O assunto hoje é pessimismo

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Por Millôr Fernandes

Primeiro, porque está na ordem do dia, que é obedecer. Segundo, porque sou muito otimista quando se trata de abordar este assunto. O pessimismo, crianças, não foi criado em sete dias. Aquilo que foi criado em sete dias apenas deu origem ao pessimismo.

Deixando de lado o simbolismo franco-maçônico, o que eu acho é que o pessimismo desceu das árvores junto com o primeiro primata, que já não estava muito certo de nada. De lá pra cá, o pessimismo evoluiu na direção oposta do homem sem, entretanto, dormirem em quartos separados.

Não há muitas variações em torno do tema, daí os pessimistas serem todos iguais. Mas se você conversar com um pessimista, vai conhecer espécie, gênero, número, grau, ordem, família, classe, essas coisas de catálogo. Acabará, inclusive, descobrindo o pessimista que está adormecido em você, esperando as coisas piorarem. Pelo noticiário nacional, esse cochilo não vai longe. Aí você será um entre os bons. Daqueles que até acham que o pessimismo não resolve nada. Não é o cúmulo?

De um modo geral, todos nós assumimos conscientemente o pessimismo e sabemos dos compromissos para a Realidade e a Verdade: tirar a fantasia da primeira e deixar a segunda nua e crua, ambas em posições assustadoras.

O pessimismo, a meu ver, não pode ser nunca uma causa pessoal. Não. O pessimismo é uma forma de prestar serviços e favores aos nossos contemporâneos. Mostrar que está tudo azul como breu. Comentar que dinheiro não é tudo, tudo é muito dinheiro. Avisar que a Morte está logo ali, depois do último suspiro. Insistir que tudo na vida tem limites, a começar pelo cheque especial. Explicar que ser pobre não é crime, mas ajuda muito a chegar lá. Ou seja, a função do pessimista é desafinar o coro dos contentes.

E o pessimista que usar os seus dotes e seus privilégios de negativista para o gozo pessoal e particular ou com fins lucrativos, merece cadeia. Com um carcereiro otimista tomando conta do pavilhão. Porque se é crime manipular a esperança popular, como fazem os políticos, idêntico crime é a omissão e a vantagem financeira sobre a inocência do povo. Nós temos o dever de alarmar as pessoas, sobretudo quando não houver motivo.

Há pessimismo de todos os tamanhos. Eu, por exemplo, tenho um de 1,75 m. Não dá exatamente ideia da quantidade de azedume que me cabe. Mas dá pra viver prevenido. Outras pessoas têm pequenas doses de pessimismo camufladas e agem como camaleões do amargo. Quando a coisa tá preta, lá vão elas de ébano, num mimetismo realista. Os exemplos variam, o pessimismo, não.

As consequências do pessimismo eu não sei. Só sei que incomodam bem menos do que as de outra crença qualquer. É mais fácil viver com o pessimismo do que com os números da nossa renda per capita, o número de miseráveis que se alimentam de bosta de rato nas favelas, os resultados dos testes de anticoncepcional junto aos pobres e centenas de coisas que eu, infelizmente, já sei de cor.

E não confundam o pessimismo com lamúria, azia, sapato apertado, ressaca, desavença conjugal, insegurança, vidência, dor de corno ou raiva da situação.

O pessimismo não é viver se queixando da vida, ter problemas digestivos, litígios amorosos, frequentar academias de ginástica, andar com medo da aids, estudar parapsicologia ou espumar de ódio ao  ouvir a palavra governo.

Nada disso. O pessimismo é um recurso para quem encara o futuro de frente continuar encarando. E uma muleta para todo aquele que tem uma fé inabalável no ser humano. No ser humano de Neanderthal, bem entendido.

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