Mauro Rasi, o Pai do Besteirol

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Em uma de suas últimas entrevistas, Mauro Rasi conta tudo

Toda aquela emoção que você sentiu ao assistir peças como “Cerimônia do Adeus”, ou “Pérola”, de Mauro Rasi, foi meticulosamente estudada pelo autor, que aos 51 anos perdeu o pudor de dizer que escreve pensando na reação do seu público. Houve um tempo, diz ele, que a preocupação era parecer intelectual e inteligente. Hoje, quer apenas divertir a si e ao espectador, que vai ao teatro buscando entretenimento. “Sinto imenso prazer em escrever. Fico em casa imaginando como emocionar aquelas pessoas que foram ali me ver”, confessa, com o tom marcado e teatral que herdou da família italiana, de Bauru, interior de São Paulo.

O estilo, quase operístico, já serviu a espetáculos que deram origem ao rótulo “Besteirol”, no início dos anos 90. Eram comédias pertencentes àquele período em que era fundamental ser e parecer inteligente, colocando a agilidade mental a serviço de tiradas rascantes, de um humor fino que era só para os “informados”. Agora, com o sucesso consolidado, Mauro Rasi se despe de qualquer afetação para falar de si e dos “curtos circuitos” que o acometem apontando os temas sobre os quais vai escrever.

Foi assim, quando de volta do enterro da mãe, se viu às voltas com os pertences dela ainda espalhados pela casa, após o fulminante ataque do coração. Aquele ambiente lhe trouxe “Pérola”, a peça em que retrata a mãe, a quem ele descreve como “Uma Ava Gardner de um metro e meio”. Foi uma espécie de catarse. Passar a limpo de maneira tragicômica a saga da família Rasi, dar a conhecer ao grande público o cotidiano de uma família recheada de “tias” que tinham opinião formada sobre tudo, sempre emitidas “três tons acima”, aproximou o autor do sucesso, e da cidade onde nasceu e cresceu, na expectativa de ser um grande concertista.

O pianista desandou para um outro teclado, o do computador. Em compensação, o garoto de Bauru recriou em si uma cidade idealizada, que é aplaudida de pé todas as vezes que é levada ao palco. Principalmente se encenada lá, na Bauru real, hoje quase uma caricatura da que Rasi viveu. “Não gosto de falar da Bauru pequena, com prefeitos corruptos e um cotidiano sem graça”. Ainda bem. Para o público em geral, que se deliciou com a utopia recriada em suas peças, e para os conterrâneos, que adoram a Bauru pasteurizada, de Mauro Rasi.

Você se considera o lançador do teatro “besteirol”?

Não sei. Esse tipo de coisa é difícil de responder. Eu não me considero nada. Eu escrevo o que eu tenho que escrever, quando eu tenho que escrever, de acordo com a necessidade que eu tenho de fazer aquilo. Aliás, é o que eu mais me pergunto: Por que? Agora eu estou fazendo um musical e há três anos me pergunto o porquê de estar escrevendo isso. Onde eu quero chegar? Eu vejo o teatro e até as colunas do jornal O Globo que eu escrevo, do ponto de vista do entretenimento. Eu acho que nós temos que capturar o leitor e o espectador hoje. Não era assim. Antigamente eu pensava em termos de idéias, uma coisa mais rebuscada, intelectual. Hoje, não. A gente precisa diluir. Quem é inteligente é inteligente. É como na pesquisa, que só vale a pena se estiver a serviço da simplicidade. Do que adianta um catatau de informações que depois de 10 minutos vai cansar o leitor? E, esse meu “por que”, tem muito a ver com isso. Tirar uma pessoa de casa, ela se deslocar até o teatro, pagar 40 reais para assistir o espetáculo, o risco que isso implica, eu acho que isso gera uma responsabilidade muito grande. Então, eu fico imaginando o que me tiraria de casa, o que me levaria a fazer isso por outro. Tudo tem a ver com essa coisa do entretenimento. Me perguntar como é o começo, meio e fim das coisas. Um tipo de questão com a qual eu não me preocupava antes.

Você acha pejorativo esse termo, “besteirol”?

Não, acho justo. O besteirol não tem valor como obra. O valor dele está na circunstância, em quem fazia, quando fazia, porque fazia. É mais interessante a discussão sobre isso do que a coisa em si. Se botarmos um texto aqui em cima da mesa e lermos, é de uma indigência absoluta. Agora, você põe aquilo no contexto certo, na hora certa, com a pessoa certa e com a justificativa daquela época, aí existe alguma coisa.

De alguma forma você se coloca no lugar do público.

Exatamente. Isso tem um lado bom e outro ruim, porque também paralisa a gente. E, normalmente como eu também sou o diretor de minhas peças eu preciso pensar igualmente na forma, na estética. Não sou simbolista, o meu negócio é pegar as pessoas pelo coração. Eu faço comédia. E, comédia é que nem eleição direta, a pessoa ri ou não ri, não tem como tapear, fingir comédia.

Como que você justifica que as pessoas se identifiquem com a sua história, a história da sua família relatada em suas comédias?

Eu acho que quando a gente é verdadeiro em alguma coisa, sempre comunica. Eu vejo isso muito pelas colunas que eu escrevo. Eu posso escrever uma coisa que eu acho ótima, que eu ache bem escrita, mas se ela for muito de ficção eu não recebo nenhum e-mail. Agora, se eu for contar um determinado medo que eu tive, chove correspondência. É como se esse tipo de coisa criasse um elo com o leitor. Eu tenho a impressão que se eu escrevesse Juliano do Gore Vidal, não receberia nenhum e-mal. Mas, se eu escrever que o Juliano tem medo de fantasmas, que ele não pode abrir a geladeira, aí, pronto.

Como você escreve suas comédias?

Essa coisa da comédia é engraçada. Eu nunca escrevi piada, nem sei escrever piada. Eu gosto de humor de situação. Eu gosto de escrever uma situação que no meio da coisa você começa a rir porque ela já criou um segmento dramático tamanho que você ri. Ela não depende necessariamente de uma piada. Às vezes até tem uma piada, mas não é o meu forte. Além disso, minha família é italiana, o que já é meio caminho andado. Nela, você não sabe exatamente onde fica a fronteira entre a tragédia e a comédia. Tento escrever sem ser autoindulgente ou piegas. Muito pelo contrário, sou muito critico, principalmente em relação à família. Na minha peça “Cerimônia do Adeus”, a Simone de Beauvoir tem uma frase que diz: “Eu, como feminista, tenho como meta destruir a família. O problema é que ainda não achamos nada para por no lugar”. A observação crítica da coisa é que eu acho que enriquece muito a dramaturgia. O Fellini sabe muito bem disso. Na minha casa, por exemplo, tudo era três tons acima, ou três tons abaixo, sempre surpreendente, nunca lugar comum. Eu me lembro que quando fui dirigir “A Estrela do Lar”, eu tive uma grande dificuldade, a própria Marieta Severo foi muito paciente comigo por causa disso, porque eu queria fazer todos os personagens, queria falar do jeito que eles falavam. Por exemplo, se você escreve assim: “Estou com uma sede.” O máximo que você faz é colocar uma exclamação, mas na minha casa as pessoas falavam que estavam com sede parecendo que estavam chegando do Saara. Então, esse tipo de coisa que eu acho que manejando e observando direito que fica muito engraçado.

Como é o seu processo de criação?

Eu acho que há uma grande diferença entre um texto curto e um texto longo. Uma peça tem que ser algo que mexa com alguma coisa minha, pessoal, mas que eu sei que vou desenvolver ao longo de 80 páginas. Uma coluna já é diferente, é uma observação rápida onde eu tento dramatizar e extrair o máximo daquilo naquele espaço pequenininho. Alias, escrever para jornal me enriqueceu muito. Tem certas histórias que tem que ser contadas em uma página e meia. Mas, em geral, eu escrevo sobre fatos que estão enevoados na minha mente, dentro da minha vida e que entram em choque com alguma coisa, aí, dá uma peça de teatro.

Como se dá esse choque dentro de você?

Por exemplo, eu sempre gostei de política. Naturalmente, não política partidária, eu gosto da literatura política, dos bastidores, da fofoca, do que se pode dramatizar. Adoro história. Meu gênero preferido é história. Romance histórico é o que eu mais adoro. Biografia histórica. Do Gore Vidal eu leio tudo. Todas aquelas historias de Washington, dos presidentes, dos imperadores romanos. Então, eu queria falar sobre a Segunda Guerra Mundial, mas da minha maneira, naturalmente. Foi uma necessidade.

Você fez a música do espetáculo?

Eu sou músico, então fiz a música também. Agora, letra eu não sei fazer. Eu nunca li poesia na minha vida. É uma lacuna. Poesia e artes plásticas são duas áreas que eu precisava urgentemente dominar melhor. Eu nunca li Bandeira, não sou um daqueles que anda com um livro de poesia debaixo do braço ou um admirador da métrica poética. Aí, na hora de escrever música, eu danço. Eu chamei o Ronaldo Bastos, que é um letrista maravilhoso e é muito meu amigo. Então, eu escrevo a peça inteira, faço a música e quando chega a hora do personagem cantar eu falo para ele que o personagem está no Kremlin, que ela é a maior espiã da Internacional Comunista, só que ela foi proibida por Stalin de amar, que ela só pode fazer sexo. Então, tem um agente da KGB que vigia o coração dela e, se ela estiver “falling in love”, ele tem ordens de mata-la imediatamente. Conto tudo isso para o Ronaldo e ele faz a letra. Eu não sei fazer letra. Eu estudei música por 14 anos, piano regente.

Você é professor de piano?

Sou… Nunca dei aula de piano, mas tenho diploma.

Esse seu encaminhamento para a música foi uma opção sua?

Aí entra a origem italiana também. Meu avô ouvia muita ópera e eu tinha um tio que também ouvia muita ópera. Eu tinha um tio chamado Amadeu, era o homem mais rico da família e era pai de uma tia chamada Brunhild, que jogava, passava as noites jogando. E, esse meu tio estava doente. Diziam que ele esta fraco, com fraqueza, e ele tomava sangue. Eu suponho que fosse sangue de galinha. E, eu tenho muito essa imagem, e ele ouvia muito Macbeth, a ópera. A minha mãe tocava piano, as mulheres todas gostavam de música. Então, eu queria ser pianista, queria interpretar, ser Chopin. Calhou de eu ter uma professora completamente louca que acreditava que eu ia ser o Chopin. Você imagina lá em Bauru, com aquele calor, sem ar-condicionado, 46 graus, um Marrocos, aquelas salinhas de eucatex, aquela professora batendo o compasso e eu achando que era o Chopin. Isso com 8, 9 anos e fui até os 18.

E você saiu de Bauru com quantos anos?

Com 18 anos. Eu já queria romper com o piano, mas a condição da família foi a de que tinha que ter um diploma. Que fosse aquele então. Eu parei de estudar no terceiro clássico e tinha que tirar o diploma de piano. Nessa época eu já queria fazer revolução, fui para Paris, achava piano uma caretice. Me formei e fui embora. Fui para Paris dizendo que ia estudar, mas era tudo mentira. Eu falsificava os boletins do Conservatório de Paris. Eu nunca passei na porta do Conservatório. Agora, eu tinha boletim, eu me passava reprimendas… Pegava uma maçaroca de xerox e mandava para Bauru em troca de uma mesada. Eu consegui enganar eles por quase um ano. Daí, fui para Nova York e a máscara caiu. Eu até tentei repetir essa palhaçada lá, mas não colou. Então essa história de música ficou hibernando e quando a faceta é verdadeira, ela não apaga. E, há questão de uns seis anos atrás veio uma vontade de comprar um piano… Entrei em uma loja no Leblon e o vendedor era tão simpático que acabou me vendendo o piano. Já comprei três pianos nessa loja, comprei um sintetizador, já fiz uma pequena orquestra. A minha música já vem pronta e por uma questão econômica não dá para ter uma orquestra tocando. A minha música é meio metida a sinfônica. Eu escrevo música como se estivesse escrevendo uma peça. Então, ela tem harpa, fagote, oboé, influências da minha formação clássica.

Você saiu de Bauru, mas Bauru não saiu de você. Como você acha que as pessoas entendem essa sua Bauru que você passa o tempo todo?

Eu não sei se eu vou conseguir verbalizar isso direito. Quando eu descobri que o que a gente é o que a gente é e que é isso o que a gente deve ser… E, se tiver alguma chance de sucesso na vida, é por aí. Eu estava em Nova York justamente nessa época e andava com o Jorge Mautner, andava com muita gente inteligente. Eu só tinha 19 anos e ficava só ouvindo o que as pessoas falavam. Um era diretor de cinema, o outro era escritor, outro era não sei o que e eu não era nada e tinha que ficar ouvindo. Até que uma vez eu contei alguma coisa de Bauru e reparei que todo mundo prestava atenção. Então, eu falei, “nossa, acho que isso é o que eu tenho para dar”. Quando eu comecei a contar as histórias lá do quintal da minha casa, que o abacateiro caía… Aí, espertamente, também comecei a inventar. Vida e ficção se misturaram e estão misturadas até hoje.

E as Tias de Bauru? O Stanislaw Ponte Preta tinha a Tia Zulmira, o Veríssimo tem a Velhinha de Taubaté. Como é que você acha que as suas tias estão em relação a essas outras? No mesmo nível?

Para mim foi muito conveniente. Nós temos gente na área política maravilhosa. Eu acordo pela manhã e a primeira coisa que eu leio é Dora Kramer, Clovis Rossi, Tereza Cruvinel… Eu passei a ter esse gosto por causa do Carlos Castelo Branco, que comecei a ler e nunca mais parei. Mas eu não sou um especialista em política, o meu forte é a dramatização. Então, eu acho que as tias vieram a calhar nesse sentido. Para que eu imaginasse o que aquelas pessoas falariam, ou como agiriam em determinada situação.

A governadora eleita do Rio de janeiro, Rosinha Matheus, tem um processo contra a sua coluna.

Pois é. Mas quem escreve a coluna são minhas tias.

Qual o seu ponto de vista político? Você se considera um conservador, liberal, ou o que?

Dificilmente eu teria um partido, embora me identifique com alguns políticos e pessoas. Mas, é uma coisa mais geral. Eu luto por uma qualidade de vida crescente para mim e para todos. Eu acho maçante a discussão em si, o processo partidário, essa coisa toda. Eu gosto é da luta pelo poder, do elemento humano, do que se faz para ter poder. Eu tenho muito pudor em me comprometer com alguma coisa. Eu acho que se me comprometo perco a liberdade. Lógico que a gente é contra coisas como fascismo, ignorância…

O que você acha do Lula?

Acho o Lula uma figura interessante. Mas não vou além disso, eu não embarco nessa felicidade coletiva. Eu não consigo, não está em mim esse tipo de coisa. Torço para que tudo dê certo. É claro que quando o Arthur da Távola fala de ópera eu me identifico mais. Sabe aquele programa “Quem tem medo da música clássica?” Eu assisto.

Escrever Pérola e Cerimônia do Adeus foi uma homenagem ou exorcismo?

Um pouco de cada. Mas, eu quero insistir na questão da responsabilidade para com o publico. Se fosse só homenagem ou exorcismo ficaria muito egoísta e muito problema meu. A coisa tem que transcender o problema. Por isso que a fantasia é importante, o relato real, nada disso importa, mas o efeito teatral que se tira disso. O encantamento que você vai causar em uma hora e meia, duas horas. Isso que me interessa. Eu gosto de mentir, de fantasiar. Eu acho que o teatro é o teatro, não pode misturar com um relato psicanalítico. Eu acho que no fundo a gente acaba falando a verdade. A minha mãe verdadeira é a mãe que eu vejo. Aquela mulher italiana de um metro e meio que parecia a Ava Gardner. Uma mistura de Ava Gardner com Julieta Marzini, com temperamento da Dercy Gonçalves. Tinha olhos violetas lindos, das mulheres da Toscana, consideradas as mulheres mais bonitas da Itália. Ela usava um leque e falava com o leque. Tinha um “time”, um domínio teatral… E, não era vicioso.

 Você considera Cerimônia do Adeus sua melhor peça?

Acho que minha melhor peça é “Pérola”. O que é uma prova de que fórmula não se repete. A peça do meu pai não foi boa. Ainda tentei refazer, mas não se refaz uma peça. Ele tava doente e aí entrou a coisa da homenagem e ficou tudo amarrado. Quando você fica na obrigação de falar bem de uma pessoa às vezes acaba falando mal. Você falaria melhor se descrevesse a pessoa como ela é, de uma maneira distanciada, generosa. Foi muito complicado. A gente tem que estar atento para o que é significativo realmente e fazer aquela triagem. No caso da minha mãe, quando eu cheguei em casa do enterro dela eu decidi escrever uma peça. Ela teve um ataque no coração fulminante e meus pais tinham uma relação de 55 anos de casados. Eram apaixonados. Ela até dizia: “Entre os filhos e meu marido, fico com meu marido!”. Ela era honesta, já avisava. Por isso, eu e minha irmã voltamos para casa antes para limpar os vestígios da presença dela para não ficar muito doloroso para ele. Ainda tinha xícara de café manchada de batom, uma revista aberta em cima da mesa, um copo. Ainda havia uma presença muito dramática dela. Então, estávamos eu e minha irmã na cozinha quando ela abre a geladeira e começa a soluçar. Eu perguntei, “o que foi?” E ela: “A vodka da mamãe!”. Eu a abracei e comecei a chorar também. A minha mãe era uma festa! Algumas pessoas se preocupam com o missal da mãe, o véu da mamãe, a pantufa. Lá em casa era o dry martini da mamãe, a vodka. Agora, ela não era a Nancy Reagan, era uma italiana, que também vira a Nancy Reagan de vez em quando, mas não é afetada, nem falsa, é uma coisa normal. Depois, eu fui para o quintal, na famosa piscina que ela fez e que originou a peça “Pérola”. Ela brigou com a família inteira para fazer aquela piscina. A piscina é o elemento cômico da coisa. Ao invés de ser aquela prazerosa, a piscina se transformou em uma tragédia. Nem o Canal de Suez teve construção mais dramática. Ninguém tomava banho na piscina… Quando eu chego na churrasqueira, tinha uma tabuletinha de Araxá onde estava escrito: “Se a vida lhe der um limão, faça uma caipirinha!”. Minha mãe não era mulher de limonada. A correntinha da placa estava rompida e quando eu vi aquilo comecei a achar que ela tinha se partido na hora da morte dela e a peça veio. Depois o trabalho, naturalmente, foi ficar três meses tentando botar no papel aquilo que veio em três segundos.

Na época do besteirol as pessoas envolvidas colaboravam muito entre si. Escreviam esquetes juntos na mesma peça, um dirigia, o outro interpretava. Você ainda conserva esse espírito de colaboração?

Não. Agora a gente faz tudo sozinho. Escrevo uma coluna sozinho, dirijo minhas peças. No besteirol havia aquela união por razões econômicas. Todo mundo precisava um do outro para pagar aluguel, etc. Era um bando de gente esperta, inteligente, que se achavam maravilhosos, que tinha viajado, que não tinha um passado político. Naquela época tudo era muito compartimentado. Tínhamos 21, 22 anos e um já tinha morado em Londres, usado drogas. Não era a turma do Vianinha, era diferente. Mas, essa gente tinha que sobreviver e por isso inventávamos coisas.

A sua geração é a que participou de alguma forma da resistência contra a ditadura. Você nunca se interessou pelo tema, nunca se engajou?

Eu tinha medo. Eu morria de medo. Naturalmente, eu tinha consciência das coisas e por isso eu tinha medo.

Você acha que o teatro é capaz de mudar as pessoas? Acredita em teatro político?

Eu não acredito que é o teatro político que muda, mas o teatro mudou a minha vida. Não sei exatamente como responder isso. Eu, quando li “O inimigo do povo”, do Ibsen, mudei, ainda em Bauru. Foi quando eu levei meu primeiro banho de ética. Aquilo mexeu comigo. Agora, o teatro político na década de 60 fazia parte de uma tal agitação que eu não sei se ele mexia pelo que ele estava dizendo, ou se fazia parte de um grande pacote. Até o fato de a gente ir assistir uma peça já era um risco. Eu lendo Ibsen na minha casa, sem nenhuma pressão, a não ser a pressão da própria vida, tive aquela peça como a mais decisiva da minha vida.

O teatro de Mauro Rasi mudou a cabeça das pessoas de Bauru?

A minha relação com Bauru é meio “Cine Cittá” para mim. A Bauru real não me interessa. A Bauru esburacada, de prefeitos corruptos. Se eu for ver a Bauru real eu vou chorar, embora todo mundo lá represente muito para mim. A gente começa a cobrar… Cadê a biblioteca da cidade? Cadê o grupo de dança? Você não compra um livro em Bauru. Não existem livrarias. A gente sente falta até do Paulo Coelho, em Bauru. Numa cidade de quase 300 mil habitantes. Se eu for levar por aí vai degringolar. A minha relação com a cidade é uma relação de ficção, é um céu de veludo. Com a perda dos meus pais, o contato físico ficou reduzido a quase nada.

Seus espetáculos fazem sucesso em Bauru?

Eu posso fazer carreira em Bauru. As pessoas assistem 10 vezes a peça, se tiverem 10 apresentações. “O crime do Dr. Alvarenga” fez 25 sessões em Bauru, todas lotadas. Lá todo mundo vai gostar, a critica sempre fala bem…

Como é que você lida com a crítica?

Eu acho que a critica faz parte do jogo, que nem juiz de futebol, comentarista.

Você encara esse seu novo espetáculo musical como um desafio?

A gente não pode passar a vida inteira escrevendo sobre Bauru. Nesse musical, por exemplo, eu preciso achar a mesma verdade. Eu acho que nós temos várias origens e aí é uma questão de abrir mais o leque. O ponto inicial é aquele quintalzinho lá, mas aí você vai abrindo, abrindo… Eu preciso achar essa verdade, porque senão eu estaria condenado a escrever a vida inteira sobre a minha família. O título é “Ladies na Madrugada”. Um título emblemático que veio como uma mensagem. Em 1973, eu escrevi uma peça chamada “Ladies na Madrugada”, que se passava em um navio, e a gente tentou fazer em São Paulo. Foi um fracasso. Era uma coisa pretenciosíssima. Eu queria falar de política internacional, árabes e judeus. Foi por isso que vim para o Rio. Foi um fracasso tão retumbante que resolvi me mudar para o Rio de Janeiro. Eu resolvi manter o título, pois o acho muito lindo. Dessa versão antiga só estou mantendo o título. É uma comédia que se passa a bordo de um transatlântico italiano fascista, de luxo e chama-se SS Raquele Mussolini. Ele é uma resposta fascista ao Titanic. Esse navio está saindo de Buenos Aires, com destino à Genova, no dia em que a 2º Guerra foi decretada. É uma mistura de “La Nave Va” com “Quanto mais quente melhor”. São oito pessoas, eu posso fazer com oito, mas seria ideal ter mais oito de apoio para fazer a contra-regragem, eu teria bailarinos e pessoas para fazer a tripulação do navio. É completamente diferente de tudo que eu já fiz. Estou entrando em outras áreas que me interessam como a música, espionagem. Espero que se não gostarem do texto, que gostem da música.

Qual a sua relação com os gatos?

Agora tem cachorro também. Eu sou do interior e quem é do interior gosta de bicho. O gato não depende de nada. Há 25 anos atrás, eu ganhei o primeiro e eles são companheiros maravilhosos. Eu tenho uma gatinha que dorme comigo, fica o dia inteiro atrás de mim, uma coisa linda. Tenho um cão labrador que nada o dia inteiro. Agora, é água e vinho, né. O gato não convive bem com nada. Eu tenho quatro gatos e um cachorro atualmente.

Como foi que você começou a escrever crônicas em jornal?

A idéia foi do Mauro Ventura. Eu trabalhei no Jornal do Brasil durante três anos e já estou no O Globo há oito anos. Sempre me chamavam para escrever coisas. Um dia, o Mauro Ventura, que era editor do Caderno B, do JB, foi lá em casa e perguntou se eu não queria assinar uma coluna. Eu achei que não fosse conseguir escrever uma coluna toda semana, mas ele me deu a maior força. Às vezes não dá vontade de escrever nada, mas de um modo geral sai com facilidade. Tem algumas que faço com um prazer enorme, em outras preciso apelar para a inteligência, uma coisa bem construidinha. Eu gosto quando a coisa é engraçada, naturalmente engraçada.

Quais os autores que você gosta de ler?

Atualmente, eu estou perdidamente apaixonado pela P. D. James, a escritora inglesa. Eu fiquei louco quando li aquela mulher. Eu não entendo esse mercado editorial da gente. Dessa mulher está tudo esgotado, todo mundo procura e eles não editam mais. Estou apaixonado por ela. Acho uma autora maravilhosa. Na verdade o gênero policial nunca foi o meu forte, embora tenha lido Agatha Christie, como todo mundo. Mas, acho que a P. D. James é uma Agatha Christie misturada como Proust. Ela traça um panorama da sociedade inglesa que é fantástico. No começo da minha vida eu queria ser reconhecido como inteligente. Tem um personagem da literatura que dizia que iria ler tudo que foi escrito, de “a” a “z”. A vida não deu e ele morreu sem terminar a letra “c”. Eu me obrigava a ler. Chegou um certo tempo que eu dei um basta nisso. Leitura é prazer. É que nem tocar piano, ouvir música, que nem morar perto do mar, você não vai todos os dias, mas quando quiser ele está ali. A P. D. está muito bem traduzida pela Cia. das Letras. Eu acho que eu escrevo melhor depois que leio ela.

Você costuma de ler outros autores enquanto está produzindo um texto seu?

Para mim isso não trás problema algum. Eu vejo muita televisão também. Vejo até demais. E, vejo de tudo. Vejo TV Senado… Adoro ver a Heloisa Helena. Agora, é uma porcariada. Tem uma hora que irrita.

Você já pensou em fazer telenovelas?

Nunca pensei e acho que não faria. Acho que eu não saberia fazer, já estou muito velho.

Como você vê o teatro brasileiro de hoje?

Boa pergunta. É tão difícil eu sair de casa. Eu não sei, eu devo estar errado, mas eu não me sinto mais obrigado a ver nada. É como na leitura, tem que ser prazeroso. Tem certas coisas que eu já sei que não vão me agradar e eu não vou ver. Então, eu não saberia como falar sobre isso. Existem casos e casos. Acho que isso é um trabalho para especialistas, para críticos. Adorei “Novas Diretrizes em tempos de paz”, do Bosco Brasil.

O teatro carioca hoje é sustentado por senhoras de 60 a 70 anos e o público jovem está muito afastado dos palcos. Você também percebe isso?

O sucesso de uma peça hoje depende das vans. Tem que cair nas graças da classe média, na faixa etária entre 50 e 75 anos, do sexo feminino. Elas é que leem os tijolinhos nos jornais, elas é que vão ao teatro. Do dinheiro que eu recebo, 90% vem das mulheres. Nas minhas peças você só vê mulher na platéia. Os jovens querem ir para barzinhos. O sucesso no teatro hoje é você conseguir que a sua peça seja um evento. Não existe mais o público de teatro. O que é importante agora é a camisa da pessoa, o corte de cabelo, se tem barriga ou não.

 

(Entrevista realizada em 5 de dezembro de 2000, com a participação de Carlos Eduardo Novaes, José Louzeiro, Jacqueline Laurence, Sérgio Fonta, Luiz Carlos Saroldi, Denise Assis e Pedro Ivo Vianna. O dramaturgo Mauro Rasi morreu aos 54 anos, na tarde do dia 22 de abril de 2003, vítima de um câncer de pulmão. Ele era roteirista, teatrólogo e cronista do jornal O Globo.)

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