Na mesa com Ferran Arriá

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Do not disturb: gênio trabalhando

Por Anna Rice Fried

Ferran Arriá é o maior chef da atualidade. Chegar ao seu lendário restaurante La Pocilga é uma aventura. A orientação precisa que recebemos dos guias em Barcelona foi a seguinte: “Dobrem à esquerda, na Sagrada Família e depois à direita, na casa de Almodóvar e Caetano. Tomem um trólebus para o aeroporto. Peguem o primeiro voo para o Brasil. Chegando a Manaus ou Iquitos, perguntem.”

Tínhamos que correr. O restaurante é exclusivíssimo. Só abre na época da cheia do Uraricoera, e em anos bissextos terminados em 2. E fecha para o almoço. Em torno de 20 milhões de pessoas já fizeram reservas, esgotadas até o ano 2127. Arriá nunca dá entrevistas, exceto quando as concede. Também não se arvora o título de “Chef”. Modesto, considera-se apenas “um gênio”.

Paul Bocuse, do L’Auberge du Pont de Colloges, Allain Ducasse, do Alain Ducasse, Alex Atala, Babu Loureiro e outros tops do Guia de Pneus Michelin já foram enxotados do estabelecimento, ao tentar esconder acepipes nos bolsos. Karl Lagerfeld também foi expulso certa vez, por abanar seu leque roxo durante a sobremesa. Arriá tem fobia de leques roxos.

Chegamos quase na hora do estabelecimento fechar, para desespero dos garçons. “Vão querer o quê?” perguntou o maître, com a cara fechada. “Comer”, respondi. (O mau humor dos garçons de Arriá é lendário e dizem fazer parte do espetáculo). O cérbero grunhiu alguma coisa e trinta minutos depois, com nossas gargantas ardendo de sede, nos serviram dois copos d’água. Quentes. “Tem vinho, não?”, perguntei. “Ainda não inventaram nada capaz de harmonizar com os pratos de Arriá, dona”, resmungou.

O garçom jogou em seguida a entrada em nossos pratos (o restaurante de Arriá não tem menu fixo, apenas uma sequência de 30 pratos aleatórios). Parecia um… grilo cristalizado, emitindo luzes néon e adornado por geleca. Engolimos sem mastigar. Teve um efeito entre o estupefaciente e o estuporante, com direito a flashback.

Adepto da nanotecnologia, Arriá concebe, com a ajuda de nerds, carnavalescos e especialistas em feng-shui, pratos muito, muuuito pequenos que subvertem todos os conceitos da culinária terrestre. Musses com a consistência de concreto, churrasco gelatinoso e espaguete de chiclete figuram entre suas criações imortais. Imperdível é o pão que explode na boca, importado da Faixa de Gaza. Um prato que só se pode degustar uma vez na vida. Sua pièce de résistance é o croquete de frango gratinado que quando mordido canta Cucurrucucu Paloma, com a voz de Caetano Veloso.

Após a degustação minimalista e loucos para encher urgentemente a pança com um X-Bauru, pedimos uma palavrinha com El Chef. Ele estava empanando um marsupial, mas nos concedeu gentilmente trinta segundos. Embora autoproclamado “catalão”, o sotaque de Arriá não deixa dúvidas quanto à sua verdadeira origem: Mossoró. Sua primeira declaração foi “oxente, já pagaram la cuenta?” Expliquei polidamente que quem tinha que pagar alguma coisa era ele, Arriá, pelo jabaculê de divulgarmos sua biboca no nosso prestigioso CANDIRU. Escapamos por pouco do terçado samurai do cozinheiro.

Na fuga, ainda gritamos em coro, à distância, o verdadeiro apelido de Arriá: “calango vesgo”. Pudemos ouvir, bem de longe, o cabra se esgoelando de ódio. Porque, essa é a verdade cristalina, por mais globalizado que seja, nordestino não gosta de apelido.

Cotação: passável

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