Maca lá e Macca aqui

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Em meados dos anos 70, o cantor paraense Maca Maneschy se estabeleceu em Manaus e montou um barzinho descolado no terraço superior de uma casa residencial, em frente do atual prédio da Sefaz, apropriadamente batizado de Terraço. Que eu lembre, foi o primeiro lounge da cidade. Na frente dele, o charmoso e intimista Porão, na Sete de Setembro, na época o melhor barzinho da cidade, era uma quadra coberta de escola de samba.

Embebido na tradição da bossa nova, com uma predileção especial pelas músicas de Tom e Vinicius, Maca transformou seu Terraço no ponto mais descolado da cidade, em plena vigência dos anos de chumbo. Todo bossa novista de responsa (Anibal Beça, Rinaldo Buzaglo, Celito, Paulinho Kokai, Paulinho Bossa Nova etc.) passou por lá.

Inúmeras vezes, eu, Mário Adolfo, Renato Bahaí, Carlão Dias e Inácio Oliveira saímos de lá, completamente bêbados, com o dia já amanhecendo, cantando a plenos pulmões: “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz do coração. Porque o samba é a tristeza que balança, e a tristeza tem sempre uma esperança, a tristeza tem sempre uma esperança, de um dia não ser mais triste não”. Sim, éramos todos jovens!

Cerca de dez anos depois, surgiu na noite manauense um outro cantor chamado Macca (aka “Uézelis”), que ganhou esse apelido jogando futebol de salão no Rio Negro, em parte porque era branco como “macaxeira”, em parte porque também gostava muito de ganja (“macaxeira”, no dialeto jamaicano).

Diferente do Maca paraense, que fazia o estilo banquinho e violão, o Macca amazonense tinha um background musical de cantador de blues e era simplesmente arrebatador quando pisava em um palco. Suas interpretações lascivas provocavam orgasmos múltiplos na mulherada.

Em 1989, o cantor e compositor Mário Jackson emplacou o blues “Pra Não Morrer De Frio”, no Festival da Canção de Itacoatiara (Fecani), e convidou Macca para interpretar a canção. Durante uma entrevista do cantor na TV RBN, a jornalista Leda Caminha fez uma daquelas perguntas-cabeça aprendidas nas faculdades de Comunicação:

– Mas, sim, Macca, o que você faz pra não morrer de frio?

– Eu ponho um blusão! – devolveu Macca.

E começou a cantar o blues a plenos pulmões. A jornalista quase saiu correndo do estúdio.

Além de puta intérprete, o sacana também era espirituoso.

A apresentação no Fecani foi um sucesso: ele ganhou como melhor intérprete e artista revelação, e a música ainda levou o prêmio de melhor arranjo, mas, na classificação geral, estacionou em um modesto quinto lugar. Definitivamente, julgar com isenção nunca foi o forte do Fecani.

(Abre parêntesis, rapidinho. Em 2005, a melhor intérprete do Fecani foi uma sul-coreana que no lugar de cantar “meu coração” cantava “mia colação”. Parece que a tal de “boa dicção”, um dos atributos julgados na interpretação, não foi levado em conta. Fecha parêntesis.)

A partir de 1989, Macca virou figura carimbada no Fecani, ora ganhando todas como intérprete, ora sendo convidado para fazer apresentações “hors-concours”. E, quando estava em Itacoatiara, sempre se hospedava no hotel do Cirino, que ficava possesso com o cheiro de “incenso de manga-rosa” que saía noite e dia do quarto do cantor.

Um dia, os compositores paraenses Pedrinho Cavallero e Euros Fraga, que iam se apresentar no Fecani, chegaram com suas tralhas no hotel do Cirino, se identificaram e cantaram a pedra:

– Parceiro, nós somos de Belém e estamos chegando agora. O Bruno Azedo disse que reservou três quartos. Acontece que ocorreu um imprevisto em Manaus e o Maca vai chegar um pouco atrasado, mas nós já trouxemos a bagagem dele para o senhor colocar no quarto – explicou Pedrinho.

– Olha, eu reservei dois quartos pra vocês aqui embaixo! – avisou Cirino, entregando as chaves. – Mas o Macca vai ficar isolado num reservado que fiz no terceiro andar, porque ninguém aguenta mais aquele fumacê medonho que ele vive provocando…

Euros Fraga olhou espantado para Pedrinho Cavallero e começou a fazer força para não rir. A ficha havia caído.

– Não se preocupe não, parceiro, pode arranjar um quarto pro Maca aqui embaixo, sem problema! – explicou Fraga. – Esse que veio com a gente é o Maca paraense, não é o Macca amazonense não. O Macca de vocês fuma, o nosso Maca cheira…

E os dois explodiram numa gargalhada, por conta do trocadilho infame.

Além de putas intérpretes, os sacanas também eram espirituosos.

Maca Maneschy continua firme e forte cantando nas noites de Belém. O Uézelis Macca continua fazendo o mesmo nas noites de Manaus.

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