Lembranças de minha cidade natal (final)

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Por Agripino Grieco

Um Disraeli tropical costumava dizer-me: “No Brasil só o Rio. Tudo o mais é paisagem. E mesmo o Rio…” Mas eu gosto da natureza e não julgo a paisagem do bom Deus inferior à do paisagista Antônio Parreiras. Daí conceder-me agora um novo prêmio de viagem pela velha terra fluminense. Vençamos o mal do Rio, o vício das multidões. Tomemos outra vez o trem.

Mas, deixando o meu cadeirão, que é quase cadeirão de paralítico, eu quero viajar refazendo a viagem que fiz tantos sábados à tarde, para ir ver meus pais em Paraíba e confortar um estômago posto à prova pelo meio jejum de uma semana no Rio. Além de fazer lavar a roupa suja, visto como, segundo velha sentença, roupa suja se lava em casa…

Os chefes da Central concediam-me passe grátis e lá seguia eu, as mais das vezes ao lado de um colega que se destinava à Linha Auxiliar e desembarcaria em Belém. Era um terrível trocadilhista esse confrade, um humorista à moda velha, ledor de Bastos Tigre e de João Foca.

Logo ao passar pela estação de Lauro Müller entrava ele em função, lembrando que Lauro Müller se chamara Praia Formosa, mesmo não sendo praia nem formosa. Em Mangueira, esclarecia medrarem ali árvores de toda espécie, exceto mangueiras.

Mas não compreendo como lhe escapasse antes, em São Cristóvão, uma referência à estaçãozinha “Imperial”, ponto de embarque de Pedro II e família, gracioso prédio a ser derribado em 1925 e reconstruído, tal qual, do lado oposto da estrada de ferro, o que poderia transmitir a alguém, após longa demora no interior, a sensação de haver o prédio dado um salto por cima dos trilhos.

Quanto a São Francisco Xavier, arrancava-lhe reminiscências do assassínio do monarquista Gentil de Castro, escapando da morte o visconde de Ouro Preto e seu filho, o futuro conde de Afonso Celso, porque saíram correndo em tempo.

De São Francisco em diante, notava-se então nas plataformas a afluência de muitas famílias das vizinhanças, que iam recrear-se à passagem dos expressos mineiros e paulistas. Espetáculo gratuito, não havendo ainda as chamadas borboletas a impedirem o ingresso dos curiosos.

Em Cascadura, comprava eu, por cinco tostões, um pacote de balas de ovo, deliciosíssimas. Comprava-as com a intenção de levá-las para minhas irmãs, mas a gulodice vencia-me e, antes de chegar ao alto da serra, já eu as saboreara todas, esquecido dos bons propósitos fraternais.

Em caminho, na tabuleta das estações, muitas as homenagens prestadas a figurões históricos. Aquilo se convertera em panteão esparso.

Depois da linha circular de Dona Clara, onde os condutores de trem, segundo o leitor de João Foca, eram obrigados a rodar à maneira de cavalos de olaria, sucediam-se patronos de localidades que nada tinham a ver com elas.

E até o mais glorioso de todos, o sublime Anchieta, parecia pouco familiar aos moradores da povoação homônima, que lhe pronunciavam sempre o nome à italiana e não à espanhola.

Feroz em Belém a investida dos passageiros contra as pilhas de sanduíches e frutas. Devoravam tudo com fúria de retirantes nordestinos, entulhando-se de pão-de-ló por preço inferior ao do pão de centeio.

Pagava-se quase nada, porque os empregados do botequim, servindo em zona doentia, davam a sensação de sonolentos e bambos à hora da cobrança.

Vinham logo após as montanhas. Uma subida das mais cacetes, na monotonia do grandioso. Algo da fatigante grandiloquência dos sermões de Mont’Alverne ou Alves Mendes.

Como me apertava a saudade das colinazinhas amáveis do meu recanto!

Mas o certo é que já ia tratando eu de palestrar com o meu melhor companheiro de viagem. Era um português, e não caixeiro viajante, um português que acudia ao nome de José Maria de Eça de Queirós e, naquele carro mal iluminado da Central, se tornava para mim sol de inteligência, sendo um largo riso de civilizado em meio àqueles passageiros trombudos.

Lia-o, quando não o relia, e, ingrato com os que me esperavam em Paraíba, jamais me irritei com o atraso do comboio, que me dava mais oportunidade de ver lampejar o monóculo do João da Ega ou de respirar o cheiroso cangote da Gouvarinho.

Fuliginosas as oficinas de Barra do Piraí. Beneméritas são as máquinas, mas emporcalham tudo. E ainda há quem compare aquilo a Veneza, porque existem na cidade dois rios e algumas pontes!

Mais interessante olhar, de passagem por Ipiranga, o velho palácio do capitão Mata-Gente, a altear-se do outro lado do rio. Tanto quanto me permitiam distingui-lo as últimas chispas do crepúsculo, crescia a casa que suscitou numerosas lendas de vícios e crimes, com orgias diabólicas e sangrentos assaltos aos que por lá transitassem carregando dinheiro ou mercadorias preciosas.

Venho de falar em rio. Mas era o Paraíba, o meu rio, o rio cujas águas foram para mim quase embalo de berço, cantiga de berço. Não devia, entanto, embevecer-me nele por ali. Reconhecê-lo às direitas só em chegando à minha cidade, à cidade que lhe repete o nome.

Em Ipiranga ele seria para mim ainda um estranho, estava fora do meu território sentimental. Faltavam-lhe as curvas macias que os meus olhos admiraram antes que eu soubesse da existência do Tejo ou do Tibre. Desengano: deram essa melancólica designação a um lugarejo procurado por doentes-do-peito, e não haveria nisso crueldade?

Também recordo que o agente da estação era corcunda. Daí segui uma vez para Valença, onde meu pai tinha um primo sapateiro. E em Valença exibiram-me, na excelente biblioteca da Câmara, a coleção da “Revue des Deux Mondes”, anotada por Guizot.

Esse Guizot, no tempo, se me afigurava tremendamente antipático, dada a sua carranca de protestante, mas depois vim a conhecer-lhe as aventuras farisaicas, o gosto com que, ministro, entulhava as gavetas de fotografias de mulheres nuas, e passei a achá-lo mais simpático.

Em Comércio, vi dois sujeitos arrebatarem cestas de mangas a um pobre vendedor. Riam-se bastante, a regalar-se com o furto, quando o generoso Sebastião de Lacerda, viajando no mesmo carro, lhes disse que se fartassem sem pena do vendedor, porque ele, Sebastião, sendo o dono das mangueiras, faria oportunamente o desconto dessas cestas.

Ainda em Comércio, era inevitável enxergar-se na plataforma um senhor magro, de ares macambúzios, em quem eu, sempre livresco, imaginava um noctâmbulo, um erradio, talvez perseguido por invencível remorso.

Soube depois tratar-se apenas de um hoteleiro desejoso de hóspedes.

E afinal era a chegada a Paraíba. Ribeirão, Cruz das Almas, a casa paterna toda iluminada, como que a esperar por mim, e na estação um filante a pedir-me os vespertinos cariocas que, meses antes, eu filava sistematicamente de outros passageiros…

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