No Kersk, com os russos

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Por Xico Sá

Todo amor deveria ter a urgência ou o tempo útil da mortalidade anunciada – pelos outros, os que estão do lado de fora, a turma da superfície, na torcida ou na urucubaca.

Queria que todos os amores não tivessem nem mesmo dia seguinte. Para não ter erro nem acerto. Nem elogio. Nem cara feia.

Tivesse exatamente o tempo possível e incalculável dos homens do submarino russo. Os emparedados do Kursk. A falta de oxigênio da história.

Podia nem ter sexo: depois de ilusões perdidas, não acredito mais nesse exercício: virou bicicleta ergométrica largada no quartinho dos fundos.

Todo amor deveria durar apenas a urgência do cheiro dela: para que não houvesse calúnia ou difamação.

Todo amor deveria durar apenas o tempo de ler O amor acaba.

O dia seguinte é muita disciplina: é espartano quando imaginávamos pura Atenas.

O amor está além dos agrados, de beijos pequenos que quase merecem outro nome ou do iogurte desnatado que compramos para a geladeira que passou dias apenas com água e cebola.

Por que nunca acaba a cebola de nenhum homem? Ora, precisamos chorar d’algum jeito.

O menos duradouro dos amores já demora muito.

Deixa tempo de sobra para a ruindade e o esquecimento.

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