Mais uma obra de facção

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O Brasil é o país das oportunidades. É só pintar uma oportunidade que o preso foge da cadeia

Eis que surge uma luz no fim do túnel! Uma réstia de luz no buraco escuro da desesperança em que estou vivendo! Chega de viver neste miserê sem fim! A solução para os desempregados no Brasil é todo mundo ir para a cadeia! Só assim o cidadão garante 5 mil e oitocentos por mês, sem contar a bolsa presidiário, visita íntima, banho de sol e outros sidebenefits da atividade prisional. Sempre fui um sujeito empreendedor, adepto da livre iniciativa capitalista e da destruição criadora schumpeteriana, e por isso mesmo já resolvi: vou ser preso e fundar a minha própria facção.

Nada de abrir franquia do Habib’s, inaugurar igreja evangélica, fundar partido político e outras contravenções de “miserinha”. Tem que pensar grande! O negócio mais lucrativo no momento é fundar uma facção na cadeia. E desde já conto com os meus 17 leitores e meio como fiéis seguidores em regime fechado (não se esqueçam do anão, que vai cuidar da filial da FEBEM). Está formado o bonde da CAGADA, Comando dos Amigos Gatunos do Agamenon.

Isaura, a minha patroa, vai ficar encarregada da logística. A incansável criatura é especialista em entrar em presídios de segurança máxima portando objetos dos mais diferentes tamanhos, comprimentos e calibres, devidamente malocados em partes remotas de sua anatomia íntima.

Preocupado com a violência nos presídios, o governo já avisou que vai regulamentar a atividade de facção criminosa no país. Já tem facção demais funcionando e nem todas são capazes de atuar de maneira adequada no ambiente prisional. Já está começando a virar bagunça.

Tem muita facção aí que não sabe nem diferenciar o que é um esquartejamento de um empalamento ou uma degola de uma decapitação. O “presidialismo de coalização” não suporta mais tantas facções de aluguel, que não representam a criminalidade de nossa sociedade. É preciso urgentemente criar uma cláusula de barreira!

A partir de agora, as facções vão ter que ter alvará de funcionamento e autorização do Corpo de Bombeiros para botar fogo nos colchões. Os membros das facções vão ter que usar crachá de identificação e pagar o Sindicato do Crime, o SindiCrime, filiado à CUT. Uma vez regularizadas, as facções vão poder ter acesso às verbas públicas, com direito de captar recursos pela Lei Rouanet. A Tramontina das facas e a Taurus dos revólveres já se mostraram interessadas em apoiar projetos nos presídios brasileiros desde que possam descontar do imposto de renda.

As facções legalizadas vão poder se apresentar no Esquenta da Regina Casé e no Caldeirão do Huck como legítimas manifestações culturais brasileiras. O antropólogo do funk, Hermano Vianna, vai escrever um livro e o fotógrafo Sebastião Salgado vai fazer uma exposição na Tate Modern de Londres.

(*) Agamenon Mendes Pedreira é membro esquartejado de uma facção penitenciária.

Por Agamenon Mendes Pedreira (*)

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