Milagres acontecem

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Por Edney Silvestre, de Nova York

Sou um otimista incorrigível – ou um sujeito teimoso como uma mula, dependendo do ponto de vista. Há mesmo aqueles que me consideram apenas um idiota romântico. Mas o fato é que, entra ano, sai ano, continuo acreditando que as coisas vão melhorar. Como quando era adolescente, nada apaga minha esperança de que soluções serão encontradas para fazer do Brasil um país melhor, para tornar o mundo um campo de razoável equilíbrio entre trevas e luz, para que cada indivíduo alcance o sonho que persegue.

A realidade nem sempre tem favorecido a minha crença. Na travessia destas quatro décadas, na verdade, ela sofreu alguns golpes rudes. Vi o entusiasmo dos anos JK esfarelar-se sob uma ditadura militar que destruiu gente preciosa para o país, deformou a consciência cívica de seus cidadãos e agigantou a corrupção e a segurança da impunidade aos poderosos, cujas consequências sofremos até hoje.

Perdi amigos queridos em prisões, perdi amigos queridos em exílios, perdi amigos queridos em overdoses estúpidas, perdi amigos devorados pelas AIDS, perdi amigos e até meu pai em acidentes de trânsito. Algumas vezes a dor foi tão grande e tão frequente e tão contínua que tive medo de enlouquecer. Ou de virar um cínico.

Mas, vez por outra, sou testemunha de acontecimentos que reforçam a minha fé de que as transformações, as boas-novas, a sorte, a – ouso dizer – felicidade acabam sempre chegando à estação. Como trens sem esquema de horários, às vezes demoram muito além do que a paciência ou a confiança se acham capazes de aguardar.

Meu exemplo mais inspirador e recente é uma mulher de 96 anos, chamada Atlanta Constance Simpson. De setembro de 1896 até dezembro de 1987, ela atravessou de um mundo de carruagens à conquista da Lua, viu chegarem e passarem guerras mundiais cada vez mais cruentas, gangorras de prosperidade e depressões econômicas, esfacelamento de impérios e formação de outros, marés de ideologias, doenças incuráveis sendo domadas e pestes novas brotando de fontes desconhecidas, sempre afastando-se cada vez mais da fazenda onde nascera, no estado de Minnesota – primeiro em Detroit, depois em Chicago, finalmente em Nova York –, e sempre perseguindo o mesmo sonho: pintar.

Apesar de formada pela Universidade de Minneapolis, preferia modestos empregos de datilógrafa para poder ter mais tempo de se dedicar ás telas. Quando o dinheiro faltava, o que era frequente, pintava em compensados, papéis de embrulho, sacolas de supermercados. Sua determinação acabou por afastá-la da família, e nunca se casou. Por uma razão ou outra, jamais conseguiu quebrar a barreira das galerias de arte.

Na véspera do Natal de 1987, aos 91 anos, quebrara a bacia numa queda e estava andando de muletas. Sem um tostão, vivia de seguro-desemprego, num apartamento onde tinha apenas uma cama e um cavalete, rodeada de centenas e centenas de pinturas jamais expostas. Triste fim de vida, não?

Milagres, porém, acontecem.

Na véspera do Natal de 1987, adiantado para um compromisso, Mr. Owen Ryan matava o tempo caminhando pela Amsterdam Avenue quando viu, enfiada no canto da vitrine de uma delicatessen, uma tela pequena, uma pintura de pássaros tropicais – a paixão de sua única irmã, com quem tivera uma tola discussão telefônica alguns meses antes, resultando daí um rompimento que ele não sabia como desmanchar.

A tela, pouco maior que uma página de caderno escolar, era a mais colorida e bonita que jamais tinha visto. Encantado, ao mesmo tempo pensando que ele poderia servir de ponte para um reatamento com a irmã, entrou e perguntou se estava lá á venda.

O dono da quitanda disse que não. Mas que a artista estava ali dentro, naquele momento.

Mr. Ryan virou-se, esperando conhecer uma pessoa jovem, capaz de pintar algo tão brilhante e vital. Viu Atlanta. Foi falar com ela.

O resto é história.

Desde a primeira exposição em Manhattan, organizada por Mr. Ryan em maio do ano seguinte, Atlanta é disputada por galerias de Nova York, Paris, Nice, Palm Beach, Washington. Suas telas são vendidas por um mínimo de vinte dólares, os desenhos a carvão por sete mil.

Tem dois luxos, hoje em dia: mudou-se de volta para Minnesota, onde vive numa casa para idosos, e comprou o cadilaque dos aparelhos de surdez, uma geringonça de mais de dois mil dólares, que ela liga e desliga, aumenta ou diminui o som, dependendo do interesse ou chatice da conversa.

O número de exposições já marcado para suas obras vai até o ano 2016. Uma delas – que mais a encanta, porque adora arte oriental – vai acontecer em Osaka, Japão, em setembro de 1996.

Ela pretende comparecer e comemorar ali seus cem anos.

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