nós tem com certeza uma história marcada numa das mesas que passaram a fazer parte das nossas vidas. Eu me lembro particularmente de uma noite em que eu e Luiz Carlos Vinhas voltávamos de um show onde o sucesso foi geral. No show, no uísque, com as garotas, tudo certo. Tão certo que o Luiz Carlos estava completamente coberto de manchas de batom.

Três coisas não combinam com manchas de batom: Summer branco, camisa a rigor e esposa da gente.

“Vinhas, como é que você vai chegar em casa assim todo sujo de batom?”

Sem perder o charme, Luiz Carlos encomendou um maravilhoso spaghetti al sugo.

Comemos a massa e o sugo ele derramou tranquilamente sobre a camisa, tronco e membros. De acordo com meus sábios conselhos, esperou esfriar, é claro.

Isso foi há muito tempo. Estou voltando agora sempre que posso. Trazendo sempre que possível os artistas de fora para que possam conhecer a tradição do teatro, da revista e da TV carioca, que dividem conosco a noite, naquelas paredes.

Recentemente, já não tendo que juntar os trocados dos vales da TV para poder pedir um bife de carne de baleia (alguém se lembra?), fui o mestre de cerimônias da noite que homenageou Anselmo Duarte, uma das lendas da casa. Muita gente da turma antiga pelas mesas e calçadas.

Muitos, só nas paredes, é claro.

E muita gente nova chegando. Para esses, fiquei com vontade de fazer um discurso. Como um político da antiga, daqueles que tinham a ilusão de conquistar nossas vedetes – que, na verdade, reservavam para nós, da classe, seus momentos mais verdadeiros.

E discursei:

– Seja o que for que você pretenda comer, quero, como um político, anunciar as palavras enganosas que antecedem cada discurso: ‘vou dizer apenas duas palavras’. Mas eu quero MESMO dizer apenas duas palavras: bom apetite.

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