Lembranças de minha cidade natal (36)

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Por Agripino Grieco

Como que a despedir-me dos meus deliciosos dias provincianos, quero recordar ainda algumas criaturas interessantes que estiveram na minha Paraíba do Sul. Uma delas foi o dr. Érico Coelho, diante de cujo sombreiro vistoso e de cuja barbicha pontuda a minha ingênua basbaquice literária se pôs logo a pensar nos duelistas dos romances de Dumas Pai.

Ao que me contaram, esse médico fluminense era homem incapaz de embuçar-se em reservas hipócritas e dizia escancaradamente o que tinha a dizer. Não sei qual era a sua especialidade de clínico, mas informavam que, criticando qualquer confrade, parecia ele dar-se a uma tarefa de dolorosa cirurgia sem anestesiar o paciente.

Uma das suas confissões mais divertidas é que, no Senado, quando o presidente da assembleia, à hora da votação, mandava que os votantes contra se levantassem e os votantes a favor permanecessem sentados, ele, diferindo dos que acompanhavam a cabeça de Rui Barbosa, acompanhava as nádegas de Pinheiro Machado, porque votava conforme este as erguesse ou as deixasse tranquilas na cadeira.

Só uma vez deve ter ido a Paraíba o historiador Afonso d’E. Taunay, e para fazer indagações em torno da passagem de Ribeyrolles por lá, na perspectiva de reeditar-lhe a obra principal. Afonso, entusiasta de Vassouras, terra de sua mãe, filha de barão e esposa de visconde, não gostava da minha cidade, achando-a feia. E era exímio em narrar anedotas, comprometedoras sempre, pedindo que não as passassem adiante ou, se o fizessem, não lhe mencionassem o nome.

Tinha ele nas faces uns tons entre claros e róseos, a marcarem-lhe bem a ascendência francesa.

Caso transmitido pelo Afonso, e repetido em Paraíba, foi o do sujeito meio doido que sujou as mãos em pastéis e empadas muito gordurentos e, entrando no trem em que viajava o respeitável Francisco Portela, quis limpá-las nas belas barbas do então governador do Estado do Rio, barbas que um literatelho, seu subordinado em Niterói, comparara às barbas floridas do imperador Carlos Magno. Houve uma correria dos diabos para evitar que a limpeza, pouco higiênica, se ultimasse.

Quanto papel e tinta esse Afonso d’E. Taunay consumiu! Não deixou sem cruz e sem epitáfio nenhuma cova de bandeirante. Se o bom gosto se vendesse em frascos e o estilo se vendesse em resmas, que mestre da história poderia ter sido ele!

Figura bem mais atraente foi a da portuguesa que desejava criar em Paraíba uma empresa de anúncios luminosos a serem colocados nos pontos altos da localidade. Dizia-se ela descendente de um Bragança afastado do trono. Usava boina e bata de veludo. No começo gorjeteava os garções da capital com libras esterlinas e, depois, chegando à quebradeira, entrava a pedir-lhes pequenos empréstimos que acabavam sendo a restituição das libras em dinheiro miúdo.

Abrigava a domicílio dezenas de cães e gatos, e indignava-se se um mendigo a abordasse, quase solicitando a intervenção da polícia para deter o sujeito incomodo. Loura, muito vermelha, tinha qualquer coisa de espanhola de caixa de passas e vivia amigada com um aquarelista lisboeta que se nos afigurava estar sempre convalescendo de uma bebedeira.

Onde quer que habitasse, o casal bizarro, devido ao tumulto que armava em derredor de si, indignava os vizinhos, e sua mudança foi de uma feita festejada a foguetes pelos moradores de uma travessa aqui do Rio.

Um bom poeta, que lidou em Paraíba num encargo de tipógrafo, chamava-se Constantino Pacheco. Fez-se ele mais tarde correto linotipista e, trabalhando num jornal carioca, queixava-se de ter de executar algumas ruins partituras no teclado da sua linotipo. Compunha os artigos do Hélio Lobo, e naturalmente notou o abuso das aspas nesse escritor, observando que, pelo antigo processo dos tipos em caixotim, não haveria aspas que bastassem.

Quem emendava em excesso era o Azevedo Amaral, e isto sem melhoria de texto, sem chegar à perfeição do emendador terrível que foi Eça de Queirós. Indignava-se o Constantino com o “y” de Álvaro Moreyra, lembrando que o pai desse gaúcho, um despretensioso João Moreira da Silva, nunca recorrera à vogal que hoje nem os lírios e os cisnes têm mais.

Todavia, o episódio culminante do poeta nos domínios da linotipia foi quando lhe deram um original hieroglífico do Alcindo Guanabara, que já fora para casa dormir, e Constantino, não entendendo nada, porque não era discípulo de Champollion, procurou inutilmente ver se alguém era mais feliz que ele. Ao fim de um quarto de hora de consultas, desesperou o linotipista de decifrar a croniqueta que Alcindo assinava com o pseudônimo de Pangloss, dirigiu-se à privada, atirou a folha de papel, bem amarrotadinha, no vaso e puxou energicamente a válvula. . .

Constantino Pacheco era possuidor de vastíssimas manoplas e, gesticulando, como que enchia os becos tortuosos ou ladeirentos do velho Rio que idolatrava. Sua voz parecia destinada a um solene cantochão, e trazia ele sempre nas algibeiras uma pequena garrafa de vinho e um volume de poesias de Gomes Leal, esclarecendo: “Dão para dois pileques…”

A fim de visitar o maestro que lhe prometera um original inédito de Carlos Gomes, desembarcou em Paraíba de um trem da Central o frei Pedro Sinzig. Encontrei os dois palestrando num banco do largo das Palmeiras, e ainda senti nas palavras em português do frade a dureza da pronúncia germânica de que ele jamais se desprendeu.

Era corado, com ares de cidadão bem nutrido, sem nada de ascético, sem nada da palidez e da magreza que o seu título de franciscano poderia sugerir. Pareceu-me bastante amável, apesar da aspereza teutônica da dição. Saiu pouco depois e eu mal senti a partida daquele que tão leve rumor fazia na areia com suas alpercatas, havendo em seu passo macio algo ao mesmo tempo de felino e feminino.

Era musicista esse alemão, embora, ao que me declararam entendidos no gênero, não passasse de um modesto imitador de Bach, metendo-se na família espiritual deste, como um rebento retardatário que o trópico não inspirasse muito. Romancista sem estilo, sem psicologia, sem verdadeira vivificação de almas, só poderia seduzir leitores primários, dos tais que sobrepõem a tese moral aos méritos de concepção e forma.

Indagarão agora qual o valor do grosso volume em que ele, o péssimo romanceador, analisava as produções de centenas de ficcionistas mundo em fora. Era o pior dos criminosos convertendo-se em juiz implacável. Inúmeros os deslizes desse mau Baedeker literário.

Num cartório de Paraíba, onde conheci vários tipos descristianizados pela avidez de dinheiro, vi pela primeira vez o Raul Fernandes, ainda pequeno advogado da cidade de Vassouras. Muita suavidade nas suas palavras, que pareciam despetalar-se com ternura sobre o juiz e o escrivão que o ouviam.

Fácil era prever que esse patrício acabaria um admirável estrategista do sucesso. Mestre de embustes, já existiriam nele todos os argumentos pró e contra que se desejassem. Mas, quando as palavras pudessem comprometê-lo, fechava-se num silêncio de trapista. E, à hora de defrontar inimigos em seu Estado, resolveu fazer turismo na Europa, alegando ser melhor visitar os museus de Paris e Florença que aturar os tabeliães de Campos ou Petrópolis.

Sempre esteve a muitas léguas da verdadeira cultura. E, no ministério do Exterior, quando devia tomar decisões enérgicas em favor do Brasil, tomava mingau. Duram muito os corvos e os ciprestes, mas a vitalidade de Raul Fernandes era tão inútil quanto a dos corvos e sem ter sequer a beleza decorativa dos ciprestes.

José Tolentino, homem espirituoso, falou em seus “dons aquisitivos”. Realizou Raul uma conferência num casarão cia rua do Passeio e alguns transeuntes lá entraram porque chovia, mas saíram logo, preferindo a chuva à magra e triste eloquência desse cinzelador de banalidades, desse orador que gotejava tédio por todos os poros. Abusou ele longo tempo da proteção do político mais popular da terra fluminense, vivendo, como o Egito, à custa do Nilo…

Recomendado a papai por um pintor italiano que pretendera achar ouro em Minas, e aí só encontrara ouropel, veio à Paraíba realizar uma palestra sobre troveiros o encantador Belmiro Braga.

Havia nele, debaixo dos ares inocentes, uma pessoa arguta, com qualquer coisa de roceiro esperto que deseja passar adiante um cavalo meio cego e trotão. Era poeta comemorativo, celebrando, com uma facilidade que lhe cumpria tornar um pouco mais difícil, todos os acontecimentos importantes de Juiz de Fora, casamentos, batizados, enterros.

Tabelião, redigiu escrituras em verso. E, sempre risonho, corria horas e horas a rua Halfeld, dando a impressão de que, se dirigisse todas essas passadas para o alto, acabaria chegando à estrela Vésper. E em Paraíba ficaram deliciados quando ele recitou esta quadrinha satírica: “Traz estampada na face/ A dor que na alma lhe vai:/ Nunca viu chapéu que entrasse/ Na cabeça de seu pai…”

Quanto ao nervoso Júlio Salusse, o da “Nevrose azul”, sabe-se que foi promotor público em Paraíba, mas raramente se detinha por lá, sempre nostálgico da Nova Friburgo onde decorrera a sua infância junto a uma parenta hoteleira que vira Machado de Assis dançar com a jovem Júlia Lopes de Almeida.

Salusse indignava-se quando insistiam em falar-lhe no soneto “Os Cisnes”: preferia uma coruja que compusera depois e de que mais ninguém gostava. Doente de cisma, frequentava muito as farmácias. Em suma: escreveu centenas de linhas rimadas e ficou sendo, como Arvers, o autor de quatorze versos apenas…

Mas não quero fechar esta lista sem mencionar um homem realmente superior, o João Ribeiro, que em Paraíba se hospedou no palacete da família Ribeiro de Sá. Muito se tem atacado esse julgador de livros. Haveria dado um volume de prosa como sendo de poesia, não tendo tido nem mesma a cautela de folheá-lo.

A pedido de seu editor, não vacilaria em tornar favorável um artigo desfavorável. Num almanaque lido nos colégios de freiras, deixou escapar umas rimas de Melo Morais Filho que falavam nas “rosas do mês”, nas rosas que florescem nas mulheres sob o influxo lunar, e ficou espantado quando as religiosas protestaram.

Houve, de fato, demasiada negligência nesse Diógenes sem tonel, que se divertia com a dubiedade das coisas, um pouco à moda de Anatole France. E a verdade é que nós o acharíamos bem maior se ele tomasse partido, engajando-se numa luta qualquer, se procurasse ter aquela marca, marca de Deus ou do Diabo, que um padre brasileiro exigia de todos os homens…

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