Lembranças de minha cidade natal (32)

0

Por Agripino Grieco

Deu-se uma coisa bizarríssima em Paraíba do Sul. Explica-se que passassem por lá o ator Afonso de Oliveira, com suas orelhas desmedidas, acompanhado de um secretário espanhol que declamava versos de Campoamor, e um ilusionista que plantava arroz no palco e o fazia logo crescer de modo profuso, para deslumbramento dos lavradores locais.

Mas não compreendo por que aparecesse em minha cidade um lusitano que se dizia descendente do conde de Vimioso, do fidalgo que se entregou a proezas de tauromaquia e foi amante da boêmia Severa.

Esse visitante assegurava-nos haver sido muito elegante nos tempos de jovem, e, entanto, não ostentava, ao chegar até nós, nenhuma pompa de trajes que o aproximasse do janota Almeida Garrett. E o mais extravagante é que, declarando-se exilado de Portugal por motivos políticos, desandou ele a percorrer o Estado do Rio, já tendo falado em Vassouras e Valença, não para recolher moeda, mas unicamente para realizar conferências em torno daquilo que ele rotulava de “arcádia comercial”.

Guardo retalhos do que lhe ouvi há tantos anos, no teatrinho de Paraíba, e duvidando de início que esse orador conseguisse congraçar dois vocábulos assim opostos. “Arcádia” sugere sonho, poesia, recanto bucólico, e “comercial” não vai sem balança, balcão, cofre e outras invenções nada líricas. Recordo bem o homem. Metido em roupas bastante usadas, sentia-se que passara longo tempo escovando-as, friccionado-as com líquidos depuradores.

Aliás, um seu conhecido, o Augusto Amorim, industrial em Barra do Piraí, contou-me mais tarde que esse Vimioso, autêntico ou de contrafação, tinha a mania de, onde quer que estivesse, varrer seu quarto, envernizar caprichosamente os móveis e dar nova arrumação aos quadros colocados nas paredes, tudo com uma constante meticulosidade burguesa, mais de matrona caturra que de varão ainda não de todo curvo debaixo do guante da velhice.

Em sua conferência, para ajustar um tal substantivo poético a um adjetivo prosaico, proclamou o semeador de idéias que as casas de negócio deviam, todas elas, converter-se em sítios de recreio. Provavelmente não lera Fourier, mas, como o filósofo do “falanstério”, queria que Apolo entrasse pelos domínios de Mercúrio.

Achava obrigatório escolher os guarda-livros entre os poetas. Quem não tivesse composto ao menos vinte linhas rimadas não mereceria o honroso encargo de fazer escrituração mercantil. Se em todo número há ritmo, impossível elaborar uma boa conta sem antes haver apresentado um bom soneto. Desejava que os homens labutassem como as abelhas, na luz e entre flores, e não com a agitação atropelada das formigas.

Em meio a duas cartas a fregueses conviria ouvir a execução de trechos de música que infundissem melodia aos chavões convencionais. De três em três horas, ficaria bem, no verão, servir aos empregados, do caixeiro mais ínfimo ao gerente, sorvetes de morango e refrescos de orchata, distribuídos por lindas adolescentes metidas em vestes pastoris, como nas festas de Maria Antonieta.

Nada de exorbitante se os armazéns fossem frequentemente lavados com águas odoríferas, e ao principal sócio da firma, o de mais vultosos capitais, caberia, ao deixar para sempre as suas tarefas, uma coroa de louros, entregue com discurso, num prêmio ao seu esforço pela prosperidade da casa.

Nobre ideal esse: o trabalho sem lágrimas.

A qualquer menina, compradora de mercadoria de pequeno custo, ofertar-se-ia uma boneca do dobro do valor, além de mimoseá-la com punhados de confeitos.

Belo isso de emprestar a qualquer balcão a graça e o encanto do balcão de Julieta sob o luar de Verona.

E curioso é que o conferencista desdobrou toda a sua parlenda num tom solene. Ressequido, com uns olhos brilhantes de ideólogo, de visionador de novos mundos onde as criaturas se tornassem mais felizes, terminou garantindo que o comércio deixaria de ser um campo de luta antropofágica se adquirisse essa tonalidade romântica.

Lembro o seu ar extático, ao expandir-se como quem se embriagasse sem ópio, apenas com o álcool das palavras. Parecia um novelista desviado da ficção e desejoso de transmitir um caráter prático a inviáveis mitos. Verifiquei que seus ouvintes eram em número reduzido, e até sorri quando ele empregou, em dada altura, a expressão: “Aqui entre nós…”

A ninguém impressionaram as sugestões do pretenso inovador. Alguém, vendo-o beber muita água, chegando a esvaziar, em oitenta minutos, duas ou três garrafas, teve esta classificação: “orador hidráulico”. E um médico assinalou que, se ele retornasse a Lisboa, acabaria em Rilhafoles, morada de quantos por lá foram à lua antes dos atuais astronautas.

Mas depois eu deveria discordar. Porque, à parte essa espécie de fourierismo retardatário, o homem era bem judicioso nos seus conceitos. Entre outras coisas asseverou-me que, lendo Cervantes, foi como se tirasse a sorte grande na loteria da Espanha. Encontrava nas repetições meio arrastadas da “Rêverie” de Schumann um ritmo masturbatório. Gostou da referência a um confrade que defendia a Polônia em público e espancava a esposa a domicílio.

Do lirista João de Deus declarava ser o irmão que lhe faltou na vida. E, zombando de si mesmo, riu-se do seu minguado auditório e observou que, povoando a mesa diretora da reunião, haviam despovoado a platéia…

E o que dizer de Amélia de Oliveira? “Mulher esquisita!” sussurrava uma velhota da rua Direita, em Paraíba, ao avistar à janela, muito embevecida na luz do luar, aquela jovem que se vestia sem luxo, falava pouco e raramente saía de casa. Morava ela com o irmão, funcionário postal e um dos componentes da dúzia e meia de poetas da família de Alberto de Oliveira.

Grande Alberto! Não sei se alguma vez se demorou ele em plagas paraibanas, embora houvesse celebrado, em ritmos grandiloqüentes, o rio que banha a cidade do seu amigo Soares de Sousa Júnior. Em suas palestras na capital do país, nunca lhe ouvi uma alusão às palmeiras e às ilhotas de lá.

Entronizado no triunvirato poético em que fulguravam Olavo Bilac e Raimundo Correia, mal permitindo uma espécie de suplência a Vicente de Carvalho, era Alberto guindado de frases, mas sempre com uma polidez de gentil-homem. O andar demasiado ereto e a voz grossa jamais o tornavam irritante.

Foi um panteísta de verdade, nostálgico dos recantos nativos onde vira um vestido verde de linda mulher esvoaçar pelos caminhos, e erram os que enxergam nele um simples botânico. Quando fugia a um classicismo livresco, de cerebral, e deixava o coração, nobre mestre de arte poética, expandir-se à vontade, ia sem esforço à alma dos que o lessem. A delicadeza era, por assim dizer, a sua faculdade predominante. Abandonando a mitologia e olhando as nossas árvores, sentindo o cheiro dos cajás maduros ou bebendo água da fonte numa folha de taioba, encantava-nos, restituído de todo ao nosso entusiasmo.

Evitou noitadas boêmias com zurrapas medíocres alteadas a vinhos gregos, e insulou-se numa discrição que não chegava a ser orgulho, mas o aproximava desse Vigny que desdenhava a fama populaceira, tão inimiga da nobre glória eterna. Há no “Livro de Ema” uns platonismos e sonambulismos de penetrante sugestão de mistério. Aí o parnasiano permitiu que realmente falasse a sua juventude, em lugar de envelhecer-se com os fósseis literários mumificados nos compêndios.

E seu irmão, o serventuário do Correio de Paraíba? Nada possuía de desprezível. O bom Saturnino poetava sem melindre às Musas, mas ocultando as suas produções, como que envergonhado de parecer tentar qualquer concorrência ao supremo lirista da estirpe, a quem chamava sempre de mestre, ainda que este revidasse, com modéstia talvez ironicamente simulada: “Qual mestre! Somos todos condiscípulos na universidade da vida…”

E a irmã dos dois? Recebera na pia batismal de uma localidade da nossa província o nome régio de Amélia, mas viveu anos e anos confinada na sombra, viúva de uma quimera da adolescência, noiva que fora, noiva efêmera, de Olavo Bilac.

Só a música, especialmente a música arcangélica de Mozart, a consolava na solidão a que se condenara, solidão quase de claustro e que deveria aumentar quando ela vagava em meio à multidão do Rio de Janeiro, onde procurava rever os sítios que percorrera ao lado do admirável tecedor de mentiras que foi Bilac.

Sim, mostrou-se este o mais artificioso dos cariocas, derramando-se por escrito em meiguices ou em furores sensuais que nunca lhe perturbaram os trabalhos rendosos, conduzidos com um sereno método burocrático, quando ele consagrava à pedagogia e ao jornalismo um fervor não menor que o dedicado às amantes imaginárias de que se conservou tão distante como da Via-látea ou das feras e torrentes afrontadas por Fernão Dias Pais.

Amélia era doida pela luz primaveril, mas evitava-a como se se tratasse de um pecado, de uma volúpia proibida à sua condição de meio monja, que via na saudade do amor um amor em acréscimo, e jamais o vituperou, se bem que do amor apenas lhe tivessem vindo um pão e um vinho envenenados.

Conseguia alegrar as crianças, ela que trazia sempre uma lágrima desejosa de subir-lhe do coração às pálpebras.

Certos sonetos seus, podendo assemelhar-se a desabafos de alguém que vira frustrada a ânsia de matrimônio, a cômoda aspiração de aburguesar-se, eram, inteligentemente lidos, epopéias de uma brasileira abnegada que, renunciando a tudo, se amordaçava à hora das queixas que redundassem em maldição ao destino.

Nunca lhe escapou uma imprecação contra o poeta gélido que pretendia parecer tórrido e contra dois parentes preconceituosos, contra todos os que lhe enlutaram a existência.

Não fez Amélia uma única amizade entre as matronas de Paraíba do Sul. Fugia das reuniões onde cantassem, dançassem ou recitassem poemas.

Quanta coisa acontecendo na interioridade dessa vida aparentemente obscura, quantas palavras aladas nessa convivência silenciosa com os seus mortos!

Entanto (nota a assinalar), seus versos têm algo de comunicativo que a poetisa nem sempre revelou em pessoa. Estabelecem uma feliz correspondência epistolar com os leitores mais indiferentes.

Tal qual no caso dos palimpsestos, é retirar a escrita mais visível e aparecerá por baixo, relatada sem maquilagem nos vocábulos, a história de um coração que era bem de carne e não de pedra.

Há seiva humana, clorofila de afeto, em suas confidências de criatura vencida, mas não humilhada pela derrota.

Sabia Amélia de Oliveira que uma rosa ou uma estrela são nos iludem nunca. E, com uma enternecedora capacidade de perdoar, achava que a arte é imensa, mas o amor a sobrepuja.

Gostando de que meninos e meninas rissem junto dela, à antiga noiva de Bilac só restava no fim o divino dom do pranto, dessas lágrimas que ela, como a inglesa Elizabeth Browning, comparava a uma “chuva quente de paixão”.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here