Lino Chíxaro em busca da chapa

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Meados dos anos 70. Ainda adolescente e recém-chegado a Manaus, oriundo de Humaitá, o futuro advogado, vice-prefeito de Manacapuru e deputado estadual Lino Chíxaro, atual diretor-presidente da Cigás, foi se matricular no Colégio Batista Ida Nelson, onde cursaria o segundo grau.

O rapaz da secretaria conferiu os documentos de transferência um a um, constatou a autenticidade deles, recebeu o pagamento da anuidade, repassou a lista de material escolar para o futuro aluno e avisou:

– Pra completar a matrícula, você precisa me trazer duas chapas. Uma, pra sua ficha pessoal, e outra, pra sua carteirinha de estudante! Vou te dar uma semana de prazo…

Lino Chíxaro apanhou o ônibus para voltar pra casa ainda encucado com aquilo:

– Que porra era “chapa”? E por que logo duas?…

Ele ia matutando na janela do ônibus sobre essas coisas da cidade grande, quando o coletivo passou diante do Dispensário Cardoso Fontes, na época o único ambulatório de tratamento de tuberculose no centro da cidade. Ele leu em uma placa, afixada no ambulatório: “Fazemos chapa de Raio-X”. Devia ser aquilo.

Lino desceu do ônibus e foi se informar. Sim, faziam chapa de Raio-X gratuitamente, mas era preciso pegar uma senha de madrugada e aguardar a vez de ser chamado.

No dia seguinte, de madrugada, Lino foi pra fila, ainda em jejum. Pegou a ficha 153.

Entrou no ambulatório e ficou esperando sua vez, morrendo de fome.

Por volta das 10h da manhã, a ponto de ter uma “pilora” por conta do jejum involuntário, foi chamado pelo médico.

Sem levantar os olhos de um formulário onde escrevia garranchos indecifráveis, o médico começou o interrogatório:

– Sr. Lino Chíxaro, o senhor tem febre com suores e calafrios noturnos?

– Não!

– O senhor tem dor no peito?

– Não!

– O senhor tosse com expectoração, por vezes com raias de sangue?

– Não!

– Tem perda de apetite?

– Não!

– Sensação de prostração?

– Não!

– Sofreu de emagrecimento súbito sem causa aparente?

– Não!

O médico, perdendo a esportiva:

– Escuta aqui, ô meu caralho, quem foi o filho da puta do médico que te pediu pra vir aqui tirar chapa do pulmão se você não tem sintoma algum de tuberculose?…

Lino, nervoso, quase se escondendo embaixo da mesa:

– Não foi médico não… Foi o rapaz da secretaria do Colégio Batista Ida Nelson… Eu preciso de duas chapas pra completar minha matrícula… Uma pra minha ficha pessoal e outra pra minha carteirinha de estudante…

Só então a ficha caiu.

O médico se recompôs e, mais calmo, explicou:

– Olha, meu amigo, é que aqui na cidade eles também chamam fotografia de chapa. O que eles querem são duas fotografias suas, dois retratos seus, do tipo pequeno, no formato 3×4, está entendendo? Só isso…

Lino deixou o Dispensário Cardoso Fontes desconfiado de que ainda ia ter de pastar muito para entender as mumunhas da cidade grande.

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