Louco legado

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Por Marcos de Vasconcellos

O compositor popular carioca Miguel Gustavo (Gustavo Werneck de Sousa Martins), morto em 1972, meu amigo de fé, um dia me chamou na varanda do restaurante Antonio’s, no Rio. “Ouve lá”, disse ele, “e diz o que você acha”.

Pegou uma caixa de fósforos das antigas, feita de pau puro, e cantou: “Noventa milhões em ação/ Pra frente, Brasil/ Salve a Seleção.”

Tinha acabado de arrematar a canção que até hoje é uma espécie de hino da Seleção brasileira de futebol.

Miguel Gustavo era engraçadíssimo, inteligente e especialista em sambas de breque, a categoria que celebrizou o cantor Moreira da Silva, o popular Morengueira.

Além disso, adorava fazer versos pornôs numa época em que só podiam circular mano a mano. Herdei dele uma preciosa e rara coleção desses versos e publico pela primeira vez no Brasil um dos poemas, “Por Quem os Sinos Dobram”, de sua autoria e antecedidos de uma epígrafe de um colega seu.

“Aquela que, de mim, cedo partiu…” (Bocage, Lib. VIII, Cont. I).

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

Ai de mim, que já tão cedo

No mar de Vênus dei cabo

E ao ver gostoso rabo

Já me esquivo, tenho medo.

Por que, terrível segredo,

Este membro emurcheceu?

Para que mais vivo eu?

De que serviu tanta lida?

Foi-se a ilusão desta vida

A minha pica morreu!

E como viver sem pica

Pode neste mundo alguém?

Que outra dita, que outro bem

Consola a quem não fornica?

Foi-se o xodó da quirica,

O supremo gozo meu!

Mais um lume escureceu,

Ó meninas lá de baixo:

Tendes de menos um macho,

A minha pica morreu!

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