O amor é outra coisa, Edson Aran também

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Adriane Galisteu

O escritor Marcel Proust gostava de jogar uma brincadeira de salão chamada “Confissões”, onde os participantes respondiam perguntas pessoais. Em sua homenagem, hoje o jogo ficou conhecido como “Questionário Proust”. Querendo entender que outra coisa é essa que chamam de amor, a Bula fez uma sabatina das mais amorosas com o bedel do cupido, o jornalista, cartunista e escritor Edson Aran.

Nascido Edson Arantes, perdeu o “tes” em sua circuncisão, assim como Henfil e Angeli. Crescido, trabalhou na “Revista Set — Cinema e Vídeo”, que ajudou a formar toda uma geração de cinéfilos brasileiros, e na “Contigo”, que ajudou a alimentar os papos furados sobre celebridades em milhares de salões de beleza por esse Brasil sem fim. O próximo passo foi incluir uma lenda no currículo e foi parar no célebre jornal “O Pasquim”. Depois, farto de ver jornalistas correndo nus pela redação, foi ser editor da revista “Playboy” Brasil, somente para ver modelos, atrizes, garotas de vida alegre em geral e jornalistas correndo nus pela redação.

Quando cansou de ser sexy e resolveu ser cult, criou o meme “O Amor é Outra Coisa”, um imenso fenômeno no Twitter, que virou livro. Ah, livros ele escreveu aos montes: “Aqui jaz — O Livro dos Epitáfios”, “A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos”, “Conspirações — Tudo o Que Não Querem Que Você Saiba” e “O Imbecilismo — e Outros Textos de Humor” são só alguns exemplos para transformar sua estante numa zorra total. Aliás, Edson Aran é um dos redatores da revitalização do programa “Zorra Total”, da Rede Globo, com a missão de afastar o humorístico da “Praça é Nossa” e aproximá-lo da “TV Pirata”. Tem conseguido.Amou o currículo do cara? Não, isso é inveja, o amor é outra coisa.

Onde começa sua genealogia?

Na distante ilha de Aran, na costa da Irlanda, onde Haran 1º, o Cruel, juntou suas mulheres, seus cachorros, seus trovadores e seus paleteros mexicanos e partiu rumo à mítica terra de Hy-Brazil. A família vive lá desde então.

Dez anos a 1000 ou 1000 anos a dez?

Até agora foi na base de dez anos a 1000, mas nos próximos 100 anos, a ideia é os 1000 anos a dez e relaxar. Vamos ver se eu consigo…

Mulher-fruta se planta, se come ou se chupa?

Mulher-fruta é uma dádiva da natureza para os homens de boa vontade. Os de má vontade não apreciam a fruta.

Qual desses três não existe na redação da Playboy: loira inteligente, machismo ou teste do sofá?

Teste do sofá, infelizmente. Nem sofá tinha na redação. Machismo não é o caso. Playboy colaborou imensamente com a liberação da mulher, possibilitando que ela se liberasse e tirasse a roupa sem as restrições morais impostas pela sociedade carola, preconceituosa, careta, reacionária, direitista, boba e feia. Loiras inteligentes conhecem a história. Morenas também.

A “Melancia” precisou de dois sofás?

Precisou de umas cinco revistas diferentes, se bem me lembro.

Qual Playboy vale mais: a da Xuxa, que existe no submundo, ou a da Luana Piovani, que só existe no mundo das ideias?

Depois da invenção das montagens digitais toscas, não existe mais nudez ou pornografia platônica que permaneça apenas no mundo das ideias. O que, aliás, é o grande problema das revi… ok, chega. Já perdi muito tempo da minha vida pensando sobre isso.

Quais mulheres (ou homens) você levaria para uma ilha deserta?

Levaria a CaitlynJenner para poupar bagagem. E a Scarlett Johansson para discutir o sentido da vida.

O que a CamillePaglia tem que as outras feministas não tem?

A principal diferença entre ela e as feministas “oficiais”, as feministas do establishment, as feministas condecoradas, as feministas que falam na TV, é que dona Paglia sabe quem foi Jean-Jacques Rosseau e porque o cara deve ser considerado uma besta. Nós estamos todos vivendo num mundo construído por ele e a maioria de nós nem sabe quem ele é. Jean-Jacques Rosseau é o inventor do chorume e do mimimi. As feministas que o establishment promove são todas filhas do mimimi.

O que a Márcia Tiburi responderia se fosse convidada para posar para Playboy (se é que já não foi)?

Ela foi, claro. Quer dizer, mandei o convite por meio de uma amiga comum. Ela nunca respondeu, a ingrata.

Qual Playboy foi mais inteligente: da Carla Perez ou da Fernanda Young?

São coisas diferentes. Fernanda Young foi convidada porque é gostosa e Carla Perez pela relevância cultural. Na época da Carla, eu não estava na Playboy, mas fizemos três boas capas com ela na Vip. Na minha encarnação anterior como editor de Playboy, sempre tive a convicção de que a publicação precisava ser discutida, virar tema de conversa, ser debatida, ser amada ou odiada, mas ser comentada. Num mundo entupido de irrelevâncias, uma revista não pode ir pra banca apenas com a gostosa do momen… ok, chega. Já perdi muito tempo da minha vida pensando nisso.

Quais peitinhos os pedreiros preferem: os da Playboy ou das ativistas do Femen?

Os peitinhos disponíveis no Google Imagens. Mas a culpa é do Femen e da Playboy. Consumidor consome o que é mais fácil, mais acessível, mais barato ou melhor. O Femen e a Playboy é que têm de provar que são mais excitantes que os peitinhos free disponíveis no Google.

Você já roubou uma Contigo velha da sala de espera do dentista?

Nunca. Acho que existe uma conspiração dos editores para sacanear os dentistas: as revistas deles sempre chegam velhas e amassadas.

Qual dessas três coisas não existia na redação do Pasquim: abstêmio, X9 ou corno?

Sei lá. Eu não tinha nascido nessa época.

O que é pior do que música sertaneja?

Um festival de música sertaneja.

Cangaceiro bom é cangaceiro morto-vivo?

Este meu livro, “A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos”, é o melhor roteiro de comédia de ação jamais filmado. Por enquanto. Por enquanto.

Hoje em dia, quem joga mais futebol: Edson Aran ou Edson Arantes do Nascimento?

Ainda acho que meu primo, o glorioso Edson Arantes do Nascimento, bate o maior bolão, entende? O problema é entender que existem dois deles, entende? Tem o Edson e o Pelé, entende?

Se pudesse voltar à vida como outra pessoa, quem seria?

Acho que toparia ser estagiário na “New Yorker” do Harold Ross.

O imbecilismo deveria ser o esporte de exibição brasileiro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016?

O imbecilismo não é uma prática esportiva, mas sim o nosso mais longevo movimento artístico-cultural. Começou em 1500 e se mantém no topo desde então, nos mais diversos campos.

Os praticantes do imbecilismo deveriam formar um partido político, uma ONG ou uma sociedade secreta?

Não é preciso. ONG, partido ou sociedade secreta são criados para se chegar ao poder. O imbecilismo sempre esteve no poder.

Quem é o maior chato da literatura brasileira?

Raul Pompéia.

E o gênio?

Millôr Fernandes.

Se tivesse que escolher, com quem dividiria um quarto: Marilena Chaui ou Olavo de Carvalho?

Márcia Tiburi.

Dilma é Dom Quixote ou Sancho Pança?

Dom Quixote é um sonhador que vê gigantes terríveis onde só existem moinhos de vento. Sancho Pança é o cara que dá a real pro Quixote e avisa que os moinhos são objetos insignificantes. Dilma é o moinho de vento.

Se fosse obrigado a ouvir em loop infinito, qual escolheria: Chico Buarque ou Banda Calypso?

Calypso, claro. Nem se discute.

Qual conspiração é verdade, mas ninguém acredita?

Tem uma. Talvez todo o fenômeno UFO tenha sido fabricado pela Inteligência americana durante a Guerra Fria para desviar a atenção dos testes de aeronaves espiãs. Mas também é possível que essa teoria seja uma manobra de desinformação para esconder o pacto secreto verdadeiro que os americanos têm com os alienígenas.

Qual conspiração é mentira, mas ninguém acredita?

A mídia tem uma agenda comum e a pauta do dia é discutida toda manhã pelos principais donos de jornais, revistas e TV do país. Na real, é uma bagunça. Os repórteres, editores, diretores, enfim, os provedores de conteúdo da chamada mídia tradicional trabalham com muito mais liberdade do que as pessoas acreditam. Uma liberdade que, infelizmente, nem sempre é acompanhada por uma conduta ética, daí o problema. Quer dizer, as pessoas estão certas quando escrevem no Facebook que “a culpa é da mídia”. É sim! Mas não pelas razões que elas imaginam.

Qual a sua ideia de felicidade perfeita?

Música boa, comida boa, livros bons, internet por fibra ótica, clima de montanha. E leitores pros meus livros. Um monte deles. Isso seria bacana.

Quais são os seus heróis na vida real?

Um caralhal de gente! Vamos com os nomes que vêm mais fácil à cabeça: Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Woody Allen, Monty Python, Angeli, os Cassetas, P.J. O’Rourke, Jon Ronson, Jules Feiffer, Jon Stewart… olha, são muitos. Muitos, muitos.

Como gostaria de morrer?

Beeeem velho.

Seu epitáfio vai vir lacrado em plástico e ser proibido para menores?

Já está escrito: “Agora sim, espirituoso”.

(publicado originalmente na Revista Bula)

Por Ademir Luiz

 

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