Lembranças de minha cidade natal (34)

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Por Agripino Grieco

Quando visitei Limeira em 1950, disseram-me estar ali sepultado o paraibano-do-sul Marinho de Andrade, morto vários decênios antes. Mas procurei- lhe em vão a sepultura, sem ter quem me guiasse no cemitério, e acabei deixando as rosas, que levara para flori-la, na cova rasa de um menino enterrado havia pouco.

Marinho, que, apenas proclamada a República, impulsionou a célebre Comissão Justinicida hostilizada pelo futuro padre José Severiano de Resende, era de porte esbelto, com qualquer coisa de autoritário nos olhos vivacíssimos. Ficara num esboço de bigode e, quase sem queixo, mostrava sinais de varíola que levaram um seu companheiro de quarto a falar em cara de escumadeira.

Spencer Vampré, seu parente, evocou-o enternecido diante de mim. Marinho era loquaz, mas atingia por vezes essa nobre eloquência em que as palavras se desfraldam como bandeiras de combate.

Tornou-se, ele o filho de uma cidade pobre, uma espécie de príncipe da juventude na já então opulenta Paulicéia. Capitaneou movimentos de revolta na Academia por onde haviam passado Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Castro Alves e tomou também boemiamente parte nas investidas noturnas contra quintais alheios para de lá surripiar frutas e frangos destinados a ceias a que não faltavam sorrisos de lindas mulheres.

Marinho foi estudante desidioso, mas com uma espantosa capacidade de reter difíceis textos jurídicos, de modo a deslumbrar, quando lhe aprouvesse, os mais aferrados aos compêndios.

Sua celebridade começou propriamente com um formosíssimo discurso proferido por ele à beira do túmulo de um colega, morto sem terminar o curso acadêmico. Tal qual acontecera em Espanha com o poeta Zorrilla orando junto à sepultura do prosador Larra, foi num campo-santo que o preito das lágrimas de centenas de jovens consagrou o patrício que, se sobrevivesse muitos anos a esse triunfo inicial, poderia ascender à fama do Brasílio Machado da oração a Anchieta.

Certo é que ele, saudando atrizes com uma ênfase bem meridional, superou sempre o gaúcho Pedro Moacir, seu condiscípulo e fraseador elegante destinado a fulgurar em debates políticos.

Marinho fez versos, e não merecedores do olvido em que foram amortalhados, versos de essência pagã, com leves toques de orientalismo ou, em dados momentos, com um vertiginoso rodopio de imagens. Num pendor ao fetichismo, celebrava insistentemente a mão da sua noiva. Tendo escapado da bexiga, levou-o o tifo aos vinte e quatro anos de idade, e a poesia da morte precoce como que lhe aumenta a poesia romanesca que lhe encheu a adolescência.

Aliás, os seus mais expressivos poemas talvez fossem póstumos, os que a sua noiva escreveu sem nada escrever, dentro da saudade e da fidelidade a um amor jamais repelido por outro. Sempre vestida de negro, vivia ela nos templos paulistas a rezar por aquele com quem entretecera, em fios de ouro e seda, o mais belo e casto dos idílios.

Forçoso é lembrar, como estou fazendo agora, este meu conterrâneo que tanto se distinguiu, com um bocado de arrogância, na velha Piratininga que vibrara ouvindo o cabeludo descabelado das estrofes do “Navio negreiro” e das “Vozes d’África”.

Em São Paulo, conviveu ele com o porto-alegrense Carlos Ferreira, idólatra de Castro Alves e versificador de voo curto, mas de alma em que notas saudosistas e soberbas arrancadas do afeto relembravam sempre, nas tertúlias de café, o gênio baiano morto em 1871. Adorando o teatro, Martinho dirigia-se à platéia sem passar pelo bilheteiro e metia-se abusivamente no camarim das comediantes.

Assinale-se que ainda ressoavam pela Paulicéia os ecos da oratória de José Bonifácio, o Moço, um dos mestres desse Castro Alves que, em contato com o sobrinho e neto do Patriarca, passou de discípulo a igual, se é que não ia mais alto, quando lhe recitava as odes ou os madrigais que acabara de rabiscar às pressas entre uma noitada de estúrdia e uma das suas caçadas na Várzea do Carmo. Caçadas em que, Nemrod de mentira, não matava pássaro algum, porque não era fratricida, e só acabou ferindo-se a si próprio.

Como diferia o gentilíssimo espírito do segundo José Bonifácio do de tantos diretores ríspidos, frígidos, que exigiam de todos uma severa pontualidade, impondo a tirania dos cronômetros a rapazes que não tinham relógio, ou o tinham na casa de penhores, e se vingavam amaldiçoando, como uma senhora francesa, essa odiosa máquina de triturar o tempo.

Demasiado o orgulho de alguns lentes. Lecionavam como a emitirem sentenças irrecorríveis, dogmas inalteráveis. A grosseria foi mesmo o caráter predominante do professor Justino de Andrade, português das ilhas e sempre fiel ao pesado sotaque da pátria.

Irmão de um padre benigno, que era todo mel e pétalas para os alunos, Justino mostrava-se reprovador crudelíssimo. E, se o examinando chafurdava na asneira, tinha ele um ambíguo “Basta!” que mais parecia “Besta!” ou até pior vocábulo em que o “e” passava a “o”.

Devido a uma rebelião, em que Marinho de Andrade foi vanguardeiro, Benjamim Constant, vitoriosa a República, afastou aquele monarquista da sua cadeira na Academia. Uma injustiça, diziam dois ou três amigos seus, mas numerosíssimos alunos se recrearam. Ninguém pode com o diabinho que cabriola dentro da alma de cada jovem…

O ameno Almeida Nogueira, memorialista a ser relido sempre, falou-nos também de mestres de lá, pitorescos ou caturras, sisudos ou negligentes no ensino. Um deles se destacava pelo gosto da zombaria, prodigalizando-se em doutrinas esdrúxulas e rindo-se dos que lhe engoliam as patranhas. Outro era doido por jabuticabas e deixou nos álbuns um soneto em que há reflexos de Álvares de Azevedo. E ainda outro, de nome Furtado, notabilizou-se como autoridade policial, sendo que de uma feita lhe rapinaram uma dúzia de galinhas, para que fosse em tudo furtado.

Quanto ao Carrão, amigo das chinelas e da cadeira de balanço, deixava-se ficar sonolento em seu arrabalde, ainda que se enfurecesse quando o substituíam na cátedra. O pior é que, se esse dorminhoco dava aulas, os ouvintes é que acabavam com a moléstia do sono, parecendo mordidos pela mosca tsé-tsé.

Lente assíduo, este sim, era o Duarte de Azevedo, parente do autor da “Noite na taverna”, mas sem nada da flama deste, e zeloso ao defender um passador de notas falsas, embora não querendo receber os honorários de um tal cliente senão em cheque…

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