Novas teorias econômicas

0

Por Edney Silvestre, de Nova York

Cheguei à conclusão de que os brasileiros são a grande força econômica que mantém esta cidade funcionando. Não os que moramos aqui – alguns em situações mais confortáveis que outros –, mas aqueles que inundam o Bloomingdale’s e a Rua 46, degustam as finas iguarias do Le Cirque ou se contentam com um sanduíche no Wesdy’s. Sempre, porém, carregados de inúmeras, inchadas, pesadas bolsas de compras.

Nem mesmo os japoneses, que, não contentes em esvaziar prateleiras, passaram a comprar os prédios onde elas se encontravam, são páreo para o nosso frenesi consumista. Porque os brasileiros, mesmo quando (hipótese remota e improvável) não estão adquirindo para si, trazem sempre uma lista de encomendas de amigos, parentes, conhecidos, dentistas, cirurgiões plásticos, filhos, clientes, patrões e empregados.

Alguém, algum dia, ainda há de provar minha tese: encomendas são o buraco negro da economia brasileira. Não chego a afirmar que sejam a grande responsável por quedas da Bolsa, por saltos ou mergulhos do dólar, dança da cadeira de ministros, bancarrota da cidade de São Paulo ou o súbito empobrecimento da população de Ribeirão Preto. Mas que são coadjuvantes no crime, ah, isso não.

A jornalista Maria Lúcia Rangel, por exemplo, veio munida de um caderno espiral onde dezesseis folhas eram ocupadas, linha após linha, por encomendas que variavam de meias arrastão & batedeira de claras e botas de caubói.

Na mesma época vi o dileto Leonardo Laginestra sair de uma drogaria sobraçando onze desodorantes Ban, dúzia e meia de pastas Crest e um número não-revelado de outros produtos farmacêuticos, tudo solicitação de clientes e colegas de agências de propaganda onde então trabalhava.

Outro Leonardo (Wilbert Servolo), também publicitário e aqui igualmente a trabalho, embarcou de volta carregando telefone celular, booster, caixas de som á prova d’água e outros curiosos artefatos eletrônicos. Em tal número que foi obrigado a comprar mais uma mala. E já tinha três. Enormes.

A coleção de quase vinte malas de Henrique Jaimovich foi reunida por idêntica razão, nunca para transportar objetos seus.

A poderosa editora Mônica Figueiredo, que retornou a São Paulo com um excesso de cem quilos, carregava, entre outras miudezas, talheres, lavadores de salada e um prato de cerâmica com diâmetro de um metro, em valises novinhas (cinco ou seis, não estou lembrando), adquiridas por causa similar. Aprendeu com sua mãe, a adorável Laurinha Figueiredo, cujo arsenal de valises faria inveja á Elizabeth Taylor.

Aqui há outra teoria a comprovar: que seria da indústria de malas made in Hong Kong, não fossem as encomendas tupiniquins? Se dependesse de Beatriz Miranda Jordão, porém, estaria frita: ela já sai de seu apartamento na Epitácio Pessoa munida de várias malas, todas vazias (o mínimo necessário para a temporada vai espremido numa pequena, de mão). Escusado dizer que todas aterrissam no Galeão rebentando as costuras.

Me lembro de um senhor do lado de quem desembarquei certa vez no Rio. Precisou de três carrinhos para a bagagem de encomendas que trazia. Sua única Samsonite, esbravejava, desaparecera na escala da PanAm em Miami. (Graças à mesma falecida companhia aérea, duas de minhas malas conheceram o Havaí e o Alasca, lugares que sempre sonhei visitar um dia, mas onde nunca pus os pés.)

Encomendas também deveriam ser usadas como fonte de pesquisa sobre tendências de/ou produtos em moda no Brasil. Mesmo ausente por quase dois anos, fiquei sabendo, pela quantidade de bicicletas compradas por mães e pais brasileiros, serem o veículo favorito da garotada no início dos anos 90.

Patins de rodas e skates já eram, assim como também sucumbiram He-Man & sua turma, Tartaruga Ninjas e os mais sóbrios tênis Reebok. In passaram a ser os tênis Nike multicoloridos, jogos eletrônicos Genesis, roupas da Gap e, durante uma certa época, uma tal Família Dinossauro, que nenhum vendedor de nenhuma loja daqui conhecia, mas que, garantiam os progenitores de minhas relações, eram o must have do público infantil ao sul do equador.

Também sei que os preços escorchantes de similares nacionais justificam muitas encomendas. Já vi blazer em pretensiosa loja masculina de shopping brasileiro por 150 dólares mais que um similar da butique Giorgio Armani da Quinta Avenida.

Como custos, salários e aluguéis são infinitamente mais baratos na terra de Carmem Miranda, me escapam os critérios que levam a tais preços estratosféricos, e mais ainda como encontraram compradores.

Talvez porque, como toda pessoa facilmente influenciável, já absorvi a aversão nova-iorquina a gastar dinheiro. Virei window shopper, aquele “comprador de vitrina”, que olha, acha bonito, se imagina usando e depois segue em frente, vitorioso: “Acabo de economizar US$ 350!”

Pelas minhas contas, nos últimos trinta meses já não gastei cerca de US$ 2.815.000,00 de um dinheiro que nunca possuí. Ou seja: breve poderia adquirir uma cobertura de frente para o Central Park, caso esta quantia fosse real. Não é fabuloso?

Mas, para ser justo, devo confessar que também sou chegado a uma encomenda, ainda que no sentido inverso. Meus amigos e minha família têm sido vítimas frequentes de minhas (nostálgicas? Exóticas? Idiossincráticas?) preferências.

Como Regina Lago, que voou Rio/Brasília/Washington/Nova York carregando um pedaço de goiabada cascão para mim. Não tive coragem de lhe dizer que eu pedira mesmo fora pasta de doce de figo.

Outras de minhas preferências nacionais incluem Engov, cuecas da Anonimato (pararam de fabricar, como a incansável Leda Nagle descobriu, após virar o Rio de Janeiro de cabeça para baixo), Hipoglós, bolinhas homeopáticas Spongia Marina (não há coisa melhor para a garganta irritada), sabonetes Phebo e Piele (estes, depois que uma multinacional abocanhou as fábricas, ficaram menores e difíceis de encontrar) e CDs de minha querida Musa da Depressão, Nana Caymmi.

Podia ser pior. Eu podia ter saudade de linguiça mineira.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here