Lembranças de minha cidade natal (30)

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Por Agripino Grieco

Olavo Bilac, Luís Murat e Guimarães Passos. Minha referência aos boêmios que vinham à vivenda do advogado Martinho Garcez, em Paraíba, poderá dar idéia de que eu não os admirasse suficientemente bem. Mas não é assim. Em moço, li-os e prezei-os todos. Circunscrevendo-me, porém, ao período paraibano, eu não podia, dentro de esclarecimentos locais, saber então o que eles realmente significavam na literatura brasileira.

Meu pai, absorvido pelo comércio, não prestou atenção a esses cultores da poesia parnasiana. Só muito mais tarde, encontrando o meu conterrâneo Pires de Almeida numa casa de músicas da rua do Ouvidor, é que recebi dele detalhes expressivos no tocante àquela invasão de poetas num palacete da minha cidade, invasão aliás provocada pelo dono do palacete.

Martinho, além de orador facundo, também escrevia, ficando célebre no Rio, decênios depois, o seu artigo contra um colega maldizente, que ele apelidaria, para gáudio de muitas vítimas do tal verrineiro, de “cão do foro”. Mas vejamos um pouco mais minudentemente os literatos que se lhe iam atirar à mesa e à garrafeira.

Na ocasião, segundo o Pires de Almeida, homem probo nos comentários, não impressionaram eles agradavelmente os moradores de Paraíba.

Nem estava lá para defendê-los, como bom confrade que era, o Soares de Sousa Júnior, já então atarefado em escrever crônicas nos jornais cariocas e em ajeitar para a atriz baiana Ismênia dos Santos, em quem os espectadores encontravam a voz de ouro de Sara Bernhardt, peças francesas, mágicas e dramas.

Dias da Rocha Filho era um paranaense de extrema timidez, incapaz de meter-se em controvérsias que pudessem degenerar em pugilato.

E Celso Ribeiro, meio enfermo, embevecia-se no filho recém-nascido, a que dera o nome de Nilo, e só deixava uma saleta cheia de livros e quadros para ir cuidar do jardinzinho plantado ao fundo da sua casinhola.

Ora, os paraibanos, de modo geral, não acolheram com ternura os três representantes do Parnaso. Gostavam eles de homenagear políticos encasacados e encartolados, fazendeiros ricos da região, militares e sacerdotes respeitáveis, e, um tanto alheios às belas letras, não deviam compreender e ainda menos estimar aqueles jovens de ares turbulentos e não muito esmerados no vestuário, que vinham perturbar a quietude de um recanto onde os habitantes pareciam desfrutar de uma sesta ininterrupta.

O que já seria, entre os invasores, mais notório na poesia do país, Olavo Bilac, empolgara a capital com seus deliciosos versos, sem que tivesse aparecido ainda quem duvidasse do seu carnalismo, quem enxergasse nisso apenas um tema literário.

Ninguém concluíra serem tais expansões de lubricidade mera exploração livresca, reflexo de bibliotecas e não de proezas de alcova.

E Pires frisou que, enquanto os companheiros de Bilac na viagem à Paraíba procuravam o bairro em que habitavam Afrodites mestiças destinadas a amansar a luxúria hebdomadária dos solteirões da localidade, o cantor da “Via-látea”, pretextando um assalto brusco de inspiração, se trancava no escritório de Martinho e ia compondo e recompondo, com paciência de miniaturista, poemetos em que ejaculava no papel a lascívia que não podia aproveitar em ação direta.

Entre outros, havia um trabalho que ele dedicou, no jornal, a um artista, e depois estampou em volume sem dedicatória alguma.

Tudo isso, ignorado por mim na primeira idade, não poderia influir, ainda que eu o soubesse, no entusiasmo quase frenético com que vi Olavo Bilac à porta da “Gazeta de Notícias”.

Era ele, com um olho assimétrico, pessoa de uma fealdade fascinante, havendo em quanto dissesse aquela graça que La Fontaine reputava mais bela que a beleza, de modo a arrancar de uma velhota, cativa das suas palavras, esta declaração: “As conferências de Bilac só têm um defeito: acabam…”

Como que os leitores desculpavam as linhas de prosa intercaladas nos seus versos e logo absorvidas por um feliz toque lírico subsequente.

Engenhosas as suas crônicas, feitas de coisa nenhuma, tais quais as roupas de Mimi Pinson.

Apenas andou mal o erótico, real ou falso, das “Sarças de fogo” querendo ser pensador na “Tarde”. Não, a inspiradora de Bilac, por artificiosa que fosse, era outra parte do corpo que não o cérebro.

De qualquer modo, incapaz de crítica, o pobre Agrippino acreditava na Cleópatra e na Satânia do mestre glorioso.

Não fumando nunca, cheguei a comprar carteirinhas de cigarros que traziam retratos de supostas cortesãs gregas, para colá-los nas páginas em que o animador de visões nos aturdia com a sua Laís e a sua Frinéia.

E, vindo ao Rio, minha maior ânsia era ver de perto o criador que suscitara em mim tantas miragens voluptuosas. Vi-o já então bem arrumado nas roupas, sem nenhuma negligência boêmia, e com um laço de gravata que fazia presumir relativa demora diante do espelho.

Viera ele da sua adorada Lutécia, onde encontrara Verlaine bêbado a cantarolar entre pipas de uma taverna, e tenho a impressão de que haveria escovado o fato com tristeza, lamentando retirar dele a poeira de Paris.

Não lhe ouvi, no momento, nada de interessante. O homem não fazia gastos de eloquência para alegrar, de modo gratuito, qualquer basbaque. Fui ouvi-lo sim, em frases belas, numa conferência paga, encontrando naquele cidadão de boa memória e fala das mais límpidas um escamoteador de tempo, que ria dos relógios e nunca permitiu que os ouvintes passassem do sorriso ao bocejo.

Vou repetir alguns conceitos do Bilac, recolhidos, por um amigo seu e meu, em conversas de café.

Do prefaciador de um morto ilustre, que bem dispensaria o prefácio, disse ele: “Montou abusivamente na garupa do Pégaso…”

A propósito do caminhão que entrou por uma biblioteca: “Foi o único ali a mostrar avidez de leitura…”

Observação sua: “Crisálida é feia e borboleta é bela, mas a expressão “borboleta” é inferior à expressão “crisálida” em beleza…”

Malícia: “Empregado de livraria e caixeiro de confeitaria não consomem nunca os produtos da casa…”

Esta outra: “Desculpável asneirar sendo patrício do Laudelino Freire, indesculpável asneirar sendo patrício de Dante…”

Mais esta: “Ouvindo ópera, os mineiros querem o “bis” de todas as árias, porque vem de graça…”

Sobre um sobrinho seu:              “Recitando versos, estropia-os com uma memória de mau pagador…”

Não esquecer isto, referente a sonetos de um velho parnasiano: “Diamantes de vidraceiro…”

Ainda isto, atribuído a um clínico em condição de visitante: “Não venho como médico, venho como amigo…”

Comentário justo: “Em São José do Rio Pardo, onde elogiam tanto o Euclides da Cunha, nenhum morador o lê…”

Finalmente, uma alusão a notável confrade da Academia de Letras: “Eduardo Prado, que tinha duzentas camisas, devia ser infeliz, porque o homem feliz da lenda não tinha camisa…”

Luís Murat foi tão grande no talento quanto é grande a injustiça dos que procuram olvidá-lo.

Bebia imoderadamente, talvez mais que o Bilac e, acreditando-se talvez de corpo apolíneo, desejava que todos se beneficiassem admirando-lhe a anatomia.

Desafiava meio mundo para duelos de morte, embora nada entendesse de esgrima.

No melhor da festa, afastava-se do seu grupo, rugindo a sentença de que os leões não sabem andar em rebanho.

Uma ode em exaltação ao chanceler Rio Branco, aliás brilhantemente elaborada em alexandrinos, assegurou-lhe um lugar polpudo em cartório, e o d’Artagnan dos desafios truculentos passou a estiolar-se entre oficiais de justiça e escreventes sem nenhum encanto.

Quase ao fim da vida resolveu Murat aderir às doutrinas de Swedenborg, fazendo-se curandeiro e servindo uma água milagrosa aos vizinhos enfermos, embora, quando enfermava ele próprio, corresse logo ao médico.

Tinha um belo cachorro em casa e, afagando-o, declarava aos parentes: “Não o troco pelo Zé Veríssimo…”

Seus versos, entre obscuros e luminosos, são frangalhos de nevoeiro a arrastar estrelas.

Detestava ele o soneto, achando que cultuá-lo era por grades à imaginação. Queria, sim, repetir a larga respiração hugoana.

E há nele por vezes explosões de gênio, embora não fuja à desconexão nas melhores passagens do seu estro. Era como se Luís Murat fizesse dez ou vinte estrofes e as guardasse na gaveta, continuando a tarefa no dia seguinte, sem ler o que anteriormente escrevera.

Quanto às suas convicções políticas, pareciam vestir um tecido furta-cor. Passou ele por muitas sinceridades sucessivas.

Atacou e depois louvou Floriano Peixoto, como, também volúvel em literatura, investiria contra Machado de Assis após inclinar-se diante dele numa curvatura inexplicável no mosqueteiro vindo, com o sobrenome de guerreiro de Napoleão, da fluminense Itaguaí.

Deveria Murat ter especial simpatia pelo rio Paraíba, que, antes de banhar a cidade homônima, passa por essa Resende onde decorrera o seu imenso amor juvenil, amor que dizia proibido, com uma Sara enigmática.

Atacou Raimundo Correia, acusando-o ferozmente de plágio. E, respondendo ao discurso de recepção de Humberto de Campos na Academia de Letras, invectivou o defunto Emílio de Meneses, que Humberto excessivamente elogiara, comentando alguém que, ao contrário do que acontece no júri, o defensor falara ali antes do acusador.

Nem faltaram ao Luís Murat, a par de lacrimosas elegias, minutos de sarcasmo. Não gostava de Cruz e Sousa, em quem via um ídolo negro, um fetiche de filhos do Paraná, que não tinham a domicílio nada de bom e tiveram de requisitar esse catarinense, reescravizando um preto apesar da lei abolicionista.

A garganta de um velho barítono afônico parecia-lhe forrada de baeta.

A propósito de um tabelião: “Diz asneiras e cheira mal com a mesma naturalidade com que os sabiás cantam e as rosas perfumam…”

Sobre um médico que estimulava o cultivo das vinhas e, forçado pela doença, não podia beber: “É um Tântalo das adegas…”

Com referência a um engraxate que se fez livreiro: “Lustrava e agora ilustra…”

E há esta resposta do nosso poeta a um crítico que o achava pouco profundo: “Você se esquece de que também as toupeiras se aprofundam na terra…”

Guimarães Passos talvez fosse o mais simpático do bando, não tanto pelo realizado, mas pelo que deixou em esboço numa existência que se desenvolveu entre o sonho e o álcool.

A modinha da casa branca da serra e o soneto sobre o lenço, que de tão utilizado pelos recitadores acabou exigindo providências de lavadeira, não são grande coisa. Entanto, aí está uma entrevisão de poesia que vale a poesia bem ultimada.

Não quis ele jamais empregar-se, submeter-se ao arrocho de qualquer função: alegava ganhar muito mais mordendo os amigos.

Escasso de pecúlio na vida como na poesia, amou a filha de um capitalista, de nome Gioconda, e, como o poeta a tratasse de Mona Lisa, passaram a chamá-lo, na confeitaria Colombo, Mono Liso.

Ante o cadáver de uma ricaça que o festejava sempre com chá e biscoitos, teve esta frase para alguém que o acompanhava: “Foi amar no Céu!” Se bem que “amar” não fosse bem o verbo empregado por ele, mas outro mais grosseiro…

“Fidus Achates” de Bilac, quase se afastou do lirista das “Virgens mortas” ao vê-lo metido numa empresa comercial, dizendo estar ele virando cofre.

Queixudo, com fartos cabelos a encobrir-lhe as orelhas, fumava sempre, ou melhor, fumegava onde quer que estivesse. Amulatado, era um zíngaro na cidade populosa, mudando de casa de semana em semana.

Assinava-se Fortúnio, mas o seu fim melancólico em Paris, longe dos risos estridentes da sua rodinha carioca, justifica o conceito agostiniano de que todos nós acabamos humilhados pela vida. No jogral há, oculta, uma carga de lágrimas que mais dia menos dia lhe desfará a pintura da face.

E em terra estrangeira deve ter sido crudelíssima a sua agonia. Não mais riria ele como quando assegurava que devíamos instituir aqui um amor de locação igual ao das gueixas: não servindo a mulher, não se renovaria o contrato.

Definia assim o Quintino Bocaiúva: “É um monumento andante erigido a si mesmo…” Nos fotógrafos via funestos multiplicadores da fealdade humana. A um seu capote velho, que não acabava nunca, classificava de discurso de Rui Barbosa.

Sobre um rimador complicado: “Não é poeta, é seção charadística.” Chamava calafate a um senhor que desposara uma senhora já aproveitada por outro. Dos empregados públicos declarava serem mamíferos das folhas de pagamento.

Por ocasião de um projeto de reforma ortográfica saiu-se com esta: “Jó agora ficará em completa miséria: até o “b” do nome lhe vão tirar…” A propósito de um burocrata muito zeloso: “Gosta tanto de adiantar-se que até nasceu de sete meses…” Alusão a uma batalha qualquer: “O canhão não disparou, mas os combatentes dispararam…” Alcunha aplicada a um sujeito que redigia artiguetes religiosos: “Vitrina da Casa Sucena.”

Guardem esta: “Toda piteira perdida é de âmbar, todo violino roubado é Stradivarius…”

Um banqueiro, versejador medíocre, era chamado pelo Guimarães Passos de poeta “honoris causa”.

E observava ele, judiciosamente, que ao fim de muitos livros deveríamos escrever: “Pela cópia, conforme…”

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