Match de araque: criminosos descobrem o Tinder

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Por Eduardo Gonçalves

Brasileiros, o mundo inteiro sabe, adoram uma rede social. Em número de usuários, o Brasil ocupa o segundo lugar no Facebook, no Twitter e no Instagram, atrás apenas dos Estados Unidos. No Tinder não é diferente. Para quem acaba de desembarcar de Marte: trata-se de um aplicativo destinado a reunir pares de almas solitárias ou nem tanto, para fins que variam de uma noite de sexo a romance e casamento, a depender da intenção dos envolvidos. A seu dispor, os usuários têm um cardápio de candidatos montado de acordo com os filtros que cada um define (profissão, características físicas e tudo o mais que se leva em conta na hora de escolher um amor ou alguém para dividir a conta do bar). Se acontecer de A gostar de B e B gostar de A, o aplicativo detecta a coincidência de gostos e… match! — o resto é por conta de A e B.

O Brasil registra 7 milhões de matches por dia só no Tinder, sem contar os outros apps do gênero, como Happn, Badoo, Skout e Grindr, esse último voltado ao público gay. Mas não são apenas os brasileiros ávidos por contato humano que descobriram o potencial desses aplicativos. Os criminosos também. Os golpes aplicados por meio do Tinder e congêneres são diversos, vitimam tanto mulheres quanto homens e estão se disseminando rapidamente. Só a divisão de crimes eletrônicos do Departamento de Investigações Criminais de São Paulo registra cinco deles por mês. Aqui, os mais comuns.

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O DOM-JUAN

O personagem é velho como o mundo. De maneiras gentis e fala encantadora, ele se aproxima de mulheres solitárias, diz coisas doces, faz mil promessas e arrebata-lhes o coração, para então bater-lhes a carteira. No ramo do estelionato, o golpe do conquistador não só continua fazendo sucesso como acabou beneficiado pela tecnologia. João Luiz Melo de Souza, por exemplo, um moreno musculoso e semicalvo nascido no Ceará, usou o Tinder para enganar mais de quarenta mulheres em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Brasília. Em geral, suas vítimas eram recém-separadas na faixa dos 35 aos 50 anos. Delas, Souza, de 49 anos, levou 1 milhão de reais, segundo cálculos da polícia.

O dom-juan cearense, como o apelidaram os policiais, foi preso em agosto. Ele se apresentava no Tinder como um coronel do Exército lotado na Agência Brasileira de Inteligência (diante de suas vítimas, o disfarce ajudava a justificar as ausências frequentes e a resistência a dar detalhes sobre o seu trabalho). “Era um cavalheiro. Dizia que sonhava comigo grávida e vestida de branco. Falava o que toda mulher quer ouvir”, conta Sirleide (nome fictício), professora carioca de 39 anos. “Ele já chegou sabendo das minhas preferências e gostos. Fiquei apaixonada”, disse. O relacionamento com o golpista durou um mês, tempo suficiente para que Souza levasse dela 4 000 reais, a pretexto de saldar contas urgentes (o salário na Abin “estava atrasado”).

Para evitar que suas histórias provocassem suspeitas, o dom-juan tinha um truque na manga: mantinha dezenove perfis falsos no Facebook — todos “amigos” de seu personagem. À menor desconfiança de uma das vítimas, um desses amigos casualmente postava mensagens fazendo referência aos “problemas financeiros” de Souza ou à recente paixão que acendeu nele a vontade de se casar e ter filhos. No mesmo mês em que o cearense foi detido, a polícia, dessa vez em Santos, no litoral paulista, prendeu dois outros homens pelo mesmo motivo: aplicação de golpes contra usuárias do Tinder.

Os dom-juans do Tinder nem sempre falam português. A servidora pública Carolina, de 41 anos, conheceu em julho um homem que se identificava como Michael Kalvin, engenheiro civil de Cardiff, na Grã-Bretanha. Após longas conversas, ele afirmou que desejava encontrá-la e, para isso, mandaria o equivalente a 27 000 dólares para custear sua viagem ao País de Gales. Comparsas de Kalvin ligaram para ela identificando-se como funcionários da alfândega e dizendo que ela teria de fazer um depósito de 1 780 dólares para liberar um pacote que havia chegado da Inglaterra (e que supostamente traria o dinheiro da viagem). Carolina só não pagou a falsa taxa porque encontrou o perfil de Kalvin em um site que expõe criminosos virtuais. Mas nem todas têm a mesma sorte. A Polícia Civil de São Paulo tenta rastrear um estrangeiro que levou 57 000 reais de uma mulher de 56 anos a quem prometeu enviar 900 000 dólares de uma suposta herança. A vítima chegou a receber um cofre — cheio de notas falsas.

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O ASSALTANTE

O estelionato não é o único crime que se beneficiou de aplicativos como o Tinder. Os assaltantes que atacam suas vítimas em casa depois de marcar um encontro amoroso com elas também saíram ganhando. O jornalista Fernando (o nome é fictício), de 26 anos, foi vítima de um deles. Após um dia de bate-papo e algumas fotos trocadas pelo Grindr, ele concordou em receber em seu apartamento, no centro de São Paulo, um jovem que se apresentava como “Caio”, publicitário. Em 29 de junho, “Caio” chegou no horário combinado, subiu ao apartamento e — primeira conclusão de Fernando — parecia bem diferente do que era nas fotos. Passados alguns minutos, ele pediu para ir ao banheiro e, ao voltar, sacou um revólver e anunciou o assalto. “Disse que eu era um babaca, que me mataria e que havia um comparsa dele esperando lá embaixo”, conta Fernando.

Em quinze minutos, “Caio” encheu uma mala de academia com três notebooks, um iPhone, um tablet, dois perfumes e deixou o prédio. Fernando chegou a ir à polícia para entregar o número do celular, fotos e a descrição do criminoso, mas foi avisado pelo delegado de que casos dessa natureza dificilmente são resolvidos. E qual a culpa do Grindr nisso? “Bem, se eu tivesse visto esse rapaz num bar, sem os truques que ele usou para alterar as fotos que me mandou, nunca o teria levado para o meu apartamento. Não fazia o meu tipo”, diz Fernando.

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A PIRIGUETE

Na noite desta terça-feira, 30, um empresário de 69 anos foi esfaqueado dentro de casa em um condomínio de luxo na zona Oeste do Rio. Roberto Del Cima foi surpreendido por uma mulher de 22 anos – conhecida apenas por Vivian – que ele encontrou pelo Tinder. Del Cima foi esfaqueado diversas vezes em seu quarto no Condomínio Santa Mônica Jardins, na Barra da Tijuca, informou a Polícia Civil. O empresário marcou um encontro com Vivian, que levou consigo um comparsa, que teria se escondido dentro do porta-malas do carro em que a suspeita chegou.

A empregada doméstica de Del Cima é a principal testemunha ouvida pelo 16º Departamento de Polícia. Ela contou que Vivian chegou às 22h e jantou com o empresário antes de subirem para a suíte. Por volta da 1h30, ela ouviu o empresário gritar por socorro. A funcionária saiu de seu quarto e chegou a ver o comparsa subindo a escada que levava ao dormitório do empresário. Ela, então, fugiu pelo telhado da casa, pulou o muro e pediu ajuda na portaria do prédio. Antes que a polícia chegasse, o casal fugiu em um Jeep Renegade branco levando consigo joias, relógios e um laptop.

Revirada, a suíte ficou suja de sangue, que ficou espalhado pelo closet e banheira de hidromassagem. Del Cima ainda não foi ouvido pela polícia porque segue internado no Hospital Barra D’Or. Seu quadro de saúde é estável. O crime foi registrado como tentativa de latrocínio. Os oficiais pediram acesso às câmeras de segurança do condomínio e já suspeitam da identidade do comparsa. Procurado, o Tinder não se manifestou até o fechamento da reportagem.

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