Luiz Gonzaga

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Por Tárik de Souza

“Vai boiadeiro que a noite já vem / guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem”. “Meu prefixo é o Boiadeiro, do Armando Cavalcanti e Klecius Caldas, porque tem uma mensagem para qualquer tipo de vaqueiro, seja do norte, do centro ou do sul.”

Em suma, abrange o público que sempre permaneceu fiel ao pernambucano de Exu, Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido em 1912, estivesse ele na moda, como na década de 40, quando as 17 prensas da fábrica RCA trabalhavam só para seus discos (“Mr. Linderman quis saber o que havia. Foi a única vez que eu conheci meu patrão americano”, ironiza ele), ou em período de entressafra, mais ou menos de 56 a 68, quando o baião, considerado exaurido comercialmente, foi exilado para o interior do País.

– O rádio não me chamava mais, a TV não pagava e eu, como cantor regional, tinha que me espalhar, procurar minha gente, minha região. Cheguei a fazer uma excursão que durou um ano inteiro.

No auge da importação do rock, em 68, surgiu o boato de que os Beatles teriam gravado Asa Branca. Fã de Gonzaga desde a mais tenra infância, aproveitei o mote para entrevistá-lo em sua casa na Ilha do Governador. Recebeu-me com vitalidade e o bom humor que seriam constantes em nossos encontros seguintes: “Agora eu quero ver se os Beatles vendem mesmo. Só a minha gravação tirou 2 milhões de cópias”. Infelizmente (também para os Beatles), “o fole que eles usam, assemelhado a nossa sanfona”, não descobriu o baião.

Em compensação, impulsionado pelas bençãos do tropicalismo (em parte, discípulo da revolução Beatles), o velho Gonzaga, em março de 72, dirigido por Capinam, pisou pela primeira vez os palcos da platéia universitária, no Tereza Rachel, no Rio. O nome do show era Luiz Gonzaga Volta pra Curtir. Colhi depoimentos do “rei do baião” nesses dois momentos e, acima de tudo, me impressionou o artista consciente de seu público. E mais: intimamente identificado com ele.

Só em Recife, o circo já havia desabado duas vezes por causa do excesso de lotação que ele provocava. Certa vez, em Fortaleza, dirigiu-se à praça onde noticiaram seu espetáculo circense. Não viu lona, mas um grande ajuntamento. “Cadê o circo?”, perguntou. “Era aqui”. E Gonzaga cantou, mesmo no meio da praça.

– Todo artista tem seu público. Por isso, não apareço em programa dos outros. Imagine você, num programa de Vanderlei Cardoso, aparece lá o velho Luiz Gonzaga. O público que não pagou para isso não vai gostar, e lá vem a vaia. E eu nunca fui vaiado. Conheço bem o meu público e canto só para ele. Estou à vontade. Posso dizer até merda, que ele não se ofende.

Ou pode ir além, como aconteceu num circo, no interior de São Paulo:

­– Foi o locutor anunciar, ‘e agora Luiz Gonzaga, o rei do baião’, puxei a sanfona, dei aquele acorde, tuuuuu,, e um gaiato gritou de lá antes da primeira frase da música, que ele sabia que eu ia cantar: ‘Vai boiadeiro que a noite já vem…’. Fiquei sem saber o que fazer… a negrada rindo de mim, mangando de mim à vontade. Quando eles pararam de rir, perguntei: ‘Posso continuar?’ ‘Poooode’. Aí eu – obrigado – tuuuuuuuum, Vai Boiadeiro, que o boi já te viu/ guarda o teu gado e vai pra… ah, ah, ah, antes de completar, o cara respondeu lá – ‘puta que o pariu’ (gargalhada). Quase não trabalhei, que o povo não parava de rir tanto.

Em contraste, a música que Gonzaga considera a mais importante de seu repertório, Triste Partida, do cantador Patativa do Assaré, provoca muita tristeza, principalmente cantada no nordeste. Descreve a saga desse “povo tão bravo/ vivendo como escravo/ no norte e no sul”. Antes de cantar ele conversa com seu povo:

– Olha, essa música é muito longa. É uma história verídica, vinda da minha gente, merece muita atenção, muito respeito. Peço aos que não estejam interessados pelo número, que respeitem os que sentem essa música… Eu nem olho para o público, porque vejo um chorando lá, vejo outro tirar o lenço… então, evito de encarar. Senão, também vou me desmanchar, né?

Seus shows sempre foram dirigidos ao público interiorano, o mais amplo possível. Em geral, recém-chegado numa nova cidade, ele se hospeda num hotel – “deito na rede” –, enquanto o pessoal da publicidade aluga o cinema local – “pagando adiantado” – e anuncia sua presença nos alto-falantes.

– O pessoal que vai ao teatro, só vai para ver Luiz Gonzaga. Assim a apresentação é sucesso garantido.

Outro esquema muito utilizado é o dos espetáculos gratuitos, em praça pública, financiados por produtos comerciais.

– É o meu preferido, porque é livre, diverte os que não podem pagar, e o povo vai em massa.

Pilhas Eveready, Cinzano “e todas essas aguardentes famosas aí” já patrocinaram excursões de Luiz Gonzaga. Com isso, poucos artistas podem somar uma audiência tão vasta e fiel: “O público do interior prefere sempre aquele artista que viu pessoalmente”. E o “rei do baião” por sua vez, nessas ocasiões, malandramente, prefere cantar em caminhões, em vez dos palanques.

– No caminhão, a gente pode dizer: ‘aqui não sobe ninguém’. Quando é palanque, já armado para a prefeitura, o povo invade antes, e não sobra lugar para o cantor. Com a minha prática, peço logo um caminhão, com o chofer lá e o dono tomando conta. Porque nem eu nem o dono do caminhão queremos que ninguém suba, e fica uma certa liberdade, Nós convidamos aquelas pessoas que ficam próximas, uma autoridade, o prefeito, o delegado, também o pároco da cidade, para que eles me apresentem.

Gonzaga evita cantar em clubes, porque não reconhece seu público nessas audiências seletas. Arremeda:

– Essas sociedades, num sei que de tênis…iacht club, iii. A juventude geralmente é nervosa, debochada. Aqueles prodígios de juventude geralmente é nervosa, debochada. Aqueles prodígios de inteligência, de esportividade…Há indiferença com o artista. Sempre tive medo desse tipo de sociedades. Clube de futebol, Nossa Senhora! Deus me livre! Eu me pélo. Prefiro ir cantar na concentração, lá onde estiver o jogador. Cantar de graça. Quando me convidam, até tremo, porque as poucas vezes que eu fui só fazem dizem: ‘Quem é esse cara?’…

Ele acredita na identidade imediata entre o palco (seja ele qual for) e a platéia.

– Já disse um poeta gaúcho que poesia não anda de avião, anda em lombo de cavalo. Eu costumo dizer que lá no Sertão, a poesia ainda está com aqueles violeiros que viajam a pé ou em lombo de jumento. Esses são os verdadeiros poetas.

Outro mandamento importante em seus espetáculos é a espontaneidade.

– Nunca tenho a pretensão de dizer se o público vai participar. Não provoco o público – aquele negócio chato de dizer… Olha, tem um corinho aí, eu preciso de vocês… Eu vou na minha. O primeiro toque que aparecer, eu entro ali.

– Termino o show quando sinto aquela moleza, o público não se afasta em consideração ao artista. É o artista, em consideração ao público, que tem que se afastar, porque ele já deu o recado. Esse momento é quando eu sinto que já cantei as coisas mais importantes e preciso começar a rebuscar aquelas que não são de grande interesse. Mesmo porque tenho sempre necessidade de deixar um pouco para a volta, porque estou sempre voltando.

Com esse expediente, Luiz Gonzaga acumulou um conhecimento de todas as cidades do interior brasileiro com mais de quatro mil habitantes. Em 68, ele mantinha um programa de hora e meia na TV, no Rio, aos domingos (18:30 às 20 horas). A maior atração era o quadro Homem Mapa, onde o próprio Gonzaga submetia-se a uma sabatina geográfica minuciosa do auditório. Quando errava, os espectadores ganhavam prêmio, o que raramente acontecia.

Tanta popularidade, obviamente, acabaria despertando a cobiça dos políticos para os quais o velho sanfoneiro nunca se fez de rogado. Além de eleger sua esposa, Helena Gonzaga, vereadora da cidade fluminense de Miguel Pereira (“com 80 votos”), ele ameaçara várias vezes candidata-se, por partidos diferentes. Da mesma forma, participou de quase todas as campanhas políticas feitas no País. Entre elas, as de Jânio Quadros, Carlos Lacerda e Getúlio Vargas, cujo jingle ainda se lembrava quando conversamos, em 68:

– Getúlio presidente / Adhemar senador / Lucas Garcez para Governador / PTB, PSP, os dois estando juntos / nós vamos vencer.

Uma de suas canções mais famosas – se é possível destacar uma entre mais de centena –, a Paraíba, em parceria com Humberto Teixeira, também foi proveniente de uma campanha política. Seu êxito, no entanto, transcendeu às expectativas e ao próprio político homenageado. Poucos sabem dessa história:

– Foi um jingle que fizemos para a campanha política do Ministro Pereira Lyra, chefe do Gabinete Civil do Governo Dutra. Ele se candidatou a senador para disputar com o Zé Américo e nós fizemos esse baião para ele. Fomos à Paraíba numa turma boa e quem cantou foi a Emilinha Borba. Como o sucesso foi muito grande, quando voltamos, eu disse pro Humberto: ‘Esse baião vai dar também pro comércio’. O Eta Pau Pereira era homenagem ao Pereira Lyra. Tinha uma rima com senador, Aliás, duas expressões que eu criei acabaram ficando pejorativas, negativas. Uma foi ‘paraíba, mulher macho’. Outra foi ‘pau-de-arara’. Essa eu descobri no meio do povo, era pejorativa mesmo. Porque o povo viajava de caminhão e aqueles caminhões eram imundos, parecia mesmo um pau-de-arara, onde a arara fazia todas as necessidades.

Também no mercado de discos, Luiz Gonzaga permaneceu fiel ao baixo poder aquisitivo de seu público: muito tempo depois do aparecimento do elepê nas lojas brasileiras em 58, e da substituição dos 78 rotações por compactos, no início da década de 60, Gonzaga continuava registrando suas músicas no processo antigo. Muitos elepês foram remontados com os 78 rotações copiados dos colecionadores. Em dois deles, a mocinha vestida de roceira na capa era Rosinha, a Rosa Maria, filha do casal (nascida em 51), Luiz e Helena (ela também pernambucana). O outro, Luiz Gonzaga Jr., cursava Economia em 68 e Dona Helena falava com carinho do “filho adotivo”, que iniciava-se nos festivais através da canção de protesto: Pobreza por Pobreza.

Um retrato enorme, a cores retocadas, tomava a parede da sala principal do pequeno apartamento onde moravam, no Cocotá, Ilha do Governador. O terraço era reservado por Dona Helena para instalar “o Museu Luiz Gonzaga”. Ao contrário, o sanfoneiro, que nunca deixou de voltar à sua terra, queria fazer o Museu em Exu, associando-se com as duas outras figuras mais marcantes do nordeste, Padim Ciço e Lampião.

Aliás, foi uma sanfona de oito baixos, igual à de seu ídolo Lampião, o primeiro instrumento de Luiz Gonzaga. Era presente de Sinhô Aires, o dono da propriedade onde vivia a família Nascimento com seu patriarca Januário, estimado sanfoneiro. Sinhô Aires era advogado rábula, e Luiz Gonzaga seu espoleta. Tinha por função seguir o advogado e seu cavalo, num burrinho, prestando-lhe toda a assistência, como um secretário. O nome espoleta vinha também de sua posição, “o que dispara atrás”. Januário, sanfoneiro de forrós (bailes pesados que acabavam em brigas), foi a maior influência musical de Luiz Gonzaga, celebrada, inclusive mais tarde, no baião Respeita Januário (“Tu pode ser famoso/ mas teu pai é mais tinhoso/ e com ele ninguém vai / Luiz respeita os oito baixos do teu pai”).

O “rei do baião”, porém, só começou a aspirar ao cetro quando imigrou, como qualquer retirante, a fim de tentar a vida. No sul de Minhas, servindo ao Exército, tocava para os outros soldados. Deu baixa, e no Rio, sobrevivia como músico ambulante das zonas do baixo meretrício e portuária. Seu repertório era o solicitado pelos marinheiros: o hit parade internacional da época. Uns universitários cearenses frequentadores do local (entre eles, o posterior Ministro da Justiça dos Governos Juscelino Kubitschek e Geisel, Armando Falcão), forçaram-no a tocar “algo lá do nosso pé-de-serra”. Foi preciso muita insistência, porque Gonzaga não achava o acordeão, “instrumento de músico da cidade”, adequado àquele tipo de música. “Lá no Sertão, é só fole… O fole está para o acordeão como o pife (N.R.: Pífano) está para a flauta.” A necessidade desfazia a timidez e Gonzaga logo ficou a vontade.

– Toquei então as coisas que eu tinha vergonha de dizer que eram minhas. Nem sabia que era autor de certa coisa que eu fizesse. Eu fazia lá no Sertão e soltava por lá mesmo. Isso é seu? É do povo. Quando comecei a procurar os parceiros é que eu vim a saber que o que eu tinha era meu mesmo.

Revelado como instrumentista no programa de calouros de Ary Barroso, ele começou a criar estilo, pensando num contraste com o grande ídolo regional dos 40, o gaúcho Pedro Raimundo.

– Ele vestia bombacha, guaiaca, cantava e improvisava. Achei que ele era um artista extraordinário, e eu poderia ser o Pedro Raimundo do norte. Mas, assim que eu botei o chapéu de cangaceiro na cabeça (pedi a minha família para mandar um) ninguém gostou.

Embora Zé do Norte já ocupasse no rádio um espaço dedicado às coisas nordestinas (natural de Cajazeiras, no Pará, Alfredo Ricardo Nascimento, o Zé do Norte, nascido em 1908, ficou famoso pela trilha sonora de O Cangaceiro, filme de Lima Barreto premiado em Cannes), Luiz Gonzaga enumera sete ritmos do sertão lançados por ele na cidade grande. E define-os a seu modo:

Xaxado – Se presta ao ritmo e dança, contando geralmente histórias de cangaceiro. A marcação é mais rápida e cadenciada que a do baião, por exemplo, e Luiz considera o Ponteio, de Edu Lobo, um xaxado.

Forró – Baile de ponta de rua, dentro da zona boêmia. Letra provocante e geralmente insultuosa, contando proezas e valentias.

Xote – Samba de pé-de-serra, espécie de bolero nordestino. O pé-de-serra é a parte mais fértil do Sertão, onde há mais fartura. A palavra samba é usada genericamente para designar qualquer espécie de reunião ou baile. Costuma-se dizer: vai ter um samba na casa de fulano. Em louvor de quê? vem a pergunta; Geralmente, todos os anos há um samba na casa dos que possuem um Coração de Jesus entronizado.

Toada – Romântica e dolente, tem por tema a caminhada (retirada do sertanejo) e a arribada (chegada). Paisagens, pureza do amor e histórias pungentes de mãe. Para Gonzaga, tanto as baladas do rock (comparou às dos Beatles) quanto algumas nacionais como Sá Marina, de Antônio Adolfo (inserida num movimento efêmero, no fim dos festivais, a “toada moderna”, também exemplificada por Andança), possuem características de dolência da toada sertaneja.

Aboio – Também dolente; no original, não tinha letra. É o canto típico do boiadeiro, composto só de vogais, improvisadas na condução do gado, do boi (daí, aboio).

Xamego – Com letras insinuantes e maliciosas, contando casos de amor e “apego”.

E, naturalmente, caso à parte, o baião, que o tornou famoso e rei coroado. Gonzaga discorreu longamente a respeito desse ritmo, correspondente no Sertão, segundo ele, “ao samba na cidade grande”. Servia de introdução ao tema dos desafios. Foi estilizado em dupla:

– Quando toquei o baião para o Humberto Teixeira, surgiu a idéia de fazer um gênero novo. O baião já existia como coisa do folclore. Tirei o baião baseado no bojo da viola do cantador, quando ele faz o tempero para entrar na cantoria. Dá aquela cadência e aquela batida no bojo da viola. Seria mais ou menos semelhante à toada de cegos. Uns dizem que baião vem de baiano, outros que vem de baía grande, baião. Daí, o baiano que saiu cantando pelo Sertão deixou lá a batida e os cantadores do nordeste ficaram com a cadência do baião. Mas não tinha uma música que caracterizasse ele, com letra própria nem nada. Era uma coisa que se falava: “Dá um baião aí….”. E alguém cantava: “Já apanhei minha viola/ já afinei o meu bordão…nham nham…nham nham…”. Tinha  só o tempero que era um prelúdio de cantoria. É aquilo que o cantador faz quando começa a pontear a viola, esperando a inspiração.

Estilizado o ritmo, composta a indumentária (inspirada nos cangaceiros de Lampião), era necessário sintetizar o grupo instrumental, descobrir o som característico adaptável às necessidades radiofonográficas do baião. Com a palavra Gonzaga, o criador:

– Conheci o zabumba nas bandas de “esquenta muié” lá no sertão, nas bandas de couro. O zabumba tem vários nomes: esquenta muié, estocador, cabaçal… chama esquenta muié, porque quando o zabumba sapeca, as mulheres ficam no maior fogo, né? Quando moleque, eu tinha tocado naquelas bandinhas com pífanos e meu instrumento predileto era o zabumba. Já me considerava bom zabumbeiro. Quando quis fazer o baião, achei que devia usar coisas originais e me lembrei do zabumba. Comecei com um companheiro chamado Cata Milho. Era eu na sanfona e Cata Milho na zabumba. Cheguei a pensar em colocar uma caixa, mas achava a caixa muito inconveniente. Um dia, em Recife, passou um menino vendendo cavaco chinês, com aquele tubo nas costas e tocando triângulo, tinguilim, tinguilim, tinguilim, tinguilim… num ritmo danado. Achei que dava certo com o zabumba e fiquei logo apaixonado, fiquei doido…quis até comprar o triângulo do menino. Daí, veio até palavrão: cê é besta, vender meu instrumento nada…mas eu pago bem… não vendo meu instrumento, não. Então dava pelo menos para você vir no hotel, pra tirar medida do instrumento? Mas ele não veio, tava com medo que eu tomasse o instrumento dele. Mandei fazer de qualquer jeito. Quando vim do nordeste. já trouxe o instrumento feito, isso na época do baião começando, 46,47. Porque o baião não foi lançado por mim… eu comecei gravando com Os Quatro Ases e Um Coringa. Só depois eu entrei, já de zabumba do lado direito e triângulo do lado esquerdo. Dançava inclusive o frevo; lancei o xaxado e foi um sucesso. Os primeiros baiões tinham uma longa introdução instrumental, porque eu estava também procurando um meio de introduzir o baião no meio musical, interessar às orquestras. Em alguns casos, como Vozes da Seca e Algodão, a sanfona era gravada duas vezes, com o reforço de um violão oitavado.

Para algumas características mais remotas do baião, Gonzaga não consegue explicação tão cristalina. Lembra-se de ter composto institivamente uma música que denominou Pagode Russo (“toda num tom só”), em grande semelhança com o cancioneiro soviético. Também não sabe porque a Estrela de David de Israel frequenta o chapéu dos cangaceiros. Sua voz quebrada de pioneiro falsete, no entanto tem uma razão pouco imaginativa pelos puristas:

– Fui o primeiro a faazer falsete no gênero nordestino, porque acompanhei o Bob Nelson muito tempo – “orileiriti!” (grita) eu quase cometi o pecado de abusar disso aí. Mas nunca cheguei a usar roupa igual à dele, de vaqueiro americano. Tenho umas camisas trabalhadas à mão, mas os símbolos são os nordestinos: zabumba, triângulo…

Ao longo de sua vasta carreira, Luiz Gonzaga acumulou muitos parceiros. O primeiro deles foi Miguel Lima (“Um ferroviário, um homem popular”). Em dupla, fizeram Dezessete e Setecentos, Xamêgo, Dança Mariquinha, Cortando o Pano e Penerô Xerém. (“Oi pisa o milho/ penerô xerém/ eu não vou criar galinha/ pra dar milho pra ninguém”).

Humberto Teixeira (“ele é músico, toca flauta”) foi o sertanejo universitário que auxiliou Gonzaga na urbanização do baião. Ultimamente, nos elepês do “rei do baião”, há sempre faixas assinadas por Humberto Teixeira, letra e música. “Isso é para evitar o que falam certas pessoas, que Humberto herdou o baú de seu cunhado, Lauro Maia. Afinal, o Lauro morreu há quase vinte anos e o Humberto Teixeira continua produzindo.” Desta dupla são os clássicos: Asa Branca, Baião, Juazeiro, Mangaratiba, Paraíba, Respeita Januário, Qui nem jiló, Açum Preto, etc.

No entanto, a parceria considerada mais eloquente foi a de Gonzaga com o médico Zé Dantas. Numa briga entre ele e Humberto Teixeira, Gonzaga tomou o partido de Zé Dantas, que pertencia à outra sociedade arrecadadora. Por causa disso, ficou vários anos sem receber por seu repertório na UBC, arrecadadora controlada por Teixeira. Só se recompuseram nas bodas de prata e baião, em 60:

– Pedi se havia possibilidade de voltar para a UBC e Humberto disse: ‘de braços abertos’.

Com Zé Dantas, mais ligado conscientemente às agruras do sertanejo, Luiz Gonzaga compôs: Vozes da Seca, Riacho do Navio, Imbalança, Vem Morena, Forró de Mané Vito, O Torrado, Siri Jogando Bola, A Dança da Moda, Cintura Fina, Algodão, Sabiá, O Xote das Meninas, A Volta da Asa Branca, etc.

A multiplicação de parceiros é explicada por ele como condição para diversificar os estilos do repertório.

– Fica muito parecido, muito ele, quando o artista só grava suas próprias composições. Numa família você sabe que tem uns que discordam, desabam, querem sair, na música também não dá. Todo pai que encaminha o filho só para o que velho quer, aquilo fica um asilo de loucos. Prefiro escolher entre os compositores que me procuram. O duro é dizer que não gostou. Às vezes vem uns caras que pra agradar a gente já nos focalizam na música, dando elogios. Aí, piora tudo.

Entre os temas, porém, há uma certa coincidência de assuntos, mesmo com a constante troca de parceiros: “Os pássaros aparecem muito nas músicas, porque têm um significado especial para o nordestino, que é muito caçador. Ele tem necessidade de trazer carne para casa. O nordestino como vive no deserto, sente-se atraído pelo canto dos pássaros, se interessa pela vida deles. Cria imagens poéticas como, por exemplo, o vem-vem. Quando este pássaro começa a cantar muito, circulando a nossa casa, achamos que vem uma notícia boa.” Canta: “Vivo sempre escutando a cantiga do vem-vem/quando ouço ele cantando, penso se é você que vem/ fico de olho no caminho/ não se vê, não vem ninguém/ tá vendo meu bem, tá vendo, como é doce querer bem/ faz inté levar em conta a cantiga de vem-vem.”

Ao contrário, o acauã, é considerado pássaro agoureiro. Asa branca é uma pomba: “Quando voa, aparece uma penas internas branquicentas. Paradinha, é um pássaro cinzento. Quando ela vai embora, é sinal que não tem fartura, acabou a comida…” Outra ave (citada) na mesma música, é a arribação: “Essa aparece depois da safra. Vem para pegar os restos de milho, feijão, que sobram da colheita”. Em suma, Luiz Gonzaga também identifica essa predominância avícola na temática nordestina por um motivo ainda mais palpável: “É o fato do pássaro ser livre e voar. O nordestino está sempre pensando em ir para longe”.

A volta do ágil e voador Luiz Gonzaga aos palcos em 1972 atestava sua permanência, contra todos os indicadores importados e nacionais de alternância de modas. Era uma época de fechamento nos meios de comunicação, e descobriu-se o circuito universitário. O resultado de uma pesquisa entre os estudantes de todo o Brasil, para conhecer os artistas mais populares nessa faixa, colocou Luiz Gonzaga entre os favoritos. Para ele, tratava-se de uma nova consagração:

– Cantar em cem universidades tendo sido escolhido por unanimidade, é para botar a viola no saco e colher as batatas que já plantei. Porque é um fim de festa espetacular, maravilhoso, para mim.

E, abrindo o fole, ele entoa o seu sufixo, composto especialmente pra ele por Onildo Almeida: “O meu cabelo já começa prateando/ mas a sanfona ainda não desafinou/ a minha voz, você repare eu cantando/ que é a mesma voz de quando/ meu reinado começou”.

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