Meu amigo de fé, irmão camarada

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Por Luiz Carlos Miele

“Nesta casa se escreve a história da Música Popular Brasileira.” A frase é do Ronaldo, não me lembro quando foi escrito, mas permanece até hoje na fachada do Canecão. Realizamos naquele palco alguns dos shows mais importantes de nossa carreira.

Desde o primeiro espetáculo de Roberto Carlos, em 1970, Roberto Carlos a 200 quilômetros por hora. Tinha a ver, é claro, com a paixão do Rei, naquele momento fascinado pela velocidade. Foi nosso primeiro show com direito à grande produção, com orquestra, cenografia etc.

Naquela época, a TV Record dominava absolutamente o cenário da música brasileira. Roberto, dirigido por Carlos Manga, e coadjuvado por Erasmo Carlos e Wanderléia, liderava Jovem Guarda, e Elis comandava O fino da bossa, dirigido por Miele & Bôscoli. Todos eram contratados do empresário Marcos Lázaro. Assim como Simonal, Agnaldo Rayol, Renato Corte Real, Elizete Cardoso, Aracy de Almeida, Juca Chaves, Fred e Carequinha, enfim, todo grande cartaz do Brasil ou aqueles que viriam a ser os grandes cartazes do Brasil, ou ainda aqueles que já haviam sido os grandes cartazes do Brasil e que ainda continuavam firmes na carreira.

A Record tinha um musical diferente por noite, mas a maioria dos artistas participava eventualmente de todos eles. O Regional de Caçulinha também, e acompanhava desde Silvio Caldas a Pepino di Capri. Caçulinha ainda não havia descoberto aquela moleza de faturar uma nota só para tocar oito compassos por domingo no programa do Faustão, com a frase “Quem disse que não dá?” Tudo bem, pois o Caçulinha é gente finíssima e já batalhou muito tentando acertar o tom para muito equívocos musicais que aconteceram na própria Record e que continuam acontecendo até hoje.

Marcos Lázaro controlava toda essa programação semanal, que envolvia talvez uma centena de artistas, de maneira quase familiar. Cuidava das contratações e pagamentos de todos os artistas convidados para os programas. Das estrelas principais era responsável inclusive pelas despesas particulares. Assim, pagava as prestações do carro do Erasmo (Rolls Royce), o colégio dos filhos do Roberto, o aluguel do apartamento da Elis. Luz e gás incluídos.

Você chegava no escritório, pedia um vale, ele mandava fazer o cheque e você assinava o primeiro papel que estivesse por perto, o qual ele colocava num fichário daqueles antigos de colégio. Como é que ele conseguia fazer aquelas contas, ninguém sabe até hoje. Mas eu adorava o Marcos, e a maioria dos artistas também. Havia uma grande amizade entre ele e a turma. Seu apelido carinhoso era Tio Patinhas.

Estavam todos empolgados com a carreira, o sucesso, e também não se ganhava o dinheiro que gira hoje em dia em torno do show business. Como no futebol, as estrelas eram famosas, mas não milionárias.

Marcos convidou a dupla Miele & Bôscoli para a produção do tal primeiro show do Roberto. Ao mesmo tempo, terminava a época de O fino da bossa, e ele tornou a proposta muito atraente, conjugada com outra participação minha:

– Veja Miele, vai acabar mesmo seu contrato com a Record, eu negociei a sua ida para a Globo para substituir o Agildo Ribeiro em Mister Show, pois o Agildo não renovou o contrato.

Tudo bem, pensei. Desfaço a casa aqui em São Paulo, volto para o Rio, para a Globo, e ainda produzindo o Roberto. Beleza. Eu devia ganhar naquela época uns 4 mil alguma coisa (cruzeiro, reais?). Não tinha a menor idéia de quantos vales havia solicitado ao Marcos, nem por quanto ele havia negociado a minha ida para a Globo. Portanto, perguntei:

– OK, Marcos. Tudo Bem. Como é que estão as nossas contas?

– Veja Miele, contando o salário da Record e os shows que você tem feito, você me deve 50 mil.

Fiquei sem fala durante os 45 minutos do primeiro tempo, os quais ele esperou pacientemente, enquanto efetuava os pagamentos dos cachês de Yvone de Carlos e Gene Barry (o Bat Masterson), que tinham vindo fazer um show na Record (péssimo, por sinal).

Quando me recuperei, ele continuou a conversa:

– Tudo bem, Miele, eu vou descontando dos próximos shows e do salário da Globo. Agora, voltando ao show do Roberto. Quanto é que você quer para dirigir?

Respondi imediatamente:

– 50 mil.

E o Marcos, também imediatamente:

– Fechado.

E assim começou a nossa primeira grande aventura no Canecão.

Roberto Carlos no velório de Luiz Carlos Miele

Logo no início, um impasse. Marcos e Roberto exigiam um depósito que seria equivalente hoje a, digamos, 350 mil reais. Era um fato novo nos shows brasileiros, e o Canecão hesitou em aceitar a proposta. Preocupado com a possibilidade de o show não se realizar, pedi a Anita para me apresentar o assessor do presidente do Banco do Estado da Guanabara (BEG), Marcio Lomba, ex-colega dela no governo Negrão de Lima. O presidente do BEG era Carlos Alberto Vieira. Devidamente autorizado pelo Marcos e pelo Canecão, apresentei a proposta:

– O banco adianta o dinheiro e retira “x” por cento da bilheteria durante cada noite do show. (Os shows, naquele tempo, duravam meses.) Além disso, na fachada e nos anúncios de jornais estará a frase “BEG apresenta”, assim como nos cartazes internos e nas tabuletas de reserva em cada mesa etc.

– OK – concordou o presidente – mas banco é banco, e preciso de um fiador.

– É claro, respondi. Ninguém melhor do que Roberto Carlos.

Não vou dizer que inventei o merchandising, mas foi no mínimo a mais estranha operação do gênero. Roberto foi fiador de um dinheiro que ele mesmo recebeu, e o banco, que ganhou o benefício de toda a propaganda, como patrocinador, recebeu, da bilheteria, todo o dinheiro de volta. Vai ver que foi isso que, ao fim da temporada, o presidente me perguntou:

– Miele, você não quer vir trabalhar com a gente, não?

Quem sabe não teria sido uma boa escolha. Pelo menos, eu não acordava toda segunda-feira tendo que correr para cobrir minha conta, repetindo aquela frase:

– Ah, eu tenho muita vontade de voltar a ser pobre por um dia. Porque todo dia é foda.

De qualquer maneira, com Roberto e o Canecão, fomos felizes quase para sempre. Fizemos vários outros shows em que Roberto aceitava diversos desafios que eram desnecessários à sua condição de maior ídolo do país. O mais marcante, para mim, foi o de se travestir de palhaço.

Foi idéia do Ronaldo, para fazer justiça. Eu fiquei apavorado, na certeza de que, se aquilo não funcionasse, eu e ele teríamos um brilhante fim de carreira no Tocantins, produzindo o show de aniversário do Boto Tucuxi. Pois, depois de experimentar 40 perucas e narizes de palhaço, Roberto topou (ficou com a primeira que experimentou) e foi um sucesso enorme, com a capa da Veja anunciando o show.

Lembro também do Roberto cantando em dupla com ele mesmo, com o vídeo de sua imagem projetada numa tela vertical do tamanho exato do seu corpo. Como eu não queria fazer nenhum corte no vídeo, fazendo gravação direta para dar a idéia perfeita de “outro” Roberto, gravamos durante 16 horas, nos estúdios da Miksom, em São Paulo.

Durante o show, a tela era puxada para o palco por uma cordinha bem rudimentar. Foi um dos primeiros “efeitos especiais” feito com martelo e pregos. Projetávamos a imagem do “Robertinho”, que entrava no show só para perturbar o Rei, com perguntas sobre as mulheres da vida dele, quem dividiu com ele o “Café da manhã” etc. “Robertinho” havia gravado apenas com a participação de um teclado, enquanto eu, deitado no chão, soprava as frases que seriam cantadas depois pelo Roberto, no palco.

Todos os técnico consultados afirmaram que não seria possível realizar o quadro, pois a orquestra iria acompanhar tudo ao vivo, no palco, e não havia condição de dar certo. Pois deu certo e foi um tremendo sucesso. Acredito que foi a primeira vez no mundo que isso tenha sido realizado, sem o auxílio de computador etc. Apesar de tudo, um crítico escreveu que a idéia era muito boa, mas mal realizada, pois o sósia do Roberto não se parecia muito com ele. Rimos muito, pois o “sósia” era ele mesmo.

Tenho muitas lembranças formidáveis dos shows do Roberto. Eu e Ronaldo bolamos um quadro em que o Pepe trazia as roupas de várias épocas da carreira do ídolo. Pepe é o maior diretor de palco do Brasil e o único com moral para dar bronca em estrelas do porte de Simone, Vinicius, Gal e o próprio Roberto. Pois bem, ele trazia até o centro do palco a arara, que é aquele cabide com rodinhas que se usa nos camarins.

Roberto pegava cada uma das roupas, que representava uma época diferente, vestia, contava a história e cantava a música correspondente. Nos primeiros shows, incluíamos sempre uma música internacional e lembro de um arranjo espetacular de Chiquinho de Moraes para McArthur’s Park, um grande momento, que mostrava um intérprete completamente amadurecido.

Foi muito bacana também a participação da garotinha que cantava Imagine, do John Lennon, junto com Roberto. Mas, a bem da verdade, esse quadro e a descoberta da menina foram por conta do Eduardo Lages, maestro do Rei até hoje. Engraçado, o destino. Chiquinho de Moraes é um arranjador genial, que, de tantos compromissos, teve que interromper repentinamente seu trabalho conosco, durante os ensaios que antecediam a estréia de mais um show.

Tínhamos pouco tempo para encontrar alguém para substituí-lo. Depois de uma reunião tensa, parei no bar Preto 22 para tomar um uisquinho para descontrair (boa desculpa, sempre). Havia um bom conjunto, um quinteto fazendo música de qualidade, que ficou ainda melhor no meu quinto uísque. Fui até o pianista e líder do conjunto e perguntei:

– Boa noite, está beleza o som. Os arranjos são seus?

Eram.

– Escuta, você não quer ganhar mais uma graninha? Aparece amanhã no ensaio do Roberto Carlos pra gente conversar…

Quem sabe se eu não entrasse naquele bar, Eduardo Lages não estaria há mais de vinte anos como o maestro e arranjador do Roberto Carlos?

Lembro da surpresa do Lages, em outro espetáculo cuja estréia foi no Maracanãzinho. Roberto resolveu que o título do show seria Verde-Amarelo. Ele havia acabado de compor uma canção com esse tema ufanista e eu fiquei preocupado com a repercussão política junto à imprensa. Afinal, Don & Ravel foram marginalizados quando gravaram Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, que foi considerada uma canção a serviço do governo militar.

Quando levei essa preocupação até Roberto, ele respondeu que todo o Brasil sabia que ele não carregava nenhuma bandeira para qualquer governo. E depois, tinha todo orgulho em ser brasileiro, tivera aquela inspiração e não tinha o menor receio de ser mal interpretado. Ia cantar a música e gostaria de manter o título.

Quando ele diz educadamente que gostaria de manter o título, quer dizer que o título vai ser aquele mesmo, e não há de ser nenhuma dupla que vai mudar. Nem Miele & Bôscoli, nem Geisel & Médici, que, aliás, não fizeram muitos sucessos. De qualquer maneira, achei que podia dar uma disfarçada no roteiro e tentei incluir duas músicas que, na minha opinião, iriam contrabalançar o que eu acreditava que era um risco, Coração de estudante e As rosas não falam.

Aprovadas por ele as sugestões, pedi ao Lages um arranjo imponente. O querido maestro caprichou na escrita e escalou o coral de uma universidade para cantar à capela a primeira parte. Roberto só entrava em “Queixo-me às rosas, mas que bobagens, as rosas não falam…” Pra quê? No ensaio do dia seguinte, ele me chamou num canto:

– Bicho, você viu o que é que você ia aprontando? Eu fui rever a letra da música. Você já prestou atenção nessa letra?

– Claro, Roberto. Música e letra são uma obra-prima.

– Tá certo, bicho. É muito bem-feita, mas não exata. Diz aqui que as rosas não falam. E todo mundo sabe, tá provado cientificamente que as flores e as plantas ficam muito mais viçosas quando o homem se comunica com elas. Você sabe do meu carinho com as minhas plantas. E tem outra coisa errada. Diz aqui que as rosas exalam o perfume que roubam de ti. O homem é que se aproveita do perfume das rosas, industrializa tudo…

Sem perceber que aquilo era uma coisa importante para ele, um assunto sério, eu quis defender minha idéia e respondi:

– OK, Roberto. Você tem razão. Mas a gente já gastou uma grana nessa produção e o resultado com o coral ficou lindo. Você podia explicar para as rosas que eu não sabia de nada e já pedi para fazer os arranjos, que a culpa não é sua e…

Pela primeira vez em 30 anos de convivência, vi Roberto irritado. E pela primeira vez, levei uma certa bronca, o ensaio foi interrompido, ele voltou para o camarim, houve um grande atraso, até que eu fui lá me desculpar, e ele não só me serviu um uísque, como ainda me garantiu que ia livrar a minha cara com as rosas. Mas não cantou.

Nunca, nem antes, nem depois desse episódio, vi Roberto Carlos levantar a voz para alguém da sua produção, ou para um de seus empregados domésticos. É um homem de grande generosidade e educação. Solidário, fechado nas suas convicções.

Quando me acidentei, ele me ligou. Não me lembro de ter recebido outro telefonema dele em 30 anos de trabalho, embora tenha sempre atendido as minhas ligações profissionais. Dessa vez atendi ao chamado, transmitido por uma enfermeira emocionadíssima:

– Seu Miele, seu Miele, é o Roberto Carlos no telefone.

– Alô, Mielão. Qual é, bicho? Que é que você andou aprontando? Assim você assusta a gente. Nem tantas emoções assim…

E continuou brincando comigo, sem deixar de perguntar se eu precisava de alguma coisa etc. Desconfiando de que eu precisava, mandou depositar uma simpática quantia na minha conta e depois mandou me chamar para a reunião de produção do próximo show.

Sabiamente orientado por Dodi Sirena, empresário da maior competência, que acho que deu a ele uma grande tranquilidade em termos de estrutura, Roberto resolve hoje todo o seu repertório e comportamentos no show. É amparado por uma equipe da maior qualidade, da qual fazem parte o próprio Dodi, Lages, Césio, responsável pela iluminação e desenho de palco, e Genival Melo, o famoso Quem-Quem, que faz o som e muito mais. Essa equipe faz mais ou menos a arte-final do que Roberto pretende.

Durante seus dois últimos shows, fiz parte dessa equipe e das sugestões, mas pouco pude acrescentar. Acho que Ronaldo fez muita falta para mim e para Roberto. Sei que Roberto jamais iria me substituir e, então, quando convocado para a reunião do show mais recente, inventei outro compromisso. Acho que resolvi o problema de todos nós. Mas vou estar sempre na platéia para aplaudi-lo no palco, onde ele é soberano. O Rei.

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