Lembranças de minha cidade natal (33)

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Por Agripino Grieco

Sim, um Andrada foi parar no foro de Paraíba do Sul. E o mais corrosivo deles, um homem que viveu a aplicar, aos contemporâneos, cáusticos de urtigas e achava dia perdido, dia a marcar com pedra negra, aquele em que não desfechasse um epigrama contra alguém. Refiro-me a Martim Francisco, o terceiro desse nome na dinastia dos Andradas.

Mas, como tive ensejo de vê-lo e ouvi-lo bem de perto? Foi assim. Aos quinze anos tornei-me, sem o saber, a miniatura de um herói de romance francês, daquele Jérôme Paturot que andava à procura de uma posição social.

Meu pai, cujas posses nunca se elevaram muito, reqüestou vários capitalistas paraibanos para que custeassem meus estudos no Rio, mas nenhum deles aceitou a incumbência. E eu, depois de sem proveito praticar tinturaria com o operoso Pascoal, ingressei inutilmente numa igreja batista, esperando o prêmio de viagem que me prometiam em direção a uma universidade dos Estados Unidos, e, antes de fazer concurso para telegrafista da Central do Brasil em 1906, fui, apenas durante dois meses, rasista do cartório do coronel Raimundo do Espírito Santo Fontenele, veterano da guerra do Paraguai e leitor constante do humorista Gastão Bousquet.

E nesse cartório uma tarde me apareceu, nada primaveril de idade, um cidadão com ares de ator ou cônego e com uma boca que não se recordaria de haver sorrido em qualquer tempo. Como se se dirigisse a um “groom” sem nenhuma importância, ordenou-me o recém-vindo que eu o levasse a meu patrão. “Sou o advogado Martim Francisco”, disse ele, com um orgulho que não seria maior se ele dissesse: “Sou Papiniano”.

Eu, nada conhecendo de Martim, não cheguei a deslumbrar-me, mas lá da sala do fundo veio quase a correr o coronel Fontenele, de corpo em arco, numa reverência incompreensível no antigo adversário de Solano López.

E que fora fazer ali esse Andrada, tido como uma espécie de “croque-mitaine” dos colegas da cidade de Santos? Fôra bater-se por um cliente que adquirira terras em Paraíba e as via disputadas por um politiqueiro de Entre Rios.

“Que honra receber aqui um tão grande jurisconsulto!”, sussurrava caricioso o Fontenele das escrituras e dos reconhecimentos de firmas.

Metediço como sempre fui e adivinhando, já então, estar presente um desses bichos que a gente não revê com freqüência no mundo, apurei ouvidos e entrei a regalar-me com as frases do ironista que valia por um ninho de víboras.

Estimulado talvez pela admiração do coronel, Martim entronizou-se na melhor poltrona do cartório e começou a desfiar sarcasmos que eu possivelmente desfigurarei reproduzindo-os com mais de sessenta anos de intervalo.

Acabava Martim Francisco de regressar da Europa e, má-língua internacional, ridicularizava tudo o que enxergara por lá, satirizando Paris, Florença e Londres como se o fizesse em relação a Pindamonhangaba.

Declarou ler a bordo os jornais paulistas para curar-se de uma insônia que resistia a vinte barbitúricos. Comer nos hotéis franceses era para ele uma lição de jejum muito cara. Umas inglesas que encontrara em Roma pareciam-lhe ter o corpo, não cheio de curvas, mas de ângulos.

Sobre um patrício que enriqueceu de modo brusco, sem trabalho, sem herança e sem sorte grande na loteria: “Era um homem de bem e passou a homem de bens…”

Lembrou haver proferido num comício esta frase vergastadora: “Meus amigos, para ter vergonha todo o tempo é tempo…”

Defesa das mais sumárias no júri: “O acusado matou a esposa, porque se tratava de uma adúltera. Condene-o quem fôr marido complacente…” Absolvição unânime.

Martim achou o cavalo da estátua do rei Carlos Alberto, numa localidade italiana, bastante pacato, bem de acordo com a pacatez do cavaleiro, do soberano nada belicoso que, derrotado pelos austríacos, foi às pressas para a cidade do Porto, e só não prosseguiu porque havia o Atlântico em frente.

Convite a um amigo para jantar: “A comida é às sete da noite, mas pode ir um pouco antes, para mostrar que não vai só para comer…”

Martim recusou uma visita a Butantã, com receio de voltar sem recursos para continuar escrevendo. E relatou-nos que o truque dos cicerones napolitanos, quando conduzem brasileiros ao Vesúvio, é falar-lhes inevitavelmente em Silva Jardim, aliás parente por afinidade de Martim Francisco.

Fontenele e eu, um escrevente do cartório vizinho e um oficial de justiça célebre por ter transformado um síndico de banco em “cínico de banco”, todos nós nos regalávamos com as pilhérias desse advogado que dizia as coisas mais jocosas sombriamente, como se lesse uma notícia de obituário.

E explodiu uma risada crepitante no auditório ao enunciar ele este aforismo delicioso que Chamfort não vacilaria em subscrever: “Há caras que de veriam pagar indenização a quem as encontrasse. Boa idéia, devendo aliás ser logo posto em contribuição aquele que a teve.”

Muitas outras “boutades” saíram, ali no recanto de um edifício sem graça de Paraíba, desse brasileiro que semeava epigramas em Santos, enquanto o Martins Fontes semeava galanteios.

Mas depois o Rafael Pinheiro, redator de debates da Câmara, garantiu em palestra que Martim Francisco, sendo deputado federal, revia duas ou três vezes a prova de cada discurso seu e fazia questão de que o publicassem com a declaração seguinte: “Não foi revisto pelo orador.”

Seguem-se agora vários pormenores sobre a estada de Carlos Gomes em Paraíba do Sul, onde se inspirou para a mais famosa melodia do “Schiavo”. Objetarão os cultores da cronologia severa que estas minúcias chegam tarde, chegando quase ao fim das minhas reminiscências provincianas. Mas é que só ali por 1940 alguém me falou extensamente desse visitante glorioso. E não foi um paraibano, foi um campista.

Chamava-se Tomé Guimarães o poeta que tão ardorosamente me disse coisas e coisas a respeito do musicista por ele classificado de “Orfeu selvagem”. Tomé era uma espécie de cartório, de arquivo, de copioso documentário de tudo quanto se prendesse a Carlos Gomes. Trazia sempre no bolso retratos, em diversas atitudes, do maestro paulista, e os exibia com a gravidade e a unção de quem exibisse imagens de santos.

Carlos Gomes fora por ele hospedado numa fazenda de Campos, quando Tomé vivia em opulência das maiores, e montara lá um belo cavalo a que o dono dera o nome de Pégaso e que daí em diante não foi montado por mais ninguém, gozando confortável aposentadoria graças a um tal cavaleiro.

O amigo do operista ficara, num acidente, sem o braço direito, e afirmava ainda sentir, em certos dias, doerem-lhe os dedos da mão perdida, mão com que aliás escrevera alguns versos estimáveis.

Pois, ao que ouvi do Tomé, foi um parente seu, bem mais idoso, quem, no ano de 1880, acompanhou o compositor do “Guarani” à Paraíba, e, na minha cidade, Carlos Gomes, adorado no tempo, devido aos seus triunfos na Itália, viu-se festivamente acolhido à margem do rio, abrindo-se para ele, como que a escancarar portas de ouro, o palacete do major Damião, desfrutador do rendoso tabelionato preferido pelos advogados cearenses que com esse major tinham vindo da terra de Alencar.

Em estantes do palacete havia muitas obras de ficção, mas quase todas de hímen intato. A biblioteca era o sítio menos frequentado da casa. Mofavam num triste exílio os escritores franceses, enquanto os vinhos importados da França, vinhos ou sol engarrafado, encontravam outro gênero, mais prático, de “leitores”, e estes bastante assíduos.

Carlos Gomes encantou a todos pela sua enleante cordialidade, falando aos garotos, aos pretos esfarrapados e a uma velhota que lhe levou a pequena bisneta para que ele a abençoasse. Autografou partituras suas que dois ou três melômanos da localidade conservavam.

Não era dos que carregam uma auréola na maleta de viagem para utilizá-la diante dos admiradores. Estando em Paraíba não assumia os modos oraculares de quem se achasse em Delfos. Sem abandonar nunca a piteira, prodigalizava-se em apertos de mão. Mas dessa mão (já o tinham tratado de “manirroto”), saíam constantemente moedas para os confrades pobres, pensando ele que a moeda, redonda como é, foi feita para rodar pelo mundo.

Apenas os meus conterrâneos lhe estranhavam um tanto a cabeleira, em que enxergavam um anacronismo depois dos românticos à Fagundes Varela.

Carlos Gomes interessou-se em ouvir os músicos da região, reunindo-os numa serenata e entoando com desenvoltura a sua modinha dos tempos juvenis: “Tão longe, de mim distante…” Por sinal que se riu, no fim, das redundâncias do poeta sergipano Bittencourt Sampaio, autor da letra, e habituado a explicar-se em excesso, como quando noutra letra, também musicada pelo campineiro, chamou o Brasil de “imenso colosso gigante”. Uma informação de Carlos Gomes e que, na primeira representação do “Guarani”. em Milão, não figurava ainda a protofonia, errando o crítico carioca que veio a dar o auditório milanês como deslumbrado por ela logo na noite da estréia da ópera.

Confessou seu contentamento ao saber que criaturas do povo cantavam árias suas na Itália, na cidade ou no campo, e baixou a cabeça, entre jubiloso e emocionado, quando um clarinetista paraibano lhe repetiu o conceito de que ser assim célebre no estrangeiro é ter a posteridade em vida.

Queixava-se da aproximação da velhice, declarando, talvez contagiado pelo fácil lirismo dos seus libretistas, que nenhum de nós pode ter duas juventudes, pela simples razão de que não há duas primaveras no ano.

Acrescentava sentir medo da decadência, de acabar discípulo de seus discípulos. E insinuou, meio irônico, que os louvores feitos a artistas que envelhecem são comparáveis às comidas que os orientais põem no túmulo dos parentes.

Mais que da carne e dos legumes, gostaria de frutas e, se pronunciava o nome de qualquer delas, era como se já metesse os dentes nessa fruta, era como se já estivesse a saboreá-la devagarinho.

Diante das formosas paisagens de Paraíba, não se desmandava em elogios, não adjetivava freneticamente: permanecia minutos e minutos em silêncio a admirar aquelas arvores, aquelas águas, aquelas colinas .

“Quando venho ao Brasil, remoço vinte anos!”, eis o seu refrão mais impressionante.

E pareceria meio infantil o sorriso com que Carlos Gomes, visitando um sobrado em ruínas da Encruzilhada, sugeriu que deviam alugar um fantasma para esse casarão, o que seria bem romântico.

Exaltou os romances de Alencar, declarando encontrar como que um coral de harpas e flautas em sua prosa. Decorara na mocidade poemas inteiros de Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu, gabando-se de que sua memória aderisse de pronto aos belos versos. Do seu mestre Giuseppe Verdi dizia: “É um monstro. Roubou-nos tudo, plagiando antecipadamente a nós todos…”

Assegurava poeticamente: “Nada estará perdido enquanto houver no mundo violinos e rouxinóis…” Não tardando uma patriótica errata em que os rouxinóis eram substituídos pelos sabiás.

Recordava os dançarinos que vira na Itália, embora a dança se lhe afigurasse apenas um voo frustrado. E, voltando a brincar, referiu-se a um músico patrício que quase não compunha: apenas descompunha a esposa e aplicava aos filhos música de pancadaria.

Nas palestras, Carlos Gomes não romanceou o seu passado. Julgava a palavra “tramonto” mais expressiva que “crepúsculo”, porque nos mostra o sol a descer além dos montes.

Embora tivesse vivido longos anos em Milão, alegrava-se mais em Nápoles, no pitoresco das romarias a Piedigrotta, das roupas remendadas secando em plena rua, dos cocheiros a disputarem-se os fregueses entre pragas e blasfêmias, dos mendigos de fraseologia patética, dos teatrinhos de fantoches, dos cachos de uvas colhidos nas encostas do Vesúvio, dos repentistas que, em troca de uma lira, improvisam poemas onde as rimas se beijam como bocas de amorosos…

E reconheceu que esses boêmios tinham por vezes mais talento que o libretista Ghislanzoni, seu amigo e autor daquele galanteio em que, na ópera verdiana, se fala em erguer um trono a Aída “junto ao sol”, o que talvez fosse agradável no inverno, mas pela certa seria bastante incômodo no verão…

Interessante é que, sem aludir nunca ao programa que o levara àquele recanto fluminense, parolando a esmo, sem tomar nenhum apontamento, sem rascunhar coisa alguma, ia ele prendendo à retentiva as notas que mais tarde enriqueceriam a partitura do “Schiavo”.

Foi ainda o parente de Tomé Guimarães quem conduziu Carlos Gomes ao Rio de Janeiro, de onde ele seguiria para São Paulo, desejoso como estava de rever Campinas.

E Tomé contou-me que, durante a viagem, o protegido de Pedro II desenvolvera comentários argutos em torno aos hinos de vários países. Para ele a “Marselhesa” foi o febril arremesso de um Rouget de Lisle que nem sequer era músico profissional. O hino de Francisco Manuel partiu de um homem cuja real carreira artística começou e findou nessa página maravilhosa. E eu, embora intruso em tais assuntos, recordei que mais tarde o hino português, oficializado pelos republicanos, seria produto de um Alfredo Keil, autor de óperas sem fleuma a que faltou um amanhã vitorioso…

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