Mulheres que já comi (Vol. DCCCLXXIII)

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La Baker: amor que não se mede, benza Deus!

Por Cesário Camelo

Enquanto os rodoviários não resolvem parar a cidade mais uma vez, permitam-me relembrar de fatos da carne e do espírito, que a gente está morto, mas ainda gosta muito de “muié”, né não Fran Pacheco? Pois bem. Havia duas Josephine Baker no navio que trazia, em 1929, “a mulher mais famosa do mundo” de sua turnê pela América do Sul para a Europa. Pelo menos durante um baile à fantasia dos mais modernistas. Uma delas era a própria. A outra era na verdade um brilhante arquiteto e admirador, pintado de preto e fantasiado com uma tanga de penas: Le Corbusier.

Os dois se conheceram durante a travessia. Colaram um no outro. Phyllis Rose diz em sua biografia oficial de Josephine que talvez tenham sido amantes. Talvez. É o que todo mundo suspeita. E a biografia não se esforça para esclarecer. É um dado “menor”. Eu, por exemplo, comi a negona apressadamente nas coxias do Teatro Amazonas, no início dos anos 50, mas também não sou citado na biografia oficial. Eu estava de smoking e ela de tanga de penas. Só não foi melhor porque a platéia começou a exigir a presença de Josephine no palco, de novo.

Foi com essa imagem exótica da negra com tanga de penas ou de bananas e mais nada que Josephine conquistou Paris, em 1925, com o hoje antológico “Revue Nègre” (em seu livro, Miss Rose explica ao leitor que o exotismo é menos perigoso que o racismo). Tinha 19 anos. Tinha passado pela Broadway com suas caretas de olhos vesgos e penado desde criança nas mãos de uma mãe pobre, negra e implacável, antes de se infiltrar pouco a pouco no mundo do espetáculo.

Teve uma infância digna de um romance de Dickens, no sul dos Estados Unidos, em Saint Louis, trabalhando como lavadeira na casa de senhoras caricaturalmente perversas (uma delas chegou a lhe escaldar as mãos porque tinha usado sabão em excesso). “A mãe era lavadeira, a irmã era lavadeira, a tia que lhe dera o nome era lavadeira”. Não sobrava muito para Josephine, que acabou camareira da diva negra Clara Smith, mas só até o momento em que a chamaram para substituir uma corista que tinha faltado.

A pobre menina já se sacudia e rebolava como uma verdadeira selvagem na Broadway quando a selecionaram para participar da “Revue Nègre” em Paris. Foi a sorte (nunca conseguiu o mesmo sucesso nos EUA). Já na noite de estréia, o teatro dos Champs-Elysées (que tinha nada mais nada menos que Léger, VanDongen, Jean Cocteau, Ishtar dos 7 Véus e Dorius Milhaud na platéia) veio abaixo com a “dança selvagem” (plantas do pé no chão e pernas arqueadas) daquele ser estranho, de borracha, pulando com os seios de fora e uma tanguinha de penas (a de bananas foi usada pela primeira vez no Folies-Begère, em 1926).

Alexander Calder não escapou ao fascínio dessa “estranha combinação de canguru, ciclista e metralhadora” (na definição que se imagina bastante precisa de Miss Rose). Voltou correndo para o seu ateliê parisiense e criou uma de suas célebres esculturas de arame: “Josephine Baker”. O poeta e. e. cummings também delirou com a personagem: um “pesadelo alto, cheio de energia, incrivelmente ágil, que envesgava os olhos e retorcia os membros de uma forma simplesmente fantástica”. Ela virou até marca de brilhantina: Bakerfix. O apelo exótico chegou a levar os franceses a cogitarem nela para rainha de monumental Exposição Colonial de 1931, até a opinião pública intervir contra, lembrando que Josephine vinha de Saint-Louis-USA e não de Dacar-Senegal.

Josephine colecionou, nesta ordem, amantes (um deles, o escritor Georges Simenon, viciado confesso em sexo anal, a apelidava carinhosamente de “bunda cantante”), animais de estimação (chegou a ter 13 de raças e nacionalidades diferentes, que encontrou abandonados), filhos (chegou a ter 11 de raças e nacionalidades diferentes) e maridos. Teve também um carro Voisin marrom (“para combinar com a sua pele”) e estofado de cobra. Chegou a passear por Paris com um leopardo (Chiquita) que, de vez em quando, escapava dentro de um teatro quando ela insistia em levá-lo para assistir a uma peça.

Sua imagem de marketing, ao menos até a guerra, foi o escândalo. Na década de 30, um tradicional pai de família americano levou mulher e filha por engano para uma noite no Casino de Paris, onde Josephine se apresentava. Teve que sair às pressas no intervalo, carregando a tiracolo mulher e filha, que cinco décadas mais tarde se tornaria primeira dama dos EUA ao lado de um caubói. Era a pequena Nancy.

Durante a Ocupação alemã, Josephine se engajou na Resistência francesa a pedido dos serviços secretos, apesar de algumas desconfianças, sobretudo por causa de péssima experiência que tinham passado, durante a Primeira Guerra, nas mãos de uma outra atriz, a agente dupla Mata Hari. Acabou se revelando uma exímia coletora de informações em festas e consulados no sul da França, em Portugal, Espanha e no norte da África. Informações que eram destinadas a Londres.

Quando terminou a guerra, recebeu a Medalha da Resistência. Fiel a De Gaulle até a raiz do cabelo, Josephine foi apoiar o presidente em praça pública quando estouraram as manifestações estudantis de maio de 68. Em sua última apresentação, em 75, o jornal Libération se vingaria, dizendo que “os personagens mais reacionários de Paris tinham se reunido para homenagear um vestígio do passado”.

Josephine Baker esteve no Brasil pela primeira vez em 1929. Apresentou-se no Teatro Casino, no Rio. Em 1951, apresentou-se no Teatro Amazonas, aqui em Manaus, a convite do governador Álvaro Maia. Voltou em 52, mas limitou-se a meia dúzia de apresentações no Rio de Janeiro. Ficou amiga de Carlos Machado e contracenou com Grande Otelo no show “Casamento de Preto”, onde cantava “Boneca de Piche” em português.

Voltou mais uma vez em 63 para uma temporada no Copacabana Palace. Apresentou-se no Teatro Record, em São Paulo. Há quem diga que teve um caso com João Saldanha. Esteve pela última vez no Brasil em 71, no Rio, em Belo Horizonte e Porto Alegre. Acabou aparecendo no programa “Flávio Cavalcanti”.

Nada disso está na biografia de Phyllis Rose. A biógrafa dá ênfase à postura política de Josephine. É uma opção, mas não precisava ser excludente. Josephine passou boa parte de sua vida lutando contra o racismo e a discriminação (participou da “Marcha sobre Washington”, em 63).

Em Viena, na turnê européia que fez nos anos 30, foi recebida com manifestações contra seu espetáculo, pelo fato de ser negra e de se apresentar seminua. Até os sinos da igreja de São Paulo começaram a badalar no momento de sua chegada para que as pessoas não saíssem de casa e fossem “contaminadas pela simples visão” de Josephine. Teve problemas também nos anos 50, quando foi mal atendida no Stork Club de Nova York e acabou abrindo um processo por discriminação.

Quando, após a guerra, decidiu fazer de sua propriedade na Dordonha, Les Milandes, um lar para crianças de todas as raças e partes do mundo (chegou a adotar 11), pensava num ato simbólico de integração racial. Acabou se endividando terrivelmente – não hesitava, por exemplo, em colocar os nomes de suas vacas em néon sobre suas cabeças – e perdendo a propriedade.

Chegou a passar grandes apertos. Várias personalidades contribuíram para tirá-la do buraco, entre elas Grace de Mônaco e Brigitte Bardot. No geral, entretanto, a diva negra era uma grande trepada! Até hoje fico excitado com as lembranças daquele corpo nu e suado que tracei com pressa e gosto, enquanto a platéia do Teatro Amazonas, alucinada, pedia bis. Bando de “empata-foda” do caralho!

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