O amigo seca-pimenteira do poeta Marcos Gomes

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Um dos mais respeitados agentes da Polícia Federal lotados em Manaus, Asdrúbal Pedrosa de Oliveira era temido, principalmente, pelo seu olhar 43 estilo “seca-pimenteira”. Bastava ele se engraçar de alguma coisa, para o objeto de sua adoração se destruir sozinho em poucas horas.

Certa feita, ele passou na casa da dona Terezinha, mãe do poeta Marco Gomes, para dois dedos de prosa e foi brindado com um excelente suco natural de cupuaçu. Pedrosa não resistiu:

– Ô, Terezinha, onde foi que você conseguiu um cupuaçu dessa qualidade?

– Eu tenho um pé aí atrás de casa, que está carregado e florido que é uma beleza! – explicou ela.

Pedrosa foi olhar o pé de cupuaçu.

– Realmente, esse pé está uma maravilha! Vai dar uma tonelada de cupuaçu… – avisou.

No dia seguinte, dona Terezinha telefonou para o poeta Marco Gomes, visivelmente injuriada:

– Vem ver o que aquele desgraçado do Pedrosa fez com o meu pé de cupuaçu!

Marco Gomes foi lá conferir a encrenca. O outrora pujante pé de cupuaçu estava quase calcinado de tão seco. Morreu dois dias depois.

Outra vez, um perito criminal, companheiro de trabalho do Pedrosa, foi mostrar-lhe seu recém-adquirido jipe Gurgel Carajás branco perolizado.

– Realmente, esse teu jipe está uma beleza! Vai chover boceta na tua horta…– avisou.

Na mesma noite, o jipe sofreu uma combustão espontânea dentro da garagem do dono e se transformou em ferro velho.

Incomodado com a fama de “seca-pimenteira” do amigo, o também agente da Polícia Federal Carlos Frederico resolveu levar Pedrosa para uma consulta com o pai de santo Joãozinho de Ogum, respeitado como um dos melhores videntes da Cachoeirinha. O terreiro do pai de santo ficava nas proximidades da Padaria Santo Antônio, na Rua Borba.

Carlos Frederico deixou Pedrosa esperando na ante-sala e foi conversar com o vidente:

– Pai Joãozinho, eu trouxe um amigo que está com alguns problemas e gostaria que você desse uma olhadinha nele…

– Meu filho, eu senti a presença deste homem aqui no meu congá antes mesmo de vocês chegarem aí na porta e fiquei todo arrepiado! – avisou o pai de santo, nervosíssimo. – Pelo amor de Deus, leve esse homem embora daqui agora mesmo!

Os dois foram embora. O pai de santo morreu três dias depois de causas desconhecidas.

Com todas essas presepadas no currículo, era natural que Pedrosa fosse bastante assediado pelos amigos para cobrar dívidas de caloteiros renitentes. E ele não se fazia de rogado.

Eterno síndico do edifício Palácio do Comércio, o saudoso empresário Alvimar de Souza Arantes chamou o poeta Marco Gomes e cantou a pedra:

– Marquinho, meu filho, um vigário deu um cheque sem fundos no valor de R$ 10 mil para a nossa querida Maçonaria e eu queria que você e o Pedrosa fossem lá reaver essa dívida. Nós vamos pagar pra vocês 10% do valor da dívida recebida a título de comissão!

Marco Gomes colocou o cheque no bolso, telefonou para Pedrosa, se encontraram no térreo do Palácio do Comércio, conferiram o endereço do dono do cheque e os dois foram juntos cobrar a dívida. Acabaram diante de uma casa antiga, de dois andares, carcomida pelo tempo, quase em vias de demolição, nas proximidades do restaurante Calçada do Rogério. Uma placa desbotada indicava que ali funcionava a “Federação Espírita de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros”. Marco Gomes começou a bater violentamente na detonada porta de madeira, com uma espécie de argola de ferro que devia fazer às vezes de campainha. Silêncio.

Marco Gomes começou a bater palmas e gritar:

– Ô de casa! Ô de casa! Tem alguém ai? Ô de casa! Ô de casa! Tem alguém aí?

Silêncio.

Pedrosa apertou os cadarços do coturno, afastou Marco Gomes do seu raio de ação e começou a dar uns coices violentos na porta de madeira, quase arrebentando a mesma, enquanto gritava a plenos pulmões:

– Aqui é a Polícia Federal! Abram a merda dessa porta ou eu vou derrubar esse caralho com uma rajada de metralhadora!

Silêncio.

De repente, os dois ouviram alguns passos se aproximando lentamente da porta e, logo em seguida, uma voz trêmula, vinda do interior da casa:

– Hoje nós não vamos abrir pra fazer consultas. Voltem outro dia!

– Ninguém veio aqui pra se consultar não, meu caralho! – berrou Pedrosa. – Nós viemos resolver o problema de um cheque sem fundos que vocês passaram para uns amigos nossos!

– Cheque sem fundos? – espantou-se a voz trêmula.

Aí, o sujeito abriu uma espécie de portinhola no meio da porta de madeira, semelhante àquelas aberturas existentes para caixas de correspondências, e pediu pra ver o cheque. Marco Gomes enfiou o cheque na abertura. Depois de alguns minutos, a voz trêmula voltou a falar.

– É, esse cheque é meu! Não sei como ele foi parar nas mãos de vocês porque fiz ele apenas para garantir a caução de uma dívida do nosso secretário geral. Ele ficou de me devolver o cheque depois que resolvesse o problema…

– O senhor fica com o seu cheque e apenas nos devolve o dinheiro! – explicou Marco Gomes.

– Mas hoje estou desprevenido, só posso dar a metade… – gaguejou a voz trêmula.

– Por mim, tudo bem! – avisou Marco Gomes. – O senhor nos paga a metade agora e nos avisa quando vai estar com a outra metade, que a gente passa de novo aqui pra receber!

– Tudo bem porra nenhuma, Marco Gomes! Tudo bem porra nenhuma! – atalhou Pedrosa, colocando a boca na pequena abertura da porta. – Meu amigo, o negócio é o seguinte: nós vamos lhe dar três dias para arrumar o dinheiro todo, que nós não somos lesos de só levar um pedaço da grana! Hoje é terça-feira. Na sexta-feira, a gente vai voltar aqui. Se você não nos pagar direitinho, nós vamos entrar aí dentro e encher todo mundo de chumbo!

Dito isso, Pedrosa puxou Marco Gomes violentamente pelo braço e os dois foram embora. O sujeito fechou a portinhola.

Na sexta-feira, os dois estavam de volta à casa carcomida e realizaram o mesmo ritual. Marco Gomes começou a bater violentamente na porta, com uma espécie de argola de ferro que devia fazer às vezes de campainha. Silêncio.

Marco Gomes começou a bater palmas e gritar:

– Ô de casa! Ô de casa! Tem alguém ai? Ô de casa! Ô de casa! Tem alguém aí?

Silêncio.

Pedrosa apertou os cadarços do coturno, afastou Marco Gomes do seu raio de ação e começou a dar uns coices violentos na porta, quase arrebentando a mesma, enquanto gritava a plenos pulmões:

– Aqui é a Polícia Federal! Abram a merda dessa porta ou eu vou derrubar esse caralho com uma rajada de metralhadora!

Silêncio.

Pedrosa apanhou um paralelepípedo no meio da rua e atirou em uma das janelas do andar superior. Os vidros da janela se quebraram, fazendo uma barulheira da moléstia. Foi quando surgiu pelo buraco do vidro quebrado da janela um braço cheio de feridas pustulentas e deixou cair da mão um grande “bolo” de cédulas amarfanhadas. A maioria, cédulas de R$ 5 e R$ 10. Deviam ser os donativos dos “santos”.

– Confere direitinho pra ver se esse pilantra não está nos enganando! – vociferou Pedrosa.

Marcos levou uns 15 minutos contando e arrumando as mais de mil cédulas uma em cima da outra. O valor estava correto: R$ 10 mil.

– Me dá logo a minha comissão que tem uns amigos me esperando lá no Café do Pina! – avisou Pedrosa.

Marcos Gomes retirou R$ 500 do pacote e deu pra ele. Retirou mais R$ 500 e colocou no bolso da calça. O restante das cédulas ele colocou dentro de um saco plástico. Os dois saíram caminhando juntos em direção da Praça da Polícia.

– Rapaz, acho melhor você ir junto comigo entregar esse dinheiro pro Alvimar! – explicou Marco Gomes a Pedrosa. – Depois, você volta e bebe com teus amigos!

– Vou lá porra nenhuma, Marco! Aqueles “bodes velhos” são uns chatos! – avisou Pedrosa, referindo-se aos irmãos de Maçonaria de Alvimar. – Não quero papo com aquela raça não!

– Não é isso, porra! Como o Alvimar pediu pra nós dois fazermos a parada, não fica bem apenas eu chegar com a encomenda… – apelou Marco Gomes.

Depois de uns dez minutos de discussão, Pedrosa concordou em ir junto com ele até ao Palácio do Comércio. Quando entraram no escritório do Alvimar, os “bodes velhos” estavam todos reunidos.

– E aí, deu muito trabalho cobrar o cheque? – questionou Alvimar.

– Até que não! – explicou Marco Gomes, enquanto colocava o saco de dinheiro no meio da mesa. – O cheque era de um fuleiro da Federação de Umbanda…

– Cumequié? – exclamou, assustado, um sujeito que parecia ser o venerável da Grande Loja Maçônica do Amazonas. – Esse dinheiro veio da Federação de Umbanda? Então, está amaldiçoado, está totalmente amaldiçoado. Vamos queimar essa desgraça agora mesmo!

Ouvindo aquilo, Marco Gomes se abraçou com o saco de dinheiro:

– Vão queimar um caralho! Se vocês não querem a grana, eu levo ela comigo…

– Pode levar! Pode levar! – avisou o sujeito. – Esse dinheiro está amaldiçoado, totalmente amaldiçoado. Isso é pura energia negativa, só atrai desgraça! Leve logo essa imundície daqui antes que contamine a sala inteira…

Marcos Gomes deixou o escritório com o saco de dinheiro na mão, seguido por Pedrosa, seu fiel escudeiro. Antes de entrarem no elevador, Pedrosa cantou a pedra:

– Eu estou pouco me lixando pra esse negócio de dinheiro amaldiçoado e energia negativa, mas como nós fizemos a parada juntos, eu tenho direito a metade da grana, né não?…

Marco Gomes teve que lhe dar mais R$ 4,5 mil. E se arrepende até hoje de ter insistido tanto para que Pedrosa lhe acompanhasse até ao Palácio do Comércio para a entrega da encomenda. Ele poderia ter embolsado a grana sozinho.

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