Milhagem sexual

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Por Xico Sá

Como diz o meu mais recente amigo e soprador de causos, o velho Feijão, homem-cereal, mínima morália de tantas experiências e vicissitudes, costela errada de tantas evas: “O mal é que não temos cartão de milhagem.” Não possuímos o nosso Macho-Smiles, Trans-Macho, Macho Fidelidade ou algo do gênero. Nosso Paulo-César-Pereira-Pass, nosso Valadão-Trip.

Isso significa, grosso modo mesmo, que temos sempre que mostrar o melhor de nós. Seja em um encontro fortuito na escada da firma, seja durante todas as sessões de fornicação de um acasalamento. Ou vai ou racha, tiro e queda essa pobre dicotomia nacional. Estamos sempre como pobres garotos diante da “peneira”, teste único e fatal para times de futebol. O medo diante do pênalti. Seja para entrar tanto em um Jabaquara, um Madureira, um Olaria, no meu querido Íbis do Recife, quanto em esquadrões como Vasco, Flamengo, Santos, Corinthians, Fluminense, Roma, Barcelona, Manchester.

Ao contrário do que ainda nos permitem as companhias aéreas, as mulheres querem, sempre e quase, resolver a vida ou obter uma provação a cada voo ou jogo – para não dizer trepada, vocábulo ignorante demais para o nosso repertório de delicadezas proustianas. Elas praticam, nesse aspecto, um casuísmo de fazer inveja a qualquer cartola, a qualquer Eurico Miranda, a qualquer Ricardo Teixeira.

Reivindicamos, pois, nossa tarjeta de milhagem. Nela serão acumulados, como nunca, nossos voos Guarulhos-Bangkok, Recife-Madri, Rio-Tóquio… As nossas melhores lembranças.

Ora, que considerem as nossas grandes jornadas e dêem um desconto para aqueles dias em que não passamos de velhos DC-10 aposentados, sem manutenção, ferrugem na lataria, asas cortadas. Aqueles dias em que somos incapazes de uma ponte Congonhas-Viracopos. Ou mal conseguimos um sobrevoo Cumbica-Terraço Itália, mesmo sabendo que o helicóptero, como dizia o cronista, é o beija-flor de Deus.

Isso tudo porque elas não consideram, enquanto acúmulo de milhas, aquelas noites em que, a exemplo de todos os Casanovas ou anônimos Sex Machines de boléias de caminhão, o nosso priaprismo prevalece sobre todas as coisas. São milhas não contabilizadas, senhores. Ensinamentos do tantra que escorrem pelo ralo…

Na bagunça e no check-in do coração das moças, tanto faz, para efeitos de contabilidade, um voozinho São Paulo-São José dos Campos quanto um Rio Branco, via Manaus, via Belém, via São Luís, com  troca de aeronave, rumando para Salvador, direto para Madri, e dali para a caixa-prego, fim do mundo, baixa-da-égua.

O certo é que mulher alguma fornece milhagem para o sexo. Nesse ramo, nunca somos julgados pelo conjunto da obra. É um juízo, uma nota para cada vez e pronto. Para elas, só vale a milhagem sentimental. Deveríamos ter um raro cartão-fidelidade, com a figurinha simpática do Pequeno Príncipe e tudo, com a seguinte inscrição, logo acima do magnético e da assinatura: “Lembre-se: você é eternamente responsável por aquilo que cativa.”

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