Mouzar Benedito, um grande contador de causos

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Mineiro de Nova Resende, onde nasceu em 1946, Mouzar Benedito da Silva, o quinto entre dez filhos de um barbeiro, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci). Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher).

Tem mais de 30 livros publicados, entre os quais João do Rio, 45, Memórias Burlescas da Ditadura, Ousar Lutar: Memórias da Guerrilha que vivi, Pobres, porém perversos, O Tropeiro que não era Aranha nem Caranguejo, Trem Doido, Santa Rita Velha Safada, Saci, o guardião da floresta e os perfis biográficos Meneghetti, o gato dos telhados, Barão de Itararé, herói de três séculos e Luiz Gama, o libertador de escravos, e sua mãe libertária, Luíza Mahin.

No livro João do Rio, 45, Mouzar aborda os anos de chumbo da Ditadura Militar no Brasil. O foco é o dia-a-dia de uma casa no bairro Vila Madalena, de São Paulo, onde mora um grupo de jovens e a tia Hilda, parente de um deles, personagem que sempre esquece as chaves de casa e protagoniza uma série de cenas engraçadas. O grupo é composto em sua maioria por jornalistas.

As histórias vão sendo narradas pela própria casa, situada na Rua João do Rio, 45 a que o título do livro faz referência. Além das festas, neste endereço são organizadas também muitas reuniões e discussões políticas, assim como no Bar da Terra, local que servia como ponto de encontro entre jornalistas, militantes de esquerda e simpatizantes.

Valadares, repórter do jornal de esquerda Em Tempo, é um dos personagens centrais da história. Ele escolheu a profissão de jornalismo para lutar contra a Ditadura Militar. Faz matérias com os prisioneiros políticos do Rio e São Paulo, e acompanha e participa da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).

Misturando ficção e realidade, são apresentados os causos que Valadares costumava contar nas reuniões em sua casa, que iam até tarde, e também acontecimentos que marcaram a história do nosso país.

Dentre estes, a manchete da Folha de S.Paulo “Vírus Gay já apavora São Paulo”; o nascimento dos jornais de esquerda como Pasquim, Movimento e o próprio Em Tempo; a invasão de tropas do Exército ao Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp) em 17 de dezembro de 1968, quatro dias após o AI-5; reivindicações pela Anistia, como a greve de fome que durou quase 40 dias; referências à música Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, de Geraldo Vandré; e ao pelego Joaquim dos Santos Andrade, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo (Joaquinzão, como era conhecido, era homem de confiança da Ditadura Militar infiltrado no movimento sindical).

Com o desenrolar da história, diminuem as gargalhadas, as reuniões até tarde, as festas na Vila Madalena e as conversas – como uma maneira de mostrar a desilusão do autor com os rumos que o Brasil tomou. Com essas referências, o autor Mouzar Benedito mostra certa decepção com os novos tempos do país e com alguns dos antigos revolucionários, que pegavam em armas e, anos depois, passaram a reproduzir as práticas que condenavam.

“O mundo – e o Brasil dentro dele – foi ficando careta, chato, individualista (isso é o que acho pior), sem perspectivas de mudanças revolucionárias… O próprio fim do livro, que não vou dizer aqui qual é, representa o fim de uma era”, disse o autor Mouzar Benedito, em entrevista ao Boletim NPC. Confira trechos da entrevista:

Primeiro, fale um pouco da sua trajetória no jornalismo: onde e quando se formou? Por que veículos passou?

Comecei na imprensa alternativa. Era formado em Geografia, pela USP, e trabalhava como orientador social no Sesc de São Paulo. Estava, por curiosidade, estudando chinês e tupi, no início de 1974, e resolvi entrar na faculdade de jornalismo (Cásper Líbero) porque via na profissão um canal de luta contra a ditadura, numa época em que a imprensa alternativa começava a se firmar. Ainda na faculdade, ajudei a criar o Versus e a colaborar no Pasquim e outros jornais. Ajudei também a criar o Em Tempo. Trabalhei ou colaborei em mais de trinta jornais, dentre eles Brasil Mulher, Mulherio, Jornal dos Bairros de BH, Juventud de Montevidéu, entre outros. Também participei de quase trinta revistas, como Guia Rural Abril, Teoria e Debate, Caminhos da Terra etc. Atualmente sou colunista das revistas Fórum e Revista do Brasil.

Quando começou a escrever, e por que essa guinada para a literatura?

Eu nunca tinha pensado em escrever livros. Em 1983, quando tomou posse a primeira turma de deputados eleitos pelo PT (havia alguns antes, que ajudaram a fundar o partido, mas foram eleitos pelo MDB), fui ser assessor de um deputado na Assembléia Legislativa de São Paulo. Comecei a achar o trabalho chato demais e inútil. Fui me irritando com aquele teatro de mau gosto, e um dia pedi demissão. O deputado foi legal, insistiu para que eu arrumasse outro emprego primeiro, depois ele me demitiria. Não topei, exigi ser demitido, e fiquei meses desempregado, matando cachorro a grito.

No dia em que saí da Assembléia, senti um alívio enorme. Em casa, não conseguia dormir, fiquei bebendo e falando bobagens. Meia-noite, foi todo mundo dormir e eu não tinha o que fazer. Resolvi escrever uma matéria sobre o Barão de Itararé pro Pasquim. Fiz (saiu na página central) e terminei por volta das três da manhã, sem sono. Então fiquei escrevendo umas histórias até amanhecer. Nas duas noites seguintes, aconteceu a mesma coisa: escrevi matérias da meia-noite às três da manhã (frilas) e em seguida continuei escrevendo minhas historinhas. No final das três noites estava terminado o livro Santa Rita Velha Safada, que só fui publicar em 1987.

O que me estimulou mais a escrever foi trabalhar na TV Record, das 7h da manhã às 15h, o que fiz durante quatro anos! Saía de lá puto da vida, muitas vezes encrencado com algumas pessoas, e com necessidade de extravasar. Chegava em casa e escrevia. Assim escrevi acho que uns dez livros, inclusive esse João do Rio, 45 (acho que foi em 2002 ou 2003).

Você pode falar um pouco sobre sua experiência e militância no Em Tempo e outros jornais alternativos?

Quando fundamos o Em Tempo, eu já colaborava em outros jornais de esquerda. Era um tempo em que havia muitos rachas na esquerda, inclusive nos jornais. O Em Tempo surgiu de um racha no Movimento (que estava sendo controlado pelo PCdoB), que, por sua vez, era um racha do Opinião (nacionalista de esquerda, do empresário Fernando Gasparian). E antes de sair o número zero do Em Tempo (formado por uma frente de esquerda), houve um racha de um pessoal que criou o jornal Amanhã.

No início do Em Tempo, era difícil conciliar as tendências. Uma desconfiava da outra, e todos queriam ler todas as matérias. O jornal foi criado para ser semanal, e o fechamento do número zero, experimental, durou três semanas por causa disso. Havia muitas discussões, um cara via um tom foquista num texto que não tinha nada a ver, outro via um tom trotskista em outra… Depois, tendo que sair semanalmente, pararam com isso, mas eu não aguentava e saí.

Só voltei quando toparam me dar espaço para fazer matérias sobre os presos políticos. Eu estava morando no Rio, onde um grupo do MR-8 dominava a sucursal. Eles censuravam matérias, não mandavam para SP as matérias que não lhes convinha. O MR-8 tentava dar um golpe no jornal e expulsar as outras tendências. Mas uma matéria minha que eles não mandaram para SP acabou sendo o estopim para o MR-8 ser expulso do jornal. E foi havendo brigas etc, até que o jornal acabou dominado por uma tendência: o pessoal que hoje está na Democracia Socialista, parte no PT e parte no PSOL.

Partindo para o livro João do Rio, 45, por que escolher jornalistas como figuras centrais do seu livro? Você parece considerar a profissão como um exemplo, no passado, de luta contra a ditadura – ainda que muitos tenham sido coniventes. Qual sua opinião sobre o papel da imprensa alternativa naquele contexto?

Eu me inspirei em experiências reais. Cada personagem surgiu de alguns exemplos de pessoas que conheci, o que não significa que um personagem seja exatamente uma pessoa conhecida; pode ser a soma de várias, com algumas licenças literárias. A imprensa alternativa teve uma importância enorme, não só na derrubada da ditadura, mas também na mudança de todo o jornalismo brasileiro. Até o Estadão, jornal mais conservador que existia, em termos de linguagem, foi influenciado pelo Pasquim, por exemplo. Pipocaram jornais militantes no Brasil inteiro. Varadouro, no Acre; Posição, no Espírito Santo; Boca do Inferno, na Bahia; De Fato, em Minas; Coojornal, no Rio Grande do Sul etc, etc, etc. Além disso, tinha os jornais feministas, dos homossexuais masculinos, o anarquista Inimigo do Rei e outros.

Valadares revela que havia escolhido o jornalismo como profissão para lutar contra a Ditadura Militar. Agora, os jornalistas estudam para aparecer na televisão… É essa a visão que você tem do jornalismo atualmente?

Infelizmente, na grande maioria dos casos, é. A gente achava que ia mudar o mundo fazendo jornais revolucionários, era uma baita ingenuidade, mas acho que valia. Mas não é só no jornalismo que acontece isso. As pessoas que queriam fazer teatro muitas vezes imaginavam que criariam um grupo teatral na periferia e iniciariam ali um foco revolucionário. Hoje, o que atrai grande parte dessas pessoas são as novelas.

Com o desenrolar da história, vemos um decréscimo das gargalhadas, reuniões até tarde, festas, conversas e os causos contados por Valadares. Seria um pouco da desilusão com os rumos que o Brasil tomou?

Sim, acredito que é isso. O mundo – e o Brasil dentro dele – foi ficando careta, chato, individualista (isso é o que acho pior), sem perspectivas de mudanças revolucionárias… O próprio fim do livro, que não vou dizer aqui qual é, representa o fim de uma era.

Desde a infância, quando ainda morava na Nova Resende de 2 mil habitantes, no interior de Minas Gerais, você já pesquisava o mapa do estado e se encantava com os nomes de algumas cidades. Quais os nomes que te encantaram? E qual dessas cidades surpreendeu o sonho de Mouzar-menino?

Muitas cidades me encantavam, como Mar de Espanha, Catas Altas da Noruega, mas a que mais me atraía era Grão Mogol, uma cidade pequenininha, isolada no vazio que era o norte de Minas na década de 1950. Eu sempre pensava: “Um dia eu vou lá”. Quando morava no Rio de Janeiro, apareceu a oportunidade de fazer um trabalho na região e fui, curioso. Cheguei lá depois de um mês que tinha chegado a luz elétrica à cidade. Grão Mogol tinha então (1978) cerca de 1.800 habitantes, era uma “mini-Diamantina”, com arquitetura semelhante, ruas com calçamento irregular… E todas as noites as pessoas saíam para fazer seresta. A economia era de escambo, as pessoas levavam chibios de diamante para trocar por gêneros alimentícios nas vendas. Eu pensava que o nome Grão Mogol se devia a um dos maiores diamantes do mundo, que tinha esse nome e provavelmente teria sido achado lá. Mas não, o diamante “grão-mogol” era indiano. O nome da cidade se deve a uma serra muito íngreme ali perto, onde aconteciam muitos acidentes com as tropas que chegavam ou saíam com mercadorias, pois as mulas e burros às vezes caíam com carga e tudo, e não raro levavam o tropeiro junto. Por isso, ela se chamava serra do Grande Amargor, e daí a pronúncia foi mudando até virar Grão Mogol.

Você tem noção de quantas cidades brasileiras já conheceu? Ainda viaja muito? Como coleta seus causos?

Acho difícil contar, mas são no mínimo umas trezentas, de todos os estados. Desde criança eu tinha vontade de conhecer todos os estados brasileiros, menos o território de Fernando de Noronha, que era controlado pelos militares. Mas acabei indo até lá, a trabalho. Os causos foram acontecidos comigo e/ou amigos, outros presenciados por mim e muito poucos contados por pessoas do local. Como viajava sem dinheiro, dormindo em espeluncas, eu convivia muito com o povão e, como geógrafo e jornalista (duas profissões que exigem que o profissional seja muito curioso) via, ouvia e apreciava tudo. Há causos de todos os estados.

O povo brasileiro é um bom contador de causo?

Há lugares em que os brasileiros são melhores contadores de causos. Tem a ver com a tradição oral, do tempo sem TV. Nos dias de frio e de chuva, em Nova Resende, por exemplo, mas em muitos outros lugares do Brasil também, sentávamos a família toda em torno do fogão de lenha – as crianças em cima do rabo do fogão – e aí era transmitida toda a cultura da família, como a história dela, suas crenças, superstições, vontades… Sempre achei que Minas e Rio Grande do Sul tinham mais tradição de causos, mas depois fui vendo que há bons contadores de causos em quase todo o Brasil. No Amazonas, no Ceará e em Goiás conheci muitos deles.

É preciso ter ouvidos encantados para conseguir se encantar pelos causos?

É preciso ter olhos pra ver e ouvidos para ouvir, simplesmente. Paciência, ver o lado divertido das coisas. Pessoas ansiosas, que querem as coisas prontas, viciadas em TV, internet etc., dificilmente sabem apreciar um bom causo.

Ao contar um causo, ele aumenta? Nesse sentido, o causo é vivo?

Às vezes aumento, mas às vezes diminuo: há acontecimentos tão malucos que se a gente contar como foi ninguém acredita. Agora, tem a velha tradição: quem conta um conto, aumenta um ponto. As pessoas se apropriam dos causos (isso é normal) e dão suas versões, porque o causo revive na boca de cada um.

Como jornalista, ao longo de sua carreira, entrevistou diversas pessoas: entre “famosos” e anônimos, certo? Quem tem mais para contar?

Os famosos atraem mais, mas os anônimos podem ter coisas mais originais para contar. Mas tem famosos que merecem. Por exemplo: a primeira matéria sobre a Cora Coralina publicada em São Paulo, fui eu que fiz, para o jornal Movimento. Ela já era velhinha, anônima aqui, e logo depois ficou famosa (não por causa da minha matéria). Entrevistei o Betinho, Aziz Ab’Saber, muitos intelectuais e músicos, mas um deles, o Chico Buarque, que gostaria muito, nunca entrevistei.

Existem jornalistas bom contadores de histórias ou são escassos nesse mercado?

Estão cada vez mais escassos. O individualismo é muito grande hoje em dia e os próprios jornalistas não conversam nem mesmo dentro das redações. Acho horroroso quando entro numa redação e vejo jornalistas a uns 2 metros um do outro que, quando precisam falar algo entre eles, mandam e-mail em vez de falar.

O Brasil valoriza sua cultura popular?

Valoriza bem menos do que deveria. Mas sinto que há uma renovação do interesse por ela, por parte de uma minoria que pode se tornar expressiva.

Os causos e encantos vão se perdendo à medida que as cidades crescem?

Em grande parte, sim. À medida que diminui o convívio entre as pessoas, os causos e encantos vão ficando apenas na memória de quem os viveu e não têm quem lhes dê ouvidos. Nas cidades grandes, as pessoas têm um pouco de medo umas das outras, poucas saem para ficar à toa na praça, conversando abobrinhas, contando suas histórias, ouvindo, apreciando. Ficam muito fechadas em casa, seja por medo de violência ou por comodismo, tornam-se mais individualistas, e o individualismo não dá espaço para encantos coletivos.

A luz elétrica e posteriormente a televisão apagaram o brilho dos causos?

Não precisaria acontecer isso, mas acontece. Os causos exigem atitudes ativas, e o estilo de vida atual é mais compatível com o passivismo de ficar à frente da televisão recebendo o que ela oferece, sem precisar de pensar nem falar, conversar. Aliás, se alguém conversa no meio de um grupo que vê televisão, muito provavelmente ouvirá um “shhiiii”, de silêncio ou o mandarão calar.

Pode nos contar um pouco de sua passagem pelo Pasquim?

Eu era estudante de jornalismo, ajudei a fundar o Versus e pensava em mandar matéria para o Pasquim, mas tinha receio de ser esculhambado por Ivan Lessa, que usava o pseudônimo Edélsio Tavares e gozava bastante de quem escrevia para lá. Um dia, mandei duas matérias com pseudônimo, direto para o Jaguar, para ver o que aconteceria, e as duas foram publicadas. Aí comecei a mandar matérias e notas regularmente. Fazia algumas entrevistas também. Uma delas, com o Manoel da Conceição – perseguido pelo governo Sarney no Maranhão, exilado que retornava ao Brasil – rendeu onze páginas. Foi um recorde. Muita gente achava que a redação do Pasquim era uma gandaia danada, e que a do Versus – um jornal de cultura que tinha colaboradores como Gabriel García Marques, Galeano, Ariel Dorfmann, Benedetti e outros – era só discussão de cultura e política. Mas no Versus a gente bebia cerveja, ria, contava causos, namorava, e só era sério quando precisava. No Pasquim, nas poucas vezes que fui à redação do jornal, no Rio de Janeiro, tinha a sensação de que estava entrando num escritório de contabilidade: todo mundo concentrado no trabalho, cada um em sua mesa… Só o Jaguar destoava. É claro que devia ter os momentos de muita diversão, como nas entrevistas feitas lá dentro, regadas a uísque, mas eu não participei.

E os sacis? Existem mesmo? Essa é para você “voar fora da asa”, como diz Manoel de Barros.

Os sacis estão aí no nosso dia-a-dia. Vou lhe contar uma história. Começou a desaparecer coisas de casa (óculos, chaves, livros…) e às vezes reaparecer. Desconfiei: tem saci aqui, em plena Vila Madalena. Não é que recentemente eu estava andando por uma praça muito arborizada em frente à minha casa e vi que no tronco de uma árvore tinha aparecido da noite pro dia um monte de orelhas de pau, aqueles cogumelos que dão em árvores? O Saci fica 7 anos chocando num gomo de taquaruçu, nasce já de pito aceso e gorrinho e vive 77 anos fazendo traquinagens. Mas não morre, vira orelha de pau. E um monte virou perto de casa.

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