Ninfômanas no jardim

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Por Edney Silvestre

Um passarinho magricelo, de plumagem cinza e marrom, apareceu cantando hoje de manhã no beiral da minha janela, finalmente escancarada após cinco meses e dezoito dias de frio. Uma temperatura de doze graus lá fora, um límpido céu azul sem nuvens acima de nossas cabeças e a gritaria da criançada no pátio da escola que vejo da varanda são os primeiros sinais inequívocos de que a primavera começa a se esgueirar pra dentro da vida dos nova-iorquinos.

Algumas flores também começam a pôr as cabeças fora dos canteiros: modestos narcisos amarelos, fálicos crocuses azul-cobalto. Uma ou outra tulipa – vermelho-sangue, branca, tigrada – também chapisca de cor as praças e jardins e parques, onde o resto da vegetação ainda convalesce do árduo inverno que acabamos de suportar. Quem tem plantas dentro dos apartamentos as traz para cálidos – ou quase – banhos de sol nas janelas. Os raros privilegiados que dispõem de jardim ou qualquer naco de terra cavucam, semeiam, exultam. E desesperam, eventualmente.

Porque, entre as muitas vidas que ressurgem com a primavera, está também a dos insetos. E das larvas. E das lagartas. E a de todos os minúsculos, microscópios, famélicos devoradores capazes de tornar o deslumbramento inicial da nova estação um pesadelo holocáustico. Conheço gente que preferiu se mudar para apartamentos sem um centímetro sequer de terra a enfrentar novos desapontamentos causados por inimigos tão insidiosos. Ou – como Paulo Zero, Lilian Peterson ou Herman Guttman – simplesmente desistiu da batalha e hoje encara o que foi uma tentativa de jardim como mero espaço para um bronzeado de final de semana.

Mas há aqueles que preferiam lutar até o fim. Richard Rodriguez foi um deles.

Depois de anos espremidos num dormitório da universidade, seguido de uma fieira de microapartamentos sombrios ao norte e ao sul de Manhattan, mais um período de trevas na gélida Chicago e a volta para um quase armário embutido no Lower East Side, sua nostalgia pelos claros e amplos espaços da Flórida de sua infância nunca amainara. Ter um jardim, por mais exíguo que fosse, transformou-se no foco principal de sua vida, e uma obsessão.

Seus sábados e domingos eram divididos entre os classificados do New York Times e intermináveis périplos pelas ruas, abordando desconhecidos moradores de prédios onde desconfiava existirem garden apartments, apertando campainha de tudo quanto era porteiro, falando com quintadeiros, caixas de supermercados, párocos, rabinos, pastores, colocando anúncios de “recompensa-se quem encontrar” em todos os postes disponíveis, até que um suborno ao zelador de um edifício na Rua 21 East, entre a Primeira e Segunda Avenidas, colocou-o no topo da lista de espera de um estúdio que mais parecia um corredor com janela (sim, uma apenas). Atrás desta janela, porém, ficava um jardim.

Descrevendo mais acuradamente, não era bem um jardim. Era uma tripa externa, coberta de lixo, restos podres de móveis, jornais velhos. Mas tinha, ao final e num canto, uma macieira. Maltratada, anêmica, porém ainda viva.

Foi justamente a macieira que deflagrou em Richard uma inusitada relação de amor e ódio com a primavera.

Depois de semanas retirando o entulho que cobria sua preciosa nesga de terra, escavucando, adubando, semeando e plantando, Richard descobriu que algumas criaturas microscópicas haviam se aninhado por toda a macieira. Cobrindo seu tronco como nuvens de poeira, logo passaram a alimentar-se dos subnutridos brotos que iam apontando nos galhos.

Ainda acreditando que seriam inimigos fáceis, comprou o primeiro pesticida que encontrou no supermercado. O resultado foi nulo. Um segundo e um terceiro tampouco obtiveram qualquer sucesso. Os seguintes foram apenas mais dispendiosos. Crescendo e engordando, as criaturas pareciam deliciar-se com os banquetes químicos. Pior: começaram a aparecer sobre a grama que despontava e as tulipas que nasciam.

Já desesperado, Richard apelou para um amigo agrônomo no Wyoming, um natureba que lhe garantiu haver uma arma natural e infalível: insetos-fêmeas ninfômanas. Insaciáveis copuladoras, só interrompem sua atividade erótica quando o macho dá o último suspiro. Abatido aquele, passam para o próximo. Uma caixa contendo 1.500 destas femmes fatales ecológicas bastaria, receitou o amigo.

Richard, ansioso por resultados rápidos, comprou seis. Naquela mesma noite, abriu-as aos pés da macieira.

Elas realmente fizeram um bom serviço. Na manhã seguinte, não sobrara um macho sequer para contar a história.

Só que não houve machos suficientes para nove mil ninfômanas.

Com o ardor físico frustrado, foram devorando tudo o que encontravam pela frente. Não apenas os infelizes amantes, mas também os sinais de grama tinham desaparecido. Das tulipas, só se viam os cotocos das hastes. A nesga de terra de Richard virara um tapete pulsante de fêmeas ensandecidas.

Chocado, derrotado e percebendo com horror que o enxame começava a invadir a casa, não lhe restou senão usar o único recurso de que dispunha: água sanitária, sabão líquido e as solas dos pés.

O pátio de Richard hoje, dois anos depois daquele início de primavera, está cimentado. Os únicos verdes ali são da lona da espreguiçadeira e dos novos brotos da macieira, que, apesar de tudo, sobreviveu àquela noite de amor fatal. Quando aparece algum inseto nela, Richard não titubeia: usa um antiecológico spray de DDT.

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