Ninguém gosta mais desse boi do que eu!

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Compositor do Caprichoso havia várias décadas (ele tem mais de trinta toadas no repertório do bumbá), fundador e dirigente do MDB nos anos de chumbo, radialista brilhante, poeta de mão cheia e ex-vereador, Carlos Paulain estava morando em Nhamundá, mas sempre dava um jeito de desembarcar na ilha de Parintins uma semana antes do festival, para desfilar na Marujada de Guerra.

Em 1990, por conta de uma série de problemas de última hora, ele só conseguiu chegar na ilha na antevéspera do festival. Ainda mais morto do que vivo pelo cansaço da viagem, o compositor virou a ilha de ponta-cabeça procurando cetim branco-liso para a camisa da Marujada, mas não encontrou. Desesperado, foi bater na casa da costureira Tia Dulce e contou seu drama.

– Olha, meu filho, não se avexe não! – disse a costureira. – Eu estou aprontando um monte de camisas a pedido da diretoria e vou separar uma pra você!

No dia seguinte, os dirigentes do Caprichoso foram buscar as encomendas e criaram o maior arranca-rabo por causa da camisa cedida a Paulain:

– Olha, Tia Dulce, essas camisas estão contadas e são para umas pessoas que estão chegando de Manaus para prestigiar o nosso boi. O Paulain que dê o jeito dele. Nós não temos nada a ver com isso! – vociferou um dos sujeitos.

– Pois ou fica uma camisa pro Carlinhos ou eu não costuro mais merda nenhuma! – encrespou a costureira. – O Carlinhos é que faz a alegria do nosso boi. Esse pessoal de Manaus só vem aqui pra frescar…

Depois de duas horas de bate-boca, a costureira ganhou a parada.

Quando Carlos Paulain foi buscar a camisa e soube do acontecido, enlouqueceu de ódio. Aquilo era muita falta de consideração, um desrespeito total. Puto da vida e prendendo o choro de raiva, ele colocou a camisa num saco plástico, montou na motocicleta e partiu com a encomenda para a casa do presidente do Caprichoso, onde pretendia jogar a camisa na cara do sujeito.

Era o início da noite e caía uma chuva fina, pero muy chata. Como mora perto do Bumbódromo, Paulain viu os músicos da Marujada caminhando para a área de concentração do Caprichoso. Isso lhe deu mais raiva ainda dos dirigentes do touro negro.

Com a cabeça fervilhando de ódio, mágoa e desassossego, Paulain sentiu uma coisa estranha, como se estivesse entrando em transe. Uma toada surgiu na sua cabeça, de sopetão.

Ele parou a moto, entrou num boteco, pediu um papel de embrulho e começou a escrever uma letra, segurando o choro de raiva: “Minha vida soa com a Marujada/ Sou o suor que balança esse povo/ No mês de junho/ Tocando tambor/ Batendo palminha/ Renasço de novo/ Ninguém gosta mais desse boi do que eu!/ Ninguém gosta mais desse boi do que eu!/ Ninguém gosta mais desse boi do que eu!/ Nas minhas cores o meu canto é franco/ O azul do céu, o branco é encanto/ e meu boi Caprichoso/ Brincando de novo/ Renasce com ele/ Cantando o meu povo/ Ninguém gosta mais desse boi do que eu! / Ninguém gosta mais desse boi do que eu!/ Ninguém gosta mais desse boi do que eu!”

Paulain não desceu na Marujada de Guerra naquele ano. No ano seguinte, apresentou a música para a comissão julgadora do bumbá Caprichoso. A toada não fez apenas um estrondoso sucesso na arena, como se transformou no retrato falado e hino oficial da nação azul e branca. Nunca mais proibiram o compositor de descer na Marujada de Guerra.

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