Manifesto a favor da dedada

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Por Xico Sá

Nem sei se trata de costume de todo território nacional. Falo da dedada, saudável hábito infanto-juvenil de aplicar o fura-bolo ou cata-piolho, ou a própria mancheia, na retaguarda do desprevenido colega de escola ou de rua. Hábito norte-nordestino por excelência.

Hora do recreio. Pedagogia do macho oprimido. No tempo em que se dizia: “Ou você dá quando é pequeno, ou vai dar quando crescer.”

Macho que se achava com vocação de macho optava por um troca-troca caseiro – claro que, quando tinha oportunidade de fugir, fugia.

Era assim: no par ou ímpar tirava-se quem iria comer. O que comia, comia. E disparava em desabalada carreira na aurora dos dez anos, onze anos. Quem não era vítima hoje, seria vítima amanhã, fatalmente. Ou por gosto ou por ação coletiva dos sofredores reunidos.

Hoje, o troca-troca e a dedada são raridades no imaginário Museu de Tudo do Homem.

Por isso, arrisco uma antropologia barata: a falta da dedada tem feito crescer o índice de viadagem no Brasil, especialmente no Nordeste. O cara fica distanciado de qualquer contato do gênero e, quando parte para a festa, vai logo para a locação de Querelle propriamente dita. Marinheiros corações.

A dedada representava o grau zero da macheza. Até podia despertar nalguns o desejo irrefreável de liberar o oiti para o próximo. Na maioria das vezes, no entanto, causava o desconforto educativo que apontava para a reintrodução da vontade do super-homem, a fissura nietzschiana e duradoura dos bofes de todos os trópicos.

Ah, que merenda escolar que nada, o que faz falta nos recreios é o saudável hábito da dedada. Calorias a gente recupera depois, a lúdica brincadeira dos pátios nunca mais.

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