Histórias de nuestra América (9)

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Por Eduardo Galeano

MONTEZUMA (Tenochtitlán – 1519) – Grandes montanhas chegaram, movendo-se pelo mar, até a costa de Yuacatán. O deus Quetzalcóatl está de volta. Os índios beijam as proas dos barcos.

O imperador Montezuma desconfia de sua sombra.

– O que farei? Onde me esconderei?

Montezuma quisera converter-se em pedra ou pau. Os bufões da Corte não conseguem distraí-lo. Quetzalcóatl, o deus barbudo, que tinha emprestado a terra e as bonitas canções, veio a exigir o que lhe pertence.

Nos antigos tempos, Quetzalcóatl tinha ido para o oriente, depois de queimar sua casa de ouro e sua casa de coral. Os mais belos pássaros voaram abrindo-lhe o caminho. Fez-se ao mar em uma balsa de serpentes e se perdeu de vista navegando rumo ao amanhecer. De lá, regressa agora. O deus barbudo, a serpente emplumada, voltou com fome.

Trepida o solo. Nos caldeirões, bailam os pássaros enquanto são fervidos. Ninguém haverá de ficar, havia pressentido o profeta. Ninguém, ninguém, ninguém de verdade vive na terra.

Montezuma enviou grandes oferendas de ouro ao deus Quetzacóatl, capacetes cheios de pó de ouro, patos de ouro, cães de ouro, tigres de ouro, colares e varas e arcos e flechas de ouro, mas quanto mais ouro come o deus, mais ouro deseja, e, ansioso, avança para Tenochtitlán. Marcha entre os grandes vulcões e atrás dele vêm outros deuses barbudos. Das mãos dos invasores brotam trovões que atordoam e fogos que matam.

– O que farei? Onde irei me meter?

Montezuma vive com a cabeça escondida entre as mãos.

Há dois anos, quando já se haviam multiplicado os presságios do regresso e da vingança, Montezuma enviou seus magos à gruta de Huémac, o rei dos mortos. Os magos desceram às profundidades de Chapultepec, acompanhados por uma comitiva de anões e corcundas, e entregaram a Huémac, enviada pelo imperador, uma oferenda de peles de presos recém-pelados. Huémac mandou dizer a Montezuma:

– Não tenha ilusões. Aqui não há descanso nem alegria.

Ordenou-lhe um jejum de manjares e dormir sem mulher.

Montezuma obedeceu. Fez penitência longa. Os eunucos trancaram a pedra e pau as habitações de suas esposas e os cozinheiros esqueceram seus pratos preferidos.

Mas então foi pior. Os corvos da angústia se precipitaram sobre ele. Montezuma perdeu o amparo de Tlazóltéol, a deusa do amor que é também a deusa da merda, a que come nossa porcaria para que o amor seja possível. E assim a alma do imperador se inundou, em solidão, de lixo e negrura.

Enviou novos mensageiros a Huémac, uma e outra vez, carregados de súplicas e presentes, até que no fim o rei dos mortos prometeu-lhe uma audiência.

Na noite combinada, Montezuma foi ao encontro. A barca deslizou até Chapultepec. O imperador ia em pé na proa, e a névoa da lagoa abria caminho a seu radiante penacho de plumas de flamingo.

Pouco antes de chegar ao pé do morro, Montezuma escutou um rumor de remos. Uma canoa irrompeu, veloz, e alguém resplandeceu por um instante na bruma negra: ia despido e solitário e erguia o remo como uma lança.

– És tu, Huémac?

O da canoa aproximou-se até quase roçá-lo. Olhou os olhos do imperador, como ninguém podia. Disse a ele: “Covarde”. E desapareceu.

A CAPITAL DOS ASTECAS (Tenochtitlán – 1519) – Mudos de tanta beleza, os conquistadores cavalgam pela estrada. Tenochtitlán parece arrancada das páginas de Amadís, coisas nunca ouvidas nem vistas nem mesmo sonhadas… O sol se ergue atrás dos vulcões, entra na lagoa e rompe em fiapos a névoa que flutua. A cidade, ruas, açudes, templos de altas torres, se abre e fulgura. Uma multidão sai para receber os invasores, em silêncio e sem pressa, enquanto infinitas canoas abrem sulcos nas águas de cobalto.

Montezuma chega em liteira, sentado em suave pele de jaguar, debaixo de um pálio de ouro, pérolas e plumas verdes. Os senhores do reino vão varrendo o solo que ele pisará.

Ele dá as boas-vindas ao deus Quetzacoátl:

Vieste sentar em teu trono – diz. – Vieste entre nuvens, entre névoas. Não te vejo em sonhos não estou sonhando. Chegaste a tua terra.

Os que acompanham Quetzalcóatl recebem grinaldas de magnólias, rosas e girassóis, colares de flores nos pescoços, nos braços, nos peitos: a flor do escudo e a flor do coração, a flor de bom aroma e a muito amarela.

Quetzalcóatl nasceu em Extremadura e desembarcou em terras da América com uma trouxinha de roupas ao ombro e um par de moedas no bolso. Tinha dezenove anos quando pisou as pedras do cais de São Domingos e perguntou: Onde está o ouro?

Agora cumpriu trinta e quatro e é capitão de grande ventura. Veste armadura de ferro negro e conduz um exército de ginetes, lanceiros, balestreiros, escopeteiros e cães ferozes. Prometeu aos seus soldados: Eu vos farei em tempo muito breve, os mais ricos homens de quanto jamais hajam passado às Índias.

O imperador Montezuma, que abre as portas de Tenochtitlán, acabará logo. Daqui a pouco será chamado de mulher dos espanhóis e morrerá das pedradas de sua gente. O jovem Cuahutémoc ocupará seu lugar. Ele lutará.

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