Mulheres, mulheres, mulheres

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Por Luiz Carlos Miele

Este livro é dedicado a Irma, Eliana, Regina, Chiara e Anita, respectivamente mãe, irmãs, sobrinha e esposa. Foram, é claro, as mulheres mais importantes da minha vida. Mas o livro não é autobiográfico-familiar e fala somente das lembranças da minha vida artística. Por isso, tenho que lembrar de várias outras mulheres, ao lado das quais participei em shows e programas de TV.

Com Leila Richers, fiz o Ela & Ele na TV Manchete. A Leila é uma jornalista formidável, âncora competente de telejornais, e o Nilton Travesso, na época diretor da emissora, sugeriu a escalação de uma figura feminina, bonita e talentosa. Estava falando com ela. Infelizmente, a Manchete tinha uma audiência muito baixa no Rio e nenhuma em São Paulo. Mas foi uma grande alegria trabalhar com ela. Na época, ela estava terminando uma grande paixão pelo Raul Mascarenhas, o “sax-simbol” que namorou mulheres maravilhosas. A própria Leila, Fafá de Belém, Lilibeth Monteiro de Carvalho, uma seleção feminina medalha de ouro.

Certa vez, precisei de um favor para um amigo, e a Cissa Guimarães era a garota propaganda de um plano de saúde. Liguei para ela, para pedir uma indicação junto à diretoria do tal plano.

– Alô, de onde falam?

– É 3322-3834 (voz do homem).

– É da residência de Cissa Guimarães?

– Perfeitamente.

– Ela está?

– Depende. Quem quer falar com ela?

– É o Miele.

– Oi, Miele, tudo certo? Aqui é o Raul Mascarenhas.

– Porra, Raul. Toda vez que eu ligo para casa de uma mulher bonita, você é que atende…?

Houve uma época em que a dupla Miele & Bôscoli foi contratada para trabalhar ao lado das mulheres mais bonitas do Brasil. As famosas manequins da Rhodia. Chegamos lá com uma tremenda responsabilidade. Na Fenit, a Rhodia realizava shows com elenco milionário. Rita Lee, Juca Chaves, Jorge Ben, apresentação de Raul Cortez, textos de Alceu Pena. Um luxo.

Nosso contrato era maravilhoso. Morávamos numa suíte de luxo no Hotel São Paulo, jantávamos no Casserole, restaurante francês insuperável, com direito a retirar vales em dinheiro na caixa. Nunca havíamos usufruído tamanha mordomia. Esse fausto se refletia também na produção dos shows e fizemos um trabalho muito bonito chamado Rio de 400 anos, com as modelos, Simonal, a bailarina Marly Tavares e um tremendo conjunto, formado por Luiz Carlos Vinhas, Raul de Souza, Otavio Baylli, Ruben Bassini, Jorginho Arena e Edson Machado.

Tinha um momento delicioso em que as modelos entravam de perucas Black-power com uns leques que representavam máscaras de mulheres negras. O show tinha uma luxuosa cenografia, guarda-roupa sofisticadíssimo. Mas nada disso representa a coisa mais bonita do show. A coisa mais bonita do show era Mila Moreira. Todo mundo era apaixonado por ela, mas infelizmente Lívio Rangan também. Lívio era o homem mais importante da Rhodia e tudo dependia da aprovação dele. Os cenários, o texto, a música, o elenco, as fotos, toda a campanha de lançamento dos produtos. Todo o show.

Era muito competente e um homem de extremo bom gosto, bom gosto que se traduzia também na paixão pela Mila. Os dois faziam um lindo casal. Depois dos ensaios, eles nos convidavam invariavelmente para jantar, mas eu estava mais preocupado em rever a turma da música de São Paulo, muitos dos quais tocavam em ambientes pouco recomendáveis para jantares elegantes. Assim, Ronaldo é que usufruía dos convites e os cardápios sofisticados.

Numa fatídica manhã, fui acordado ás 7 horas da manhã pela secretária do Lívio.

– Bom dia, seu Miele. Seu Lívio mandou chamar o senhor imediatamente para uma reunião. O carro já vai estar na portaria do hotel.

Espantado com aquele chamado tão urgente àquela hora, abri a porta de comunicação da magnífica suíte para acordar Ronaldo. Não estava lá o meu sócio. A cama feita, onde será que o malandro se meteu? Deixei um recado e fui para a tal reunião.

Chego no escritório, encontro Lívio perigosa e italianamente dramático:

– Mas como vocês puderam fazer isso comigo? Me apunhalar pelas costas dessa maneira? (Favor ler essas frases acrescentando o sotaque italiano, indispensável para esta narrativa.)

– Que história é essa, Lívio? De que é que você está falando? (Enquanto eu respondia, uma negra suspeita começava a toldar minha mente.)

– Não finja que não sabe de nada. Não deboche da minha inteligência.

– Lívio, garanto a você que não sei do que você está falando.” (Suspeitas aumentando vertiginosamente.)

– Jura pelo nome de sua mãe italiana (descendente) que você não sabia de nada do que estava acontecendo toda noite, bem na minha cara?

– Juro (Suspeitas absolutamente confirmadas.)

– Ronaldo e Mila fugiram para o Rio de Janeiro.

Meu mundo caiu. E com ele, o salário, a posição de diretor dos shows que tinham na época uma estrutura inexistente no Brasil, as suítes de luxo, os carros com motorista, o direito aos vales em dinheiro na caixa do Casserole.

Ronaldo e Mila haviam se apaixonado, mas ele não era louco de contar para mim, pois sabia o que estava em jogo e achava que eu iria desencorajá-lo. De qualquer maneira, fui incumbido de viajar para o Rio e saber se aquela tinha sido uma atitude apenas irresponsável de dois jovens, ou se a coisa era mais séria. Peguei o avião pensando se devia usar faca ou revólver contra o Ronaldo, ou se devia partir para torturas mais lentas e dolorosas.

Cheguei no apartamento do Ronaldo, uma cobertura quarto-e-sala em Ipanema, ele e Mila estavam de roupa de banho, tomando sol no terraço, deitados em volta de um estranho drinque que ele havia inventado. Você pega a melancia, tira uma tampa, cava um pouco a polpa, enche de vodca, coloca a tampa de volta e bebe através de uns canudinhos. Esqueci por uns momentos a faca e o revólver, tal a expressão de felicidade dos dois.

– Ô Miele desculpe, mas não teve jeito. Nós estamos realmente apaixonados, e, afinal, é você mesmo quem vive falando do filme Do mundo nada se leva.

Chorei, chorei, até ficar com dó de mim, mas apenas por dez segundos:

– Então tá, Ronaldo. Me arruma um short e um canudinho, e seja o que Deus quiser.

Outro show do qual participei ao lado de mulheres formidáveis foi Regina Mon Amour, direção do Vanucci, lá no Canecão. A estrela, claro, era a Regina Duarte. No chamado “elenco de apoio” Wanderley Cardoso, José Augusto Branco, eu, Vera Fischer e Sandra Bréa. Eu e Sandra fazíamos o Money, Money, imitando a Liza Minelli e o Joel Gray, pois o show lembrava vários números dos grandes musicais americanos.

Nossa dupla fez um grande sucesso, que resultou em um novo show chamado O caso Water-Closed, infeliz trocadilho que fazia uma paródia ao caso Watergate. Depois, ampliamos nossa parceria, fazendo na Rede Globo o Sandra & Miele – programa que durou mais ou menos um ano. Era um musical bastante pretensioso, que teve erros e acertos. Depois disso, ela foi acometida pelo mal terrível que a levou. Mas durante seu calvário, foi uma corajosa batalhadora, enfrentado a doença com incrível coragem, participando de palestras, numa cruzada impressionante.

Andy Warhol disse que a glória, hoje, dura 15 minutos. Deve ser. No enterro da atriz, que teve 19 capas de revistas num mesmo ano, estávamos eu e o Lucio Mauro. Ney Latorraca havia passado pelo velório durante a noite.

Bendito o show entre as mulheres. Já falei de Elis, é claro, e da Tuca, ao lado de quem iniciei minha carreira na noite. Na noite, porque no palco, foi no jardim da infância do Externato Irmã Catarina, onde participei de um minueto com toda aquela roupinha de Luís XIV. Na coreografia, meninos para um lado, meninas para outros. Mas eu fui para o lado das meninas, provocando uma grande gargalhada na platéia. Naquele momento pensaram que eu errei. Eu também. Mas depois de mais velho, cheguei à conclusão que foi um ato falho, que premeditava atrás de quem eu iria correr pelo resto da vida.

E sempre tive companhias maravilhosas no palco. Incluindo a Rogéria, num show esporádico, e a Valéria, ao lado de quem fiz um show muito elegante no Pujol. Eu de smoking, Valéria vestida por Azarrô. O elegante do show é que em nenhum momento ele era tratada como um travesti, mas sim como cantora. E ela é muito boa cantora.

Agora, minha companheira mais constante é Wanda Sá, mas aí, já somos três. Eu, ela e nosso guru, Menescal. Já fizemos dois shows, Uma mistura fina e Apenas bons amigos. Mas tenho recebido várias cantoras na Casa de Cultura da Universidade Estácio de Sá, onde se realiza uma programação maravilhosa, com teatro adulto e infantil, balé clássico e moderno, exposições de artes plásticas, centro gastronômico, palestras etc.

Ali já realizamos temporadas como Um brasileiro chamado Jobim, Uma Bahia chamada Caymmi, festivais de blues com músicos brasileiros e americanos, uma atividade ininterrupta durante os sete dias da semana. E agora, Quartas com Miele, em que, a cada semana, recebo uma atração musical para um talk-show.

Na entrada da Casa de Cultura, numa exagerada homenagem, existe uma estátua minha. É claro que isso não faz de mim um ídolo, porque a estátua é feita de argila e, portanto, os pés são de barro.

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