Moda, humilhação e outros babados

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Por Xico Sá

O lamento tropicológico que Gilberto Freyre esparramou ao longo do seu Modos de homem & Modas de mulher está cada vez mais em voga nas deslumbradas passarelas. As gazelas – para que tanto osso, meu Deus, pergunta meu coração sem tenência! – estão cobertas do mesmo papel-carbono da maioria dos ditos estilistas brasileiros.

Noves fora um ou outro ensaio de decote ou rasgão de pernas, o país continua como nos tempos escravocratas, quando as sinhazinhas compravam em boutiques parisienses e proibiam, por meio da pena dos maridos legisladores, “o luxo” das escravas.

Uma carta régia de fevereiro de 1696, patenteada pela Corte portuguesa, cassava o último dos privilégios estéticos das negras, que humilhavam a Casa-grande com vestes coloridas e badulaques que batiam direto na maior das razões femininas – a boa e velha inveja. “(…) que sendo-lhe presente o demasiado luxo de usado no vestuário as escravas de todo o Estado do Brasil em nenhuma das capitanias dele possam usar de vestido algum de seda, nem se sirvam das cambraias ou hollandas, com rendas ou sem elas, para nenhum uso, nem também de guarnição de ouro ou prata nos vestidos.”

Assim como em tudo quanto é atividade, a nossa submoda talvez pague os pecados – a nossa verdadeira balança comercial é o resultado do repertório dos crimes & castigos – dos erros e invejas que nos impõem a maldição da cópia.

Não chegamos sequer a uma guayabera, o traje cubano. Estamos condenados, moldes minimais dos Tristes trópicos, a encurtar e encompridar o biquíni conforme os termômetros de Ipanema (sorry, emergentes, queria dizer Barra da Tijuca e areias contíguas).

O resto, é o que ocorreu até o momento, o subsadomasoch que tenta o bom dinheiro cor-de-rosa e outros babados demodês em busca do  exotique perdido. A burguesia continua importando seus enxovais completos, embora derrame algumas lágrimas furtivas por conta da banda cambial.

Estranhamente, o populacho mestiço, sucessor das negras escravas – vítimas não da moda, mas do olho grande das sinhazinhas (lembrem-se que arte é intriga e mulher é inveja!) – sofre menos do que nos tempos das cartas e regulamentos proibitivos.

Tem a seu favor o crediário dos grandes magazines. E nas araras destas lojas, um bom substrato do melhor da moda no mundo.

John Galliano faz uma alça nova lá fora, a C&A – também de origem holandesa, como as Casas Pernambucanas do império dos Lundgrens – pendura aqui o mimetismo possível nas suas araras.

O mesmo fazem os camelôs. Na cultura das aparências – e tem outra?. Indagaria um alinhado Oscar Wilde – há uma alforria a prestação nas vitrines populares, embora, muitas vezes, as/os fashion victims dos subúrbios estejam comprando as suas falências ou mortes a crédito.

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