Lembranças de minha cidade natal (29)

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Por Agripino Grieco

Importaria em deplorável ingratidão repelir da minha memória dois nomes que, apesar de bem másculos, tinham aos meus ouvidos, na idade em que tudo é surpresa e encanto, a doçura de um timbre feminino: Eça de Queirós e Gabriele d’Annunzio.

Eça seria qualquer coisa como a Tejo vindo desaguar na baía da Guanabara. Os brasileiros não se saciavam dele. E sentíamos lendo-o que, malgrado as suas afetações de cosmopolitismo, não houve escritor mais racial e nacional que ele, sendo que desportuguesá-lo redundaria em transformar as suas vivíssimas personagens em espectros, em viscosas larvas.

O homem que sorriu dos turistas da agência Cook, dos “trotadores do globo”, não pode, não deve ser desenraizado do seu rincão e lá se lhe irá toda a seiva criadora se olvidarmos que ele nasceu numa zona de pescadores afeitos a soltar palavrões e a sacudir gestos obscenos diante dos temporais, recebeu o sal do batismo, por ele tornado sal de malícia em tantos romances, numa cidade de devotos à antiga, e percorreu, mais impressionado do que desejaria o seu cepticismo, esse Minho risonho, todo giestas e rios, moinhos, vindimas e ceifas, danças e cantos moldados em ritmos seculares.

E que palheta riquíssima a sua, que segurança nas pinceladas verbais, ao dar carne e sangue a figuras que em narradores vulgares não passariam de bonecos movimentados por titereiros canhestros!

No “Crime do padre Amaro”, ficção entre citadina e rural, vêem-se beatos dos dois sexos, ou um sujeito sem sexo definido, o rebolante Libaninho.

A paisagem, embora marcada em notas certeira, não chega a devorar as figuras, e a comparsaria, das mais pitorescas, apresenta-se numa sucessão de perfis em que se reconhece o homem de teatro que jamais desapareceu no Eça de Queirós, ator dos mais empolgantes nas realizações cênicas dos estudantes de Coimbra.

Lembro que, passando por Leiria, perguntei a um criado de hotel se o padre Amaro ainda continuava lá a confessar carolas, e ele me respondeu, dando-me o troco em feliz piada, que devido aos seus maus costumes o corruptor da Amélia fora transferido para o Brasil, onde talvez o guindassem a bispo.

Quanto ao “Primo Basílio”, é ligação, na retentiva dos leitores, de dois tipos que estariam destinados a produzir monstros se se conjugassem realmente: o Acácio, que nos obrigou a incorporar à língua o adjetivo “acaciano”, como do Pacheco das curtas de Fradique Mendes resultaria o expressivo “pachecal”, e essa incomparável Juliana, em que há centelha de Shakespeare e que surgiu em livro, com a sua mania do calçado, antes de análoga personagem em Octave Mirbeau.

Mas, se “O Mandarim” permanece uma pequena narração filosófica de sabor voltairiano, sendo uma hora de repouso do autor entre os cansaços de dois romances corpulentos, “A Relíquia” serve-nos um álbum de caricaturas que nem Rafael Bordalo Pinheiro ofereceria igual, com o gênio da deformação a por à mostra a dentuça agressiva do sarcasta e a por chispas diabólicas no seu monóculo que às vezes parece especulo a examinar partes baixas das heroínas.

“Os Maias” são obra-prima eterna. Ler esse romance redunda em deixar cair os braços desenraiadamente, tombando na inércia para tentativas de ficção semelhante em nosso idioma. A viagem a Cintra destina-se a florilégios da prosa universal.

Quem tiver pressa não tome desse livro para qualquer consulta, porque acabará tendo de relê-lo todo.

Tudo aí se nos afigura desconexo, fragmentário, mas é o desconexo, o fragmentário, próprio das vidas, e tudo acaba unificando-se, como a lógica resulta sempre do ilógico das vidas.

E o Eça, bom marido, bom chefe de família, forçado à compostura pela função consular, cai em tal romance num pouco de rufianice, levando-nos a um harém onde ficam às nossas ordens as mulheres mais estonteantes, a Gouvarinho, a Cohen, a Maria Eduarda, que escorrem lascívia, podendo ensinar-nos a arte do prazer em vinte lições, tornar-nos técnicos perfeitos nas operações de alcova.

O João da Ega é auto-retrato um tanto narcisista debaixo dos ares irônicos.

Mesmo agora quem percorre Lisboa reconhece o que o José Maria de Eça de Queirós fixou daquelas casas, daquelas fisionomias. Não sei de Baedeker melhor para identificar aquilo.

Ainda por lá florescem sucessores do Cruges e não faltará algum Dâmaso, camaleão com veneno de víbora.

“A ilustre casa de Ramires” quer ser paródia, zombaria talvez aos processos históricos de Herculano, mas um tom de sinceridade se vai insinuando pelos lances verossímeis, as caricaturas assumem a dignidade de retratos, e a gente não tem, nessa leitura, saudade de um Rebelo da Silva, aliás prosador ameníssimo e um dos prediletos do nosso Machado de Assis.

No romance “A Cidade e as serras”, falha o paralelo, sem dúvida absurdo, entre Paris e as montanhas lusas, mas vislumbra-se aí a penitência de quem muito escarnecera dos de seu sangue e desculpa-se, e quer reconciliação, quer ser perdoado.

E os panfletos, que poriam tonto um Rochefort se pudesse vê-los de perto em português, os apupos, as caretas, as risadas diante do “brigadeiro” Chagas e desse Bulhão Pato, nascido em Bilbao por acaso e fértil em espanholadas na fanfarrice dos seus versos?

Apenas desejaria eu que o Eça de Queirós me classe mais dessa Coimbra onde existe, na Quinta das Lágrimas, o filete de água que conduzia as cartas de Inês de Castro ao amante, no mais simples e barato dos sistemas postais.

Quase que me escapavam os contos do grande rigor. Neles o Eça não careceu da peste de Florença para ser um narrador decamerônico.

O início das “Singularidades de uma rapariga loura” encerra algo de musical, numa espécie de adágio soleníssimo: “Começou por me dizer que o seu caso era simples — e que se chamava Macário…”

E tudo isso explica que ainda hoje os brasileiros persistam no hábito, não censurável, de colecionar Camilo Castelo Branco e ler José Maria de Eça de Queirós…

Passemos a Gabriele d’Annunzio. O mais ridículo dos homens, um europeu tartamudo que aportou ao Rio de Janeiro, achou-o, não há muito, ridículo. Disseram, de resto, desse literatelho que, se os escritores da capital da sua terra desfilassem pelas ruas em ordem de mérito, ele só conseguiria passar no quarto dia…

Quanto ao meu d’Annunzio, o d’Annunzio dos meus instantes mais radiosos, mostrou-se de um cabotinismo delirante, se bem que não superior ao de Byron, incidiu em cópias literárias que chegavam não raro ao furto cínico, carregou as jóias da infeliz Duse e depois a humilhou num romance cruel.

Sim, mas os seus censores esquecem as bebedeiras de Musset, o homossexualismo de Verlaine e Wilde e as rapinagens literárias de Anatole France.

E a charlatanice das atitudes do italiano, o histrionismo das suas frases que concitavam ao combate, não vinham de um fanfarrão, de um falastrão qualquer.

Se ele mandava que os outros batalhassem, não se restringia a acompanhar os soldados ao ponto de embarque, retornando à casa para mais tarde celebrar-lhes em calma a vitória ou a morte.

Lutou também, perdeu um olho em aventura bélica, o que lhe deu ensejo de, ainda fazendo literatura, comparar-se a Horácio Cocles. Meteu-se em investidas marítimas e arrancadas de aviação e, condotiere em Fiume, afrontou balas que não eram feitas de açúcar, não vinham de confeitaria.

Pirata de textos alheios, seguiu a tradição dos clássicos que ignoravam os direitos autorais e, se eram petulantes as páginas onde descrevia os seus amores, acabavam enjoiando as suas amadas em frases que valiam bem mais que as jóias surrupiadas por ele.

Foi d’Annunzio anfitrião do meu espírito. Li-o, de início, em traduções lisboetas, não de todo desajeitadas, e aquele lirismo sexual alucinava o rapazelho de Paraíba.

Por vezes punha-me eu a falar mal dele, mas era como se descompusesse a mim próprio, tanto eram meus contos o decalque dos seus.

Atacá-lo? Mas já reconheceram que criaturas como ele são obrigatoriamente versáteis e ingratas. Tudo é combustível para talentos dessa natureza. Não podem submeter-se a afeições monótonas, incolores.

Intrujando os capitalistas ao pretender levantar um teatro de mármore em Albano, nas vizinhanças de Roma, teatro destinado a representar apenas as tragédias gregas e as suas, Gabriele d’Annunzio era um da raça que deu tipos amorais à semelhança de Benevenuto Cellini e do homem total, e não ensaio de um homem, que se chamou Casanova.

Havia nele maior porção de Fra Diavolo que de Fra Angelico. Mas basta ler dez versos das suas “Laudes” a que voltemos a ser súditos intelectuais do retórico que impôs a palavra “velívolo” e exaltou esse Leonardo capaz de ver “a luz em Cristo e a sombra em Judas”.

“Splendide, splendide, splendide!” telegrafava-lhe Sara Bernhardt, não menos cabotinesca que ele, depois de ler a peça dannunziana que lhe era destinada.

Evitemos reincidir na inépcia de julgá-lo ridículo mesmo sabendo que Mussolini, truão bem mais inquietante, o fez príncipe de Montenevoso.

No “Fogo” acendeu ele a mais bela pintura veneziana de palavras. Era d’Annunzio quem escrevia, ou era Ticiano quem pintava?

No volume “Alcíone” há uma inspiração pânica, sucedem-se os ditirambos, tudo são corolas, ninhos e colmeias nessa Itália em que cada cipreste tem um rouxinol ou uma estrela na ponta.

As folhas verdes crepitam debaixo da chuva primaveril, as rosas riem como voluptuosas bocas femininas.

E, tal qual ao leitor de quinze anos de idade, continua a parecer admirável, ao leitor que já passou dos oitenta, essa miraculosa tragédia pastoral da “Filha de Iório”, cuja leitura recomeço sempre, trabalho religioso e étnico, soberbo “canto do antigo sangue” que ele consagrou à Terra dos Abruzzos, aos vivos e mortos da sua alma de poeta, a todos os que por ali amaram e sofreram “entre a montanha e o mar”…

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