Na saúde, na doença, no WC

0

Por Xico Sá

Não há momento mais solene do que acompanhar uma mulher, principalmente se for a sua, ao banheiro. Solidarizar-se com o mal crônico da prisão de ventre feminina é um dos nossos momentos de maior grandeza. Não há, nem nas prateleiras das farmácias e muito menos entre os raizeiros de plantão, melhor remédio do que o nosso acompanhamento solidário.

Se você nunca ouviu queixas dessa natureza da sua consorte, melhor examinar direito para ver se não divides o mesmo teto com um formoso travesti da Vila Buarque, em São Paulo, de Copacabana, no Rio, do Setor Hoteleiro, em Brasília, da Antonio Falcão, no Recife…

Não há uma única mulher nesse-mundo-sem-porteira que não enfrente o referido drama da prisão de ventre.

Mas não é fácil prestar a referida solidariedade.

Cada uma tem um método, querida A. W., um jeito, um modus operandi para guiar o sofrimento. Tive uma morena, por exemplo, que só conseguia evacuar – sou do tempo em que os homens de bem evacuavam, “faziam o serviço” ou “passavam um telegrama”, jamais cagavam, como se expressam os sem-modo de hoje – com a minha presença na “casinha”.

Pego uma cadeira, de preferência daquelas de mesas de crianças, para ficar um plano abaixo da nega, e sento para o diálogo. As coisas andam de acordo com a fluência da prosopopeia, da conversa alentada. Mas tem de ser tudo muito natural, como dizia o povo limpinho da Bossa Nova. Mas nada de conversa tola, como poderia sugerir a ocasião. Tem de ser conversa metida a besta, tipo Diálogos de Platão, compreende?

Nem todas, porém, gostam de sabedoria nessas horas. Umas preferem o silêncio, inclusive a retirada masculina do recinto, no que alguns cabras safados aproveitam para ir comprar o clássico cigarro do êxodo.

Outras se dão bem com new-age, embora as adoráveis façam melhor com trance ou um eletronicozinho qualquer que lembre as festas de Goa, bem relaxadas, tranquilas, uma viagem.

As estranhas xingam até a mãe na hora H e podem surpreender com um Led Zeppelin na vitrola, as solitárias lembram Antônio Maria (“Ninguém me ama/ ninguém me quer….”), as cínicas fazem listas de compras ou escolhem  a balada noturna no guia, as religiosas rezam um terço inteiro, as modernas brincam com o palm-top.

As antigas liam O Cruzeiro, riam com o Amigo da Onça, se excitavam com o catecismo do Carlos Zéfiro ou completavam o Coquetel de palavras cruzadas…

Mas todas, ontem e hoje, embora a indústria farmacêutica tenha evoluído, com as mesmas agonias e impossibilidades cotidianas.

O importante é transformar esse sacrifício tarkovskiano em um momento de pura devoção amorosa.

Em ocasiões como esta é que a vida se apresenta de maneira mais despida, besta, totalmente simples, comezinha, pronta para desmentir os nossos orgulhos e caprichos mais idiotas. Humana, escancaradamente humana. Por isso não devemos nos furtar de vasta solidariedade durante esse relato drama.

Deveríamos, inclusive, e aí fica a sugestão para os nobres legisladores, ter acesso, uma vez a bordo das nossas legítimas senhoras, aos WCs do mulheiro.

Algumas cabines reservadas para o acompanhante nessas sublimes ocasiões.

Como sugere o belo e dramático hino do Grêmio, obra de Lupicínio Rodrigues, com a nega onde a nega estiver.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here